sexta-feira, junho 05, 2009

Poesia matemática - Millôr Fernandes

http://universofantastico.files.wordpress.com/2008/12/millor.jpgA três dias eu voltando do trabalho, como sempre parando pra falar com os Hippies na rodoviária, seguindo em frente até passar pelo camelódromo, aonde tenho grandes amigos tatuadores e body piercing, dou um alô para uma amiga, a Lua, ela me respondeu já me mostrando uma pilha de livros jogados, quando vi aquilo fiz a volta pra entrar e conforme fui chegando fui percebendo que era verdade, um país como o Brasil, uma pessoa me joga uns duzentos livros fora, e ninguém fora a Lua estava interessado em procurar alguma coisa, ela também estava meio sem jeito, mas fui logo garimpando a pilha, encontrei um livro do código penal civil novinho, três livros de poesia, sendo um do Millôr Fernandes, nunca tinha lido nada dele até então. Vou deixar pra vocês uma poesia que achei muito boa:



Poesia Matemática

Millôr Fernandes

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


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