quarta-feira, maio 05, 2010

Só mais um vagabundo - Francisco Jamess

Mais uma grande contribuição do nosso leitor Francisco Jamess
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Era uma noite de dezembro.
Estava no computador ouvindo Johnny Cash e olhando para uma página em branco do Word, pensando em um começo pro meu livro. No momento só tinha um enredo em mente, porém nada muito desenvolvido. Escrevia alguma frase sem sentido e a apagava em seguida. Devia ter feito isso umas 20 vezes só naquela noite.
“Boa Noite, rapaz”.
Sabe quando você está ouvindo música e parece que tem alguém está chamando?
“Está sem inspiração?”.
Nesse caso havia mesmo alguém. Olhando para o lado vi que havia alguém sentado na minha cama, que ficava ao lado da escrivaninha, pouco atrás do meu campo de visão. Era um homem de aparência jovem e com um sorriso de orelha a orelha. Vestia uma camiseta preta, uma calça jeans escura e um allstar preto. Tinha grandes cabelos loiros caídos na altura dos ombros
— Olá.
Caí pra trás com a cadeira, tamanha a ousadia daquele cara, mais por causa do susto mesmo. O fato é que ele apareceu de repente e eu não o vi entrando.
— Puta que pariu que susto do caralho!
— Acalme-se, rapaz! Meu nome é Baco e eu estou aqui para conversar com você.
— Conversar é? – levantei e coloquei a cadeira de volta no lugar – Ai, que pontada no peito… Você quase me matou! Quem é você pra início de conversa, e como você entrou aqui.
— Como eu já disse, meu nome é Baco, eu entrei por aquele portal ali – disse ele apontando para o que havia atrás dele, o portal do meu quarto, que não tinha porta.
— Beleza, mas eu não me lembro de nenhum Baco.
— Claro que não se lembra, você está me conhecendo agora.
— Aff. O que você quer comigo?
— Que é isso cara, você é sempre rude assim com os outros humanos?
— Ah claro! Você invade a casa dos outros e eu que sou rude?
— A porta estava aberta.
— Isso não te dá o direito de entrar assim!
— Você não tem medo de que alguém estranho entre aqui com más intenções?
— VOCÊ é um estranho! – disse apontando pra ele.
— Vê? Estás sendo rude de novo…
— Beleza. Você disse que quer conversar, né? Sobre o que exatamente?
— Tudo bem, é melhor começarmos do começo: eu sou Baco, filho de Júpiter e deus das vinhas. Eu vim até aqui para conhecer alguém digno de representar os humanos perante os Deuses.
— Hum, então você é Baco? Também conhecido como Dioniso pelos gregos…
— Exatamente.
— Putz, quem te mandou aqui, hein?
— Venho em nome dos deuses do Olimpo.
— Isso não é tarefa pro Mercúrio?
— Normalmente seria, mas ele anda muito ocupado, e como eu estava à-toa…
— Não. Falando sério agora, você é muito engraçado, mas eu sou ateu. Não venha me dizer que é um deus que essa é a última brincadeira na qual eu cairia.
— Ora, diga-me o que tenho que fazer para que acredite em mim. Quer que eu me faça presente como eu realmente sou?
— E morrer como sua mãe morreu?¹
— Como você sabe dessa história?
— Ora, eu conheço bastante sobre mitologia grega, e pelo jeito você também conhece.
— Como eu não a conheceria? É minha história.
— Claro que é. – disse em tom irônico.
— Bem, eu não seria tolo de fazer isso mesmo, mas diga, o que faço pra provar quem sou?
— Você não é o deus das vinhas? Por que não faz nascer uvas no meu cabelo?
— Que assim seja – nem bem terminou de dizer essas palavras e eu senti um peso extra na minha cabeça – acredita agora? – disse ele, pegando uma uva das muitas que haviam saído do meu cabelo, como se brotassem de uma videira.
— Putaquepariuputaquepariuputaquepariu!
— Acalme-se! – disse ele, mordendo a uva que tinha tirado do meu cabelo - Foi você quem pediu para que eu fizesse isso!
— Caralho, como é que você fez isso?
— Isso é simples de ser feito, quando se é um deus. – disse ele pegando mais uma uva da minha cabeça.
— Pára com esse papo de deus, e tira a mão do meu cabelo, tá me achando com cara de videira é?
— Bem que entá parecido – disse rindo.
— Muito bem, Zé Graça, agora tira isso do meu cabelo.
— Tá bom. – disse isso e fitou minha cabeça. Eu imediatamente a senti mais leve.
— Aff, que susto meu.
— Espera, sobrou uma aqui. – e pegou uma uva grande e rosada que havia sobrado na minha cabeça.
— Pára, caralho!
— Tá bom! - e jogou a uva pra cima – Acredita agora? – perguntou aparando ela com a boca aberta.
— Ainda não, foi uma péssima idéia essa minha. – disse isso indo pra cozinha, seguido por Baco.
— Quem mandou ser irônico?
Passando pelo banheiro dei uma olhada no espelho. Não havia nada de anormal na minha cabeça.
“A quem estou enganando? Isso foi incrível”, pensei, “mas preciso me acalmar”.
Chegando na cozinha, abri a geladeira e peguei água para beber. Depois do primeiro gole, senti que ela estava com um gosto adocicado muito bom. Encarei a garrafa e percebi que a água estava com uma cor viva entre o vermelho e o azul.
— Não é muito educado beber direto do gargalo – disse ele me olhando com ar de zombaria.
Engoli o que ainda havia na minha boca e perguntei:
— Isto é…?
— É. Deus do vinho, certo?
— Incrível.
— Você não viu nada. Está convencido agora? - pegou a garrafa de minha mão e tomou um gole do vinho recém-fermentado.
— Acho que sim.
— Você é duro na queda, hein?
— Você arrumou uma roupa interessante para se apresentar.
— Gostou?
— Muito boa. Você pode mudar de forma sem voltar a sua forma divina?
— Isso é fácil – nem bem disse isso e os cabelos dos lados de sua cabeça entraram de volta pelas raízes até sumirem, deixando apenas um longo penteado no meio da cabeça, que ia da testa até a parte baixa da nuca.
— Vixi, isso foi legal. Sabia que eu já fiz um moicano desse na minha cabeça?
— Sabia. Foi proposital. – disse ele rindo. Balançou a cabeça e sua cabeleira loira estava lá de volta como antes.
— Tudo bem. Vamos sentar pra conversar, você deve saber que agora terá que me contar tudo. Eu sou curioso demais para ignorar todas essas dúvidas na minha cabeça. Pode transformar mais uma garrafa? – peguei outra garrafa com água na geladeira e dois copos.
— Sem problemas – e o líquido da garrafa já não era mais incolor, fiquei ainda mais impressionado agora, vendo o líquido se tornando escarlate – Você gosta de vinho?
— Nunca gostei, mas esse seu é excelente! – me servi e deixei a garrafa na mesa pra que ele se servisse.
— Bom mesmo é o néctar do Olimpo, só que ele não te deixa alegre. – se serviu da bebida enchendo um copo até a metade.
— Cara, eu costumo ser tranqüilo e sempre procuro uma explicação racional para esse tipo de coisa... Você deve imaginar como isso é surreal pra mim, Deuses não existem! Tem certeza que você não veio do futuro ou coisa parecida?
— Que futuro?
— Ora, o futuro. Algum cientista pode ter criado uma máquina ou...
— Você disse isso sem pensar, não é?
— Pois é...
— E eu sei que você sabe por que isso é impossível.
— Eu imagino... Do jeito que as coisas vão a humanidade só vai durar mais uns dois séculos, talvez menos. Eu não posso prever o futuro, mas posso imaginar infindáveis hipóteses para que o ser humano deixe de existir em um futuro próximo. E é óbvio que não haverá tempo suficiente sequer pra alguém perder pensando em coisas como viagens no tempo. – tomei o meu vinho de um só gole e quando olhei para ele de novo, ele estava com um sorriso de satisfação no rosto.
— Criança, você é bem realista! Se todo mundo enxergasse isso com a mesma facilidade, a humanidade teria mais chances de progredir. Percebo o porquê de Minerva ter te escolhido.
— Mi-Minerva? – um arrepio súbito correu todo o meu corpo – Atena me escolheu?
— Sim. A Deusa de olhos glaucos, filha de Astúcia, mais sábia que os Deuses e os homens mortais.
— Vocês também usam esses termos? Pensei que fosse coisa dos poetas.
— Usamos por causa deles, achamos divertido. E todo mundo sabe que Zeus “gravitroante” sofre de gases.
— HAHAHAHAHAHAHAHA! – me encolhi rindo, só para depois me esticar todo, muito assustado, com um raio que caiu tão perto que pareceu quebrar a janela.
— Parece que vai chover. – disse Baco, rindo.
— Não gosto de raios.
— Você já amou sua esposa dentro de uma tempestade?
— Não.
— Devia fazê-lo. É sublime. Uma vez amei uma bacante durante uma tempestade. – ele dizia isso segurando o copo na mão como um cafetão, e olhando para alguma parte do teto, completamente perdido em sonhos. – O agrega-nuvens devia estar furioso por algum motivo e despejou raios sobre a relva do campo aberto, queimou o chão em certos pontos, evaporando a água em chiados surdos, mas eu protegi a mortal com minha sombra e a amei por toda uma noite e mais alguns sonhos.
— Fantástico.
— Fará isso quando tiver chance.
— E muitas coisas mais, se puder.
— Sua amante é uma bela mortal.
— Uhum... – disse com os olhos baixos no copo.
— Você deve sentir falta dela.
— Muita. – abaixei mais a cabeça.
— É como Hades aguardando o retorno de Deméter. Seis meses sozinho. Seis meses a amando. Você a viu há pouco tempo, não?
— Sim. – ergui a cabeça.
— E a amou por quanto tempo?
— 19 dias. – enchi o copo de vinho.
— É muito pouco tempo, garoto. É menor que a primavera na Antártida, e mais frio.
— Eu sei como é. – virei o copo. – Eu sei como é...
— Gostaria de fazer alguma coisa para te ajudar.
— EU também gostaria. Mas eu só posso esperar por ela. Só esperar.
— Podemos conversar enquanto espera.
— Nenhuma objeção. – me levantei – Pode transformar isso pra gente? – tirei uma garrafão de 3 litros e meio de água da geladeira. – Não tenho muita comida aqui em casa, mas tenho água em profusão.
Baco sorriu com o canto da boca e ergueu a mão espalmada teatralmente.

2 trocaram ideia:

Wellington

jesus cristo é um plágio.
e não é tão legal quanto suas inspirações.

o/

Augusto Mota

Como assim um plágio ??? Que o texto não é meu já está muito bem explicado lá em cima, sem contar que tenho a permissão do autor que é parceiro do Hippies & Beatniks.

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