domingo, julho 22, 2012

a breve morte do sono



PERSONAGENS 
 
Hipnos: personificação do sono. 

Thanatos: personificação da morte.


CENOGRAFIA

O Tártaro Nevoento, morada dos filhos da Noite e prisão dos seres odiados pelos deuses. Mais profundo que o próprio Hades. 


A BREVE MORTE DO SONO

“Nove noites e dias uma bigorna de bronze cai do céu e só no décimo atinge a terra. E nove noites e dias uma bigorna de bronze cai da terra e só no décimo atinge o Tártaro.” – Hesíodo.

*CLANG!* 

HIPNOS
AAAAAAAAAARRRRRRHHHHHH! Eu não ACREDITO!

THANATOS
Caralho, irmão, o que aconteceu?

HIPNOS
Guarda o que estou te dizendo, Thanatos! GUARDA O QUE ESTOU DIZENDO! Se mais um filho de bacante jogar uma bigorna de bronze lá de cima só pra se divertir... se acontecer MAIS UMA VEZ! Eu juro que ninguém mais vai dormir por cinqüenta gerações!

THANATOS
Mas Hipnos, isto criaria uma raça que não duraria sequer 20 anos.

HIPNOS
Eles duram o quanto você quiser!

THANATOS
Você sabe que isso não é verdade, irmão. Tudo depende do que Cloto fia, Láquesis desenrola e Átropos corta.

HIPNOS
Só depende delas o destino dos humanos! 

THANATOS
Mas se a sua ira fosse cair sobre os humanos, as Parcas¹ já saberiam disso, com certeza! Acalme-se, irmão, afinal não é de você que os humanos têm medo, eles te adoram. Venha, levante-se, deixe-me ver esta cabeça.

Thanatos ajuda Hipnos a se levantar e tenta ver se a bigorna de bronze machucou seu irmão, o que sabia que não havia acontecido, mas com certeza o havia irritado.

HIPNOS
Você não sabe o quanto esses atos impensados dos humanos me enfurecem, Thanatos. Eu estou até com vontade de ir ao Hades para torturar algum de seus condenados. 

THANATOS
Por Zeus, Hipnos, você está mesmo perturbado. Você devia dormir um pouco...

HIPNOS
E VOCÊ DEVIA MORRER, THANATOS! CONSEGUIRIA FAZER ISSO CONSIGO MESMO?! EU NÃO POSSO DORMIR! 

THANATOS
Me desculpe, irmão. Me desculpe. Eu vou buscar uma coisa pra passar sua dor. 

HIPNOS
Céus...

Thanatos caminha para qualquer direção nas trevas, a fim de se distanciar de onde o irmão estava flutuando. Toma em suas mãos um pedaço de rocha negra e o lapida com os dedos fortes, de modo que se tornasse um recipiente. Dentro dele condensa um pouco de água das nuvens tempestuosas ao seu redor e, friccionando as mãos por bastante tempo, faz com que um pó fino e escuro se solte de sua pele e caia no copo, fazendo a mistura vaporar sem ferver.

THANATOS
Aqui, Hipnos, beba isto. Você vai se sentir melhor.

HIPNOS
Obrigado, irmão.

Hipnos sorve a bebida aos poucos, pois apesar de insípida, ela era densa e difícil de tragar. Um segundo depois, o copo de rocha cai das mãos de Hipnos, que estava desacordado, mas ainda respirava. Tranqüilo, como os humanos o gostavam de ter. Durante nove dias e noites o Sono provou aquela migalha de morte que os humanos experimentam todas as noites, necessária para deixar preocupações e rancores esquecidos no Tártaro. Durante nove dias e noites os bares não fecharam, pois o balconista não estava com sono, as prostitutas não estavam com sono e nem mesmo quem havia entornado vinte litros de vinho sozinho estava com sono. Mais velas foram gastas e parte da produção das fazendas se perdeu, pois os trabalhadores estavam exaustos pela falta de descanso. Ficavam na cama com as pernas moles e, sem conseguir dormir, olhavam para o teto e redescobriam o que é pensar. E foi assim com todas as pessoas, pois até os bebuns tiveram que cair em algum momento. Os filósofos, os poetas, os atores, todos tiveram alguma inspiração brilhante depois do quarto ou quinto dia e os homens comuns se tornaram tristes com tanto tempo para lembranças e formulações. As crianças romperam as portas das casas na oitava noite, loucas em sua hiperatividade ferina e a fila à frente do oráculo de Delfos nunca fora tão magnífica.

THANATOS
Bom dia, Hipnos. Como foi seu primeiro sono?

HIPNOS
Irmão... eu vi o nascimento da nossa mãe...

THANATOS
É isso que eles chamam de sonho, irmão, mas não é você que provoca isso, é o Morpheus². Não o vi passando por aqui...

HIPNOS
Céus...

Tudo se normalizou aos poucos depois que Hipnos acordou, mas este trecho da história humana se tornou um dos mais interessantes da tapeçaria das Parcas. O oráculo disse a um mendigo qual era o motivo de sua falta de sono e este passou todos os dias de insônia amaldiçoando os homens na praça por fazerem com que ele perdesse o único momento do dia em que podia esquecer sua miséria. E mortal algum jamais lançou uma bigorna de bronze ao Tártaro novamente.

                                                                                                                                                                       
1- Parcas: divindades gregas que punham e dispunham do destino e da vida dos humanos.
2- Morpheus: personificação do Sonho.

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‎"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."
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