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quarta-feira, dezembro 22, 2010

Enxugue seu cérebro, este sabão faz mal - Francisco Jamess

O mundo começou a ficar (ainda mais) idiota quando as coisas deixaram de ser feitas ou para adultos, ou para crianças e passaram a ser feitas para adolescentes, essa raça imatura demais para ser adulta, e perigosa demais para ser criança. Adolescentes são imbecis. Mesmo os mais inteligentes e de melhor educação são imbecis. É uma qualidade inata desse intervalo de tempo. Se você tem um pouco de cultura e senso, você será uma pessoa extremamente agradável aos 20 anos, mas se é um consumidor de sabão neutro para o cérebro você será imbecil para o resto da vida, sendo que até os 30 anos você ainda será identificado como um adolescente, as pessoas vão perguntar, "Nossa, você já tem 27? Parece muito mais novo.", e não fique orgulhoso da sua pele conservada, porque depois da sua resposta as pessoas continuarão se perguntando como você consegue se manter tão boçal após todos esses anos.
Em tribos indígenas geralmente quando o menino chega aos 12 ou 13 anos, ele passa por um teste de coragem e dor, como segurar um galho de árvore em brasa ou enfiar as mãos em um ninho de formigas lava-pé, sendo que após esse teste, ele passa a ser considerado um homem por todos os membros da tribo e é tratado como tal. A menina nessa idade passa por uma clitorectomia ou qualquer outro ritual de passagem, sendo que após isso elas são consideradas mulheres, e também são tratadas como tal. Não existe adolescência, essa idade que, nas últimas décadas, é só um período de transição, no qual você é castrado, doutrinado e automatizado para servir aos propósitos dos donos do mundo sem questionar. É um período de adaptação para a vida adulta doente e sem sentido que lhe é oferecida após os 18 anos. Se você não seguir este curso, é considerado desordeiro e fuzilado no paredão dos fundos do teatro. Se o seguir, você morre lentamente tomando antidepressivos, o que, aliás, pode ser um engano meu, porque os poderosos conseguem fazer com que você deseje um emprego, um carro popular e uma função na sociedade. Muitos estão felizes com isso, por mais que estejam sendo brutalmente manipulados.
Antigamente as coisas eram feitas ou para crianças ou para adultos. Não existia intermediário. Uma criança comum se interessava por seus brinquedos e livros de fantasia até que aquilo as aborrecesse, o que geralmente acontecia na puberdade, e após isso passavam a se interessar por coisas de adulto da cultura onde viviam, sejam trabalhos manuais ou livros teóricos. Não havia coisas sendo feitas para pessoas dos 10 aos 20 anos, isso começou há algumas décadas, quando a propaganda viu que este era um público alvo bastante interessante e passou a criar sonhos e objetos de cobiça para esta gente que não sabe o que quer da vida. “Você não sabe o que quer, nós decidimos por você!”, é o que qualquer publicitário honesto gritaria nos comerciais de TV, mas é claro que isto é algo impossível de acontecer, pois a mídia mente, e os adolescentes enganados hoje nunca deixam de ser infantis e imaturos, o que os torna adultos fáceis de dominar. Sempre houve uma instituição para por cabrestos nos seres humanos e torná-los escravos, sodomizados pela prostituta ordem vigente. A cafetina dos tempos modernos é a mídia. Televisão, rádio, jornais, internet, todos juntos te fazendo a corte para apresentá-lo à Lilith que te sufocará e consumirá sua alma.
Eles faziam e continuam fazendo comerciais para adolescentes, e hoje em dia há outro tipo de comercial, o voltado para as pessoas de 30 anos que já foram adolescentes idiotizados e vivem no desejo de juventude eterna. Então que seja: lavagem cerebral eterna. Porém é notável que não haja comerciais voltados para pessoas de 40 anos ou mais. Eles não passaram pelo atrofiamento inicial do cérebro, iniciado há poucas décadas, e consumem poucas coisas supérfluas. Seria dinheiro perdido. “Os jovens são o futuro”, dizem. Os jovens são o futuro financeiro da mídia. Por isso tanto empenho em conquistá-los desde a primeira infância, com comerciais mega coloridos de palhaços vendendo hambúrgueres e bonecos com movimentos reproduzidos por computador. “Eu te-nho, você não tê-êm...”
A ideologia separatista é incutida nos adolescentes assim que começam a ter espinhas. Coisas como política, religião e etnia não os atraem suficientemente, então a mídia manipula a moda, a música e qualquer outro lixo televisivo para fazer com que os jovens se unam em pequenos grupos de opiniões brutalmente divergentes, criando assim pessoas que amam seu grupo e odeiam qualquer outro grupo que não for o seu. Quando crescerem, eles serão tão estúpidos quanto qualquer outro cidadão, e coisas como igreja e partido político serão motivos suficientes para criar debates intermináveis de ignorância elevada, sempre nos levando a odiar o próximo, até chegar ao ponto de entrar para o exército e matar pessoas inocentes de um país vizinho de religião ridícula e governo perverso. Isso sempre foi usado pelos poderosos para separar o povo.
“O povo unido jamais será vencido!”, mas acontece que eu não conheço nenhuma civilização do planeta Terra que seja unida, que trate seu vizinho como aliado e o déspota como um inimigo a ser vencido. Nenhuma. Os jovens de hoje têm seus culhões atrofiados pelas ondas do celular no bolso da calça e não sabem mais o que é ir contra o governo. E enquanto agirem dessa forma, eles sempre terão um cabresto apertando suas cabeças para que nunca pensem mais rápido que o necessário.
Se você tem 18 anos, esse texto não é uma ofensa direta e carregada de ódio. É sim um tapa amigável no rosto e uma frase de avô dizendo, “Não deixe eles sugarem sua alma, filho. Tire esse freio da boca e faça algo decente com a sua vida. Faça isso pelas pessoas que queriam liberdade e foram torturadas e mortas pelo governo ditatorial. Você não vive mais sob uma ditadura. Hoje você tem liberdade para escolher ser autor ou escravo. Há 30 anos pessoas livres eram arrastadas no asfalto e espancadas para servir de exemplo. Cabe a você decidir, e se a maioria das pessoas ainda é convencida a enrolar a corda no próprio pescoço, você não precisa ser como elas. Você não precisa fazer o mesmo. Nunca. 90% do mundo é formado por cadeias, mas você pode escolher ser livre.”
Até mais, amigo.

                                                                                              
P.S: Eu conheço adolescentes decentes e sei que você também.
 
MAIS NA
 

quarta-feira, abril 28, 2010

meu último Marlboro

Joe abria e fechava seu isqueiro de prata lisa enegrecida. Abria-o com um movimento do punho, olhava a chama com interesse quase científico e o fechava empurrando a tampa com o polegar.
Mac, que o acompanhava há anos fechando bares nas noites cansadas, acendeu um cigarro com um fósforo da caixinha que pediu ao dono do bar. Nunca havia pedido o isqueiro de Joe pois desconfiava que ele não o emprestaria. Deu uma boa tragada no cigarro, tomou um gole do seu scoth com gelo, pôs o copo na mesa e continuou o assunto:
— Ainda não acredito que você parou de fumar, Joe.
— Se você tivesse visto o que eu vi, você também pararia.
— O que aconteceu?
— Esqueça.
— O que você viu que te fez largar um vício de 17 anos?
— Você não acreditaria.
— Tente! Esse já é meu sétimo scoth hoje. Eu não ofereço resistência a nenhuma informação a essa hora da noite. Tente!
Joe foi diminuindo a velocidade do abrir e fechar do isqueiro de prata, pensando, até fechá-lo uma última vez e colocá-lo sobre a mesa, junto do seu bourbon.
— Ok.
— Maravilha.
— Você se lembra do que me disse sobre a Travessa do Gato Cego?
— “Mantenha-se a pelo menos três quadras de distância dela.”
— Exatamente. Bom, eu ouvi seu conselho, mas não obedeci completamente.
— Ah, merda... O que você fez, Joe?!
— Há umas duas semanas, quando você ainda tava viajando, eu fiquei muito deprimido uma noite e saí pra dar uma volta na rua. E cheguei mais perto do que deveria daquela rua sem saída.
— QUANTO mais perto?
— Eu entrei nela, Mac.
— Não acredito...
O cigarro se apagou esquecido entre os dedos de Mac e ele acendeu mais um fósforo e tragou um bocado até avivar novamente a chama. Seu rosto parecia um talo de palmito num vidro de conserva.
— Eu falei que você não ia acreditar.
— Não, não... Pelo amor de deus, Joe. Agora eu quero saber o que aconteceu. Fizeram alguma coisa com você?!
— Calma, deixa eu te contar. Já era tarde da noite quando eu comecei a andar no meio da rua da travessa. O asfalto de lá era o menos gasto que eu vi na minha vida. Não tinha nenhum carro nas calçadas ou nas garagens das casas. Parecia que não morava ninguém lá. As casas pareciam vazias. Todas escuras. Nenhuma com aquela maldita luz vinda da TV atravessando a janela. Mas depois eu descobri por quê.
Joe tomou seu bourbon de um gole e pediu outro ao dono do bar. Ele servia sozinho aquele pequeno boteco. Era um lugar agradável. Não tinha muito movimento àquela hora da noite. Podia-se conversar sem ser interrompido.
— No fim da travessa tinha um bar: “Boca do Belzebu”.
— Puuuta que pariu...
— É. Nome forte. Mas o lugar era simples que nem esse aqui. Quando eu vi a luz do bar de longe eu achei que todo mundo que morava na travessa estava lá. Mas o lugar tava tão vazio quanto o resto. Eu fui até o balcão e pedi uma cerveja de trigo, porque você sabe que eu não bebo destilado quando estou deprimido.
— Você é um masoquista intelectual, Joe. É quando você tá assim que você devia tomar uma garrafa de gim sozinho. Mas não, você quer continuar pensando nos seus problemas, e com a lucidez apurada que o pouco álcool te dá. Você é louco.
— Pronto?
— Pronto.
— Ok, então eu perguntei pro dono do bar, “por que não tem nenhuma luz saindo das casas dessa travessa? até parece que ninguém mora por aqui.”, e ele respondeu, “dormir e transar são coisas que se faz melhor no escuro.”
— Toma, cavalo.
— Na cara. Fechei meu bico e fui pra uma mesa. Tomei aquela garrafa em pouco tempo e pedi outra, o cara não parecia preocupado em fechar o bar. Toma esse whisky e pede outro logo, a melhor parte vem agora.
— Ok.
Mac tomou o scoth que estava pela metade e foi pegar outro no balcão. Acendeu um cigarro com o isqueiro de lá e voltou segurando ele na boca, com dois copos na mão.
— Trouxe outro bourbon pra você.
— Valeu, e pára de jogar fumaça na minha cara, filho da puta.
— Foi mal.
— Então. Eu tava lá olhando pro meu copo, aquela cor de mel maravilhosa da weiss.
— Aquilo é uma beleza.
— É sim. Tava lá olhando pro copo, tava até sorrindo, tinha até esquecido um pouco o que tava me deprimindo. Tateei no bolso e peguei meu maço de Marlboro. Só tinha um. Peguei meu isqueiro no bolso da camisa. Acendi o cigarro e dei umas boas tragadas. Deixei o isqueiro na mesa e me recostei mais na cadeira e fiquei fumando. Naquele momento eu já não sabia mais o que tava me afligindo. Mas aí ele apareceu.
— Quem, mano?
— Eu não sei de onde aquele cara saiu, Mac. A rua tava deserta e ele despontou na porta do bar. Do nada. Um cara enorme. Com uns 2 metros de altura. Ele não era forte, nem fraco, nem gordo, nem magro. O cara era GRANDE entende? O corpo dele todo era proporcional à altura.
— Entendi.
— Ele tinha um puta bigode de Leminski e tava com uma jaqueta de couro preto que parecia que ele mesmo tinha arrancado do boi. A jaqueta ficava pequena pra ele, Mac!
— Ah, cê jura?
— E, meu, os olhos do cara eram pretos que nem breu e ele parecia irritado. Com o cabelo curto bagunçado. Ofegando. Mas, mano, não dava pra dizer que o cara era feio.
— Como assim, Joe?
— O cara parecia um vilão de filme de velho oeste. Um vilão daqueles de Hollywood.
— Entendi, cê curtiu o cara.
— Curti o cu da sua mãe, caralho!
— Calma, Joe. Tô zoando, continua aí.
— Ele foi pro balcão e acho que falou alguma coisa. Eu não ouvi. Só ouvi o dono do bar dizendo, “você sabe que eu não vendo cigarros desde que me pegaram na lei antifumo, Kasparov. Sinto muito.”
— Russo sem vergonha!
— Puta merda, nem me fale. O cara ficou parado uns 10 segundos olhando pro dono do bar e virou pra mim. O russo tava furioso, Mac. Veio andando na minha direção sem tirar o olho do meu e eu não conseguia baixar a cabeça. Fiquei olhando pra ele com o meu cigarro na boca, paralisado.
— Nossa, Joe...
— É... Ele olhou pro maço vazio de Marlboro vermelho na mesa e olhou pro cigarro na minha boca e eu conseguia me mexer de novo, mas não movi um dedo. Uma ponta de cinza caiu do cigarro e queimou minha camisa.
Joe apontou para uma mancha marrom escura na camisa branca fechada no peito que ele vestia. Tomou seu whisky já com as pedras de gelo muito pequenas e aproximou de si o copo que Mac havia lhe trazido do balcão, esse sem gelo.
— Cacete...
— O maldito continuava olhando pra mim e quando eu notei ele já tinha tirado uma faca do cu, porque eu não sei de onde ele tirou aquilo.
— Uma faca?
— É! Uma daquelas malditas facas que a gente vê em tabacarias do lado das estrelas ninja e eu juro por deus que eu nunca achei que alguém compraria uma porcaria daquelas.
— Isso é coisa de idiota.
— Mac, o cara era um psicopata. Ele apontou um dedo pro meu isqueiro em cima da mesa e eu o peguei tremendo e entreguei na mão dele. Adivinha pra que ele queria o isqueiro, Mac.
— Puta que pariu, fala logo.
— Aquele desgraçado abriu meu isqueiro e começou a esquentar a lâmina da faca com a chama. Ele ficou muito tempo assim, mano, e acho que na proporção que a faca ia esquentando eu ia gelando. Eu tava desesperado, mas continuei parado lá, não tinha pra onde correr, e do jeito que eu tava eu não queria mesmo correr, naquela hora seria bom se ele acabasse comigo porque eu lembrei de todas as merdas que estavam acontecendo e não era má idéia dar um fim a elas.
— Não fala isso, Joe.
— Eu tava pensando nisso na hora, mano. Mas você não vai acreditar no que ele fez depois.
— Pode falar, Joe. Eu não vou beber mais nada hoje, quero lembrar disso amanhã de tarde.
— Acho que você vai lembrar disso por muito mais tempo.
— Então conta logo.
— O cara colocou o isqueiro na mesa e espalmou a mão no canto dela. Mexeu os dedos de modo que ficasse só o dedo médio em cima da mesa. Aquele dedo devia medir uns 15 centímetros, Mac, e era grosso. Como eu disse: proporcional. E, mano, ele encostou a faca na base dele. Eu ouvi o “tssss” da pele tostando e deu pra ver os pelinhos do dedo queimados.
— Ai...
— Ele ergueu a faca na altura da cabeça e desceu ela com tudo. TAW!
Joe estava ilustrando o movimento com a própria mão imitando uma lâmina golpeando seu dedo na mesa. Mac, puxou o ar entre os dentes e franziu todo o rosto.
— Sssssssssss...
— O dedo dele foi um pouco pra frente na mesa, solto, com a força do golpe, e quase não sangrou. Aquele maldito deixou a faca pressionando o toco de dedo que sobrou “tsssssssssssssssssssssss” e quando ele tirou a faca ela tava com uma mancha feia na lâmina e o dedo do cara tava cauterizado.
— Caralho, que maníaco. Pra que isso, velho?!
— Ele pôs a faca na mesa, Mac, e pegou o dedo médio cortado. Virou ele na mão de um lado pro outro e sabe o que aquele psicopata fez? Ele mordeu a ponta do dedo, Mac! Arrancou a unha e a ponta da falangeta com uma mordida, como quem morde um maldito charuto! E você sabe o que ele fez?! Ele segurou o dedo entre os dentes com as digitais pra cima praquela merda não dobrar! Ele segurou o dedo em riste na boca. Pegou meu isqueiro e começou a queimar a falange! Deixou o isqueiro aberto queimando aquela pele fresca e começou a tragar o dedo como se fosse um maldito Havano!
— Catso!
— Ele chupava o dedo ficando cada vez mais irado e bufava mais que a besta cigana. E o dedo começou a crepitar na chama do isqueiro. A pele começou a soltar uma fumaça de cheiro horrível e o sangue coagulava cada vez mais depressa, mas a ponta tava queimando mais e mais forte.
— Meu deus.
— Quando parecia que ele ia explodir de cólera ele deu uma tragada com toda a força que tinha, apertando os olhos, e encolheu os ombros de satisfação. Ele segurou o dedo entre os dedos... caralho, ele fez mesmo isso... soltou uma baforada de fumaça rubra pra cima e arreganhou os dentes sujos de sangue pra mim como um maldito cachorro com raiva. Eu me levantei rápido da cadeira. Derrubei ela com a adrenalina. Ele olhou pra mim por uns segundos, segurou o dedo entre os dentes de novo, jogou meu isqueiro perto do meu copo na mesa e saiu pela porta do bar, fumando o dedo. Ele esqueceu a faca na mesa. Eu olhei pro balcão e o dono não estava lá. Olhei pra mesa e vi meu cigarro apagado e eu nem lembrava mais quando ele caiu da minha boca. Aquele foi meu último Marlboro. Eu o deixei lá junto com a faca, a garrafa e o copo de cerveja. Peguei meu isqueiro e saí, esquecido da cara velha do taberneiro. Saí daquele lugar tremendo, sem olhar pra trás. Acho que nunca andei tão rápido em toda a minha vida.
Mac olhou para Joe um bom tempo ainda depois que este parou de falar. Seu cigarro pendia de sua boca ainda aceso, metade dele cinzas que teimavam em não cair. Ele deu uma última tragada no cigarro e o segurou com os dedos, apontando-o para Joe:
— Aquele psicopata devia ter fumado o SEU dedo, Joe. Aí você ia aprender a me ouvir.
— Eu acho que sou sortudo, não?
— Você é um filho da puta, Joe. Você é um filho da puta.
Joe concordou com a cabeça e Mac apagou seu cigarro no cinzeiro com o rosto assombrado. Seria seu último Pall Mall.

Francisco Jamess

quinta-feira, março 25, 2010

Crônica do amor - Arnaldo Jabour

Para os românticos de plantão, mais uma crônica de Arnaldo Jabour.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhXiijeqZ7LXXWA3Mcah3pqgrdaarr_9rCFxJ2qbWbwsu_4BszEa9IHtGvsS90jHu0oWbzi3HreGEXYCMBlMkojqzhWRb6YrByV_dmOXvD-yEZ8LsSDxSBJIlJCEi6HR4T55d5DJdJxXVs/s400/jabor1.jpgCrônica do amor
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

terça-feira, março 23, 2010

Saudosismo

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgg5GVp5CkSa1ocV4VUIcn8Er1hjrYwh3NBzs2lLu2e5bdh5aAnDF4pm-1Fkh5bn7hvz1u9DvgKThAzqZet5OK-kw-8I-b2Q2wtj8vQAcnO9iTrF_fP4HfOIP6GlnEfvC5vLD7NoL1yxYOh/s400/contra.bmpSim, sou saudosista, saudosista de épocas remotas das quais não vivi, me imagino em meio aos Beatniks, Jack Kerouac e Allen Ginsberg, recitando poesias ouvindo blues bebendo vinho barato e fumando maconha, por vezes sou um chato com meus amigos quando me perguntam se conheço uma tal banda que toca um tal som, mas a tal banda nasceu na década de 90, caramba o que tenho contra a década de 90 ? Nem eu mesmo sei direito, ou talvez saiba sim creio que a partir da década de 90 tudo ficou mais comercial e assim sendo como poderia surgir novos elementos musicais, poéticos ou literarios ? Sim eu sei que temos boas coisas na década de 90 pra cima, mas é pouquinho né ?
Existe uma piadinha entre amigos que surgiu na verdade da boca de minha mãe: - Esse menino só gosta de quem já morreu !
Mas fazer o quê ? Raul Seixas, Cazuza, Jack Kerouac, Rimbaud, Jim Morrisom, Bob Marley... A mas espera aí, e Bob Dylan ? Mauricio Baia ? Esses graças a Deus estão vivos e produzindo...
Eu só queria que surgissem movimentos inovadores de contra-cultura novamente, aí eu deixaria de ser saudosista, hoje em dia é um tal de hip hop com samba, rock com reggae e bossa nova... E sei lá mas que mistura. Não que misturar não seja bom, muitas vezes é bom sim, mas cadê alguém pra inventar algo novo ?
É isso pessoal vamos inovar, criar coisas novas, seja na música ou literatura, ou até na política, já pensou se os políticos resolvem inovar e serem honestos ?

quarta-feira, novembro 18, 2009

Crónica de Ariano Suassuna Sobre o Forró Atual

http://gustavosirelli.files.wordpress.com/2009/08/arianosuassuna.jpg'Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!'. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.



segunda-feira, novembro 16, 2009

Seja um idiota - Arnaldo Jabour

http://www.stiletto.blog.br/images/stories/Lucas%20Zelaznog/arnaldo_jabor.jpg
A idiotice é vital para a felicidade.

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.

quarta-feira, novembro 11, 2009

Análise da música Eduardo e Mônica

Pessoal esse texto eu li a uns dez anos atras, hoje me lembrei dele então ta aí um ctrl+c ctrl+v, retirado do site http://whiplash.net:


A música Eduardo e Monica da banda Legião Urbana esconderia uma implicância com o sexo masculino?

O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. analisemos o que diz a letra.

terça-feira, abril 14, 2009

Antônio Fraga: uma obra e um autor em busca de abrigo

Eu sempre parto do final, só o mau escritor parte do início.

Eu tenho um objetivo e quero alcança-lo.

Antonio Fraga em seu aniversário (1990), com a autora.Antônio Fraga

Talvez, não faça parte do mundo acadêmico explicar o título de um trabalho, mas no meu caso – ou melhor, no caso de Antônio Fraga – a questão é justificável pelo quase anonimato do autor e pelo quase ineditismo da obra.

Fraga parte em setembro de 1993. Deixa-nos duas obras publicadas – a novela Desabrigo (1942) e o poema dramático Moinho e (1957), alguns contos, crônicas, ensaios, divulgados pela imprensa oficial e alternativa, e ainda muitos trabalhos inéditos: uns concluídos, outros inacabados – todos desordenados, espalhados em papéis avulsos pelo improvisado escritório na Baixada Fluminense, para onde migra nos anos 60.

Quando Fraga sai definitivamente de cena, grande parte desse acervo é encaminhado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Rebeldes, como o próprio autor, alguns manuscritos, registros e documentos pessoais relutam em seguir o destino dos demais, “escondem-se” e, de doação em doação, terminam em minhas mãos. Não consigo resistir aos apelos das personagens da vida e da ficção fraguiana; afinal, desde 1986, um pouco antes, por ocasião da escritura da dissertação de Mestrado e depois da tese de Doutorado, partilho suas histórias e, tantas vezes, com minha leitura, nelas interfiro. Acho, de vez em quando, que abdico de ser crítica ou teórica para inscrever-me, no texto de Fraga, como personagem a quem é atribuída a tarefa de revolver seu baú, organizar seus escritos e buscar editores que abriguem sua obra e propiciem, pela recepção dos leitores, o seu reconhecimento literário.

Nas ruas Senador Euzébio e São Pedro, Antônio brinca sua meninice. De uma rua próxima, Visconde de Itaúna, vem o som popular das rodas de samba. Lá, no número 117, mora Hilária de Almeida, Tia Ciata. O tempo célere desliza pelas ruas do menino e, logo, a separação dos pais, em 1932, lança-o na vida. Aos 16 anos, sozinho, resolve seguir rumo próprio. Vai para o Mangue onde vende siri e bugigangas úteis ao “pedaço”. Pelo andar ziguezagueante recebe o apelido de Cobrinha, personagem da novela Desabrigo, obra que expressa nossa identidade e aproxima a língua falada da língua escrita. Data desse tempo o início da escritura da mitologia marginal de Fraga e do recolhimento da matéria-prima que usa dez anos depois, em 1942, na criação de sua primeira obra, Desabrigo, publicada em 1945, quando finda o Estado Novo.

As primeiras investidas de Fraga no mundo das letras ocorrem em versos. São exercícios de aprimoramento métrico, de escolha e (re)conhecimento das palavras. São transbordamentos de um artista quando jovem. Anos depois, ele revela seu dom, pega o tom, capta os sons que emanam da vida e organiza sua carpintaria poética, sua prosa de arte.

Na primeira metade da década de 40, a inquietude e a insatisfação em relação à Segunda Guerra Mundial e à ditadura do Estado Novo movem a produção intelectual brasileira que, pelas sombras das crises e talvez incitadas por elas, brota profícua e fluente em artigos, em depoimentos, em crônicas, na ficção, na pintura e nos bate-papos entabulados nos cafés, nos bares, nas leiterias, nas livrarias da Cidade do Rio de Janeiro. Década elástica que, sob a locução “de 45", aglutina uma geração de múltiplos perfis, que do final dos anos 30 até meados de 50, revigora o modernismo, então em fase de saturação, e consolida em prosa e verso suas propostas de renovação e de pesquisa estética.

Nos anos 40, quando o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, é o centro cultural do país, Fraga, andarilho irreverente, circula por diferentes espaços do centro carioca que – numa geografia própria de boêmios, intelectuais, artistas, malandros – se estende da Taberna da Glória até botecos e cafés do Estácio, do Mangue e da Praça Onze.

Nesses idos, os pontos de encontro são definidos pelos freqüentadores. A turma da esquerda – principalmente escritores, jornalistas, estudantes, educadores como Anísio Teixeira, Mário Pedrosa, Vinícius de Moraes, Paulo Mercadante, Antônio Olinto, Ledo Ivo, Anibal Machado, Jorge de Lima, Hildon Rocha – transita do Amarelinho ao Vermelhinho. O pessoal de teatro – Dulcina, Procópio, Conchita – prefere o Douradinho, na Rua Álvaro Alvim. Os pintores, cenógrafos e afins – Pancetti (Giuseppe Gianini), Djanira da Mota e Silva, Santa Rosa, Milton Ribeiro, Milton da Costa –, de cavalete, pincel e tinta, “pintam” no Café Gaúcho, na Rua São José. O grupo da música – os que compram e vendem composições e/ou os que gostam de música, como Ismael Silva, Mário Lago, Chico Alves, Grande Otelo – aparece sempre pelo Café Nice, na Galeria Cruzeiro, na esquina da Avenida Rio Branco com Bittencourt Silva. Os escritores adoram as tardes de autógrafo na Livraria São José, na Rua São José, promovidas por Walter Alves Cunha e Carlos Ribeiro. Há ainda um grupo de artistas que costuma ir à Lapa (ao Capela, ao Bar México, ao Café Indígena, ao Danúbio Azul). Alguns, por divertimento só; outros para viver a Lapa, para contracenar com aqueles que são seus personagens. Aí se encontra Fraga e, mais tarde, um outro Antônio – o João. Nos anos 40, João ainda é um meninão de calças curtas. A Lapa não faz parte de sua geografia. O mapa de sua infância limita-se as ruas do bairro pobre de Presidente Altino, na Cidade de São Paulo. A ideologia torna-os contemporâneos. Eles têm mais que um nome em comum: são amigos de bar, de copo, de sinuca, de tema. Amigos de vida e de ficção.

Autodidata, poliglota, leitor compulsivo, Fraga rompe as barreiras acadêmicas; saracoteia de um lado para outro; vive intensamente a década de 40 e participa, meio como dissidente, dessa geração à qual cronologicamente está vinculado. Num início de manhã, na Lapa, em janeiro de 1945, Fraga sugere a Antônio Olinto a criação do Grupo Malraux. Ali mesmo escolhem os integrantes do grupo: Luciano Maurício, Levy Menezes, Hélio Justiniano, Ernande Soares, Aladyr Custódio, José Galdino, além deles mesmos, os Antônios – Fraga e Olinto. Dias depois, no Vermelhinho, em frente à Associação Brasileira de Imprensa, decidem apresentar o grupo por meio de uma exposição de poesia: a primeira do mundo. Há um catálogo com curta biografia dos expositores e com um dos dez poemas que cada membro do grupo iria expor. Em 10 de maio de 1945, na Escola Nacional de Belas Artes, sem querer, dois dias após a queda do hitlerismo, a exposição é inaugurada. Carlos Drummond de Andrade elogia o pioneirismo do evento em “Poetas em maio”, crônica publicada pela revista Leitura, da qual Fraga se torna assíduo colaborador.

Desenho de Antonio Fraga, 1982.Finda a exposição, urge que outro evento dê continuidade à atuação do grupo. Por unanimidade, Desabrigo é escolhido como obra capaz de traduzir e de registrar o grito de uma geração abafado pelos sons bélicos e repressivos advindos do contexto nacional e mundial. Desabrigo fica, desde então, como manifesto de uma geração – pelo menos parte dela – cujos escritores desejam, por viéses diferentes, tornar o discurso ação e, assim, mudar o mundo. Antônio Olinto, em depoimento concedido na época da escritura de minha tese de Doutorado, recorda:

Quando o lancei, na Editora Macunaíma, que Ernande Soares e eu fundamos, com o próprio Fraga de sócio, sabíamos que se tratava de uma novidade literária (...).Alugamos uma pequena sala na Rua São José, 21 – no local em que antes funcionava o Instituto Superior de Preparatório – e, depois do necessário orçamento, mandamos os originais a uma oficina quase artesanal no centro do Rio de Janeiro (...). Lembro-me ainda de quando, entre maio e junho de 45, assim que recebi meu ordenado, fui à oficina quitar a impressão. Reunimo-nos no Vermelhinho para a comemoração; afinal, ali estava a história de Fraga posta em livro.

Assim, Desabrigo literalmente vai à praça. Em 1945, Fraga assume uma atitude semelhante àquela que anos mais tarde identifica a Geração Mimeógrafo: como poucos livreiros quiseram comprar sua novela, ele resolveu vendê-la nos bancos da Cinelândia. É o próprio Fraga quem relata esse fato ao jornal O Globo, em 8 de novembro de 1978:

Fui para Cinelândia, botei os livros num banco e comecei a vender ao povo. Ao lado do banco coloquei um cartaz: um livro, cinco mil réis; dois livros, quatro e um livro autografado somente mil réis. Considero uma bobagem esse negócio de autógrafos. O que vale é a obra. A assinatura de um homem não vale nada.

Muitos caminhos, sem dúvida, conduzem a Fraga. Muitas vozes – contemporâneas ou não – dialogam com seus textos. Seus escritos contemplam muitos ismos. Palavras, expressões e rótulos hodiernos como estudos culturais, interdisciplinaridade, pluralidade, modernidade pós-modernidade são passíveis e possíveis de serem discutidos a partir de seus textos. Como se trata de uma apresentação, escolhi Desabrigo – livro inaugural, livro síntese de uma obra que seria tecida ao longo do tempo, anonimamente, à margem de editores, de críticos e de leitores. Em Desabrigo, estão todos os “ingredientes” – mecanismos e procedimentos literários – com os quais o porta-voz da marginalia elabora suas poções mágicas ou suas composições poéticas.

Essa “quasi-novela” abriga três divisões cujos títulos – primeiro round, segundo tempo e terceiro ato – sintetizam a idéia principal dos seis episódios ou contos flagrantes que compõem cada parte da novela. Esses episódios são como peças de um jogo de armar: atritam-se pelas páginas do primeiro round e pelos espaços periféricos do Rio de Janeiro de outrora; depois aproximam-se e possibilitam, no segundo tempo, o entendimento da “arte” do jogo, da literatura; e, no palco da vida, já no terceiro ato, juntam-se e produzem o sentido do texto, de Desabrigo: novela curta, episódica que focaliza instantâneos de personagens marginais, num espaço e tempo determinados – o Rio boêmio da década de 40.

A novela narra-se, pois expõe ao leitor os bastidores da criação literária e/ou a efervescência interior do escritor em estado epifânico. O autor simula a criação de uma novela dentro da sua e elege Evêmero, personagem e pseudo-autor, como seu procurador. Imbuído de tal atribuição, cabe a Evêmero não só a autoria da novela que se está lendo, mas também o papel de crítico que defende seu ponto de vista sobre a construção da história pelo discurso que lhe é coerente. Evêmero é efêmero, cá no texto de Fraga, cumpre a execução do projeto da novela e bate “a bota em mil-novecentos-e-quarenta-e-dois. Semanas antes de bater ele disse não sei onde nem quando”, o único ponto de vista original, feito para legitimar o livro que pretende escrever e que está sendo escrito sob os olhos do leitor: vou escrever ele todo em gíria pra arreliar um porrilhão de gente Os anatoles vão me esculhambar Mas se me der na telha usar a ausência de pontuação ou fazer as preposições ir parar na quirica das donzelinhas cheias de nove horas ou gastar a sintaxe avacalhada que dá gosto do nosso povo não tenha de modo nenhum que dar satisfações a qualquer sacanocrata não acha? (Desabrigo, p.16-7)

Os pontos de vista, que entremeiam os contos flagrantes dos momentos primeiro e terceiro da novela, não estão vinculados à perspectiva narrativa tradicional. Exceto o de Evêmero, os demais são fragmentos colhidos e deslocados da obra de outros autores que, inseridos em Desabrigo, contemplam o intuito de Fraga: discutir a participação da voz dos excluídos – prosaica, fluida, despida de censura – no coro literário. Pela autoria e pela linguagem formal, esses pontos de vista evidenciam com seu parecer – favorável ou não – a erudição do nosso forasteiro literário e a validade de sua obra.

Há seis pontos de vista: três, no primeiro round; três, no terceiro ato. Os pontos de vista – primeiro e terceiro, respectivamente, de Campos de Carvalho e de José Guerreiro Murta não aceitam o linguajar do povo, o uso da gíria e da linguagem trivial no discurso literário. Os outros, contextualizados no terceiro ato, são apropriações de fragmentos de textos de Azorín, Henri Bauche e Luigi Pirandello. Há, nessa última parte da novela, uma comunhão ideológica que estabelece uma harmoniosa relação intertextos, isto é, entre o texto centralizador, no caso Desabrigo, e a unidade textual deslocada. Esses pontos de vista, introduzidos pelo narrador no curso da narrativa, tanto mostram a coerência entre a obra em si e o questionamento que se realiza pelas suas páginas, como torna a crítica – que, normalmente, só tem função fora da obra e após sua conclusão – parte do texto e, como tal, cúmplice do discurso que o constrói.

No primeiro round, a trama principal é a briga entre Oscar Pereira, vulgo Desabrigo, e seu desafeto Amauri dos Santos Silva, conhecido na Zona do Canal do Mangue e redondezas como Cobrinha. Todos os episódios estão de alguma forma ligados a essas personagens. A cena de banzé – no boteco de Coisada – pára quando ele mostra a Cobrinha o jornal que noticia, sob o título sururu no Mangue, a briga entre este e Desabrigo. O foco desloca-se para Desabrigo. Na porta do barraco de Durvalina, sua preferida, ele “escola a pivetada”, contando as façanhas de seu pai: tocador de cuíca, mulherengo, malandro, capanga de Pinheiro Machado. A cena primeira continua em palpites. No Café Bar e Bilhares Flor do Estácio, Desabrigo, chateado com a carta de rompimento de Durvalina, esconde-se no W. C. para evitar novo confronto com Cobrinha, mas a briga repete-se. O primeiro round só termina menos tenso porque um camelô aproveita o ajuntamento e usa todos os malabarismos verbais para vender a Loção Mercúrio.

No segundo tempo, Evêmero chega ao Mangue para conhecer por dentro a vida que deseja tornar ficção: um livro “sobre todo vagabundo e mulher da vida” (D. p. 32) – um texto prosaico, com gírias, sem preocupações ortográficas ou sintáticas. Esse livro, almejado por ele, já começou a ser contado por um narrador em terceira pessoa, no primeiro round, mas só é escrito por Evêmero na última página. Os truques usados por Fraga conferem à novela caráter (meta)ficcional e são-nos revelados pelo narrador:

Naquele dia anatole tava mais pesado que desabrigo na página dezenove (Loção Mercúrio) desta quasi-novela. (Desabrigo, p. 29)

Nessa parte da novela, não há ponto de vista. Evêmero já externou o seu e o está pondo em prática – a escritura dessa novela. Anatole, que percebe e condena as intenções daquele, sai de bonde pelas linhas do livro e deixa Evêmero livre para documentar “a vida e o patuá” do marginal “gostorrento como quê” mas que incomoda os “sacanocratas e beletristas”, como Anatole.

(...) Eis senão quando para evitar repetições o autor resolveu botar um bonde nestas linhas Botou Então anatole aproveitou e disse que ia tomar aquele bonde porque tinha um encontro urgente marcado na cidade (...) ( Desabrigo, p. 30 ).

De outro bonde (ou será o mesmo?), Cobrinha, o valentão do primeiro round, salta floreado, de costas sem pagar passagem e dá uma banana para o trocador. Banana lembra comida. A fome embaralha a vista, o fonema e o paladar, e ele come “a mão como se fosse mamão” (D. p.30).Miquimba, atrasado no sexo e na comida, leva um fora da Neguinha, todavia defende a comida no jogo de bilhar, enganando Desabrigo. Mais adiante, Miquimba acode “uma vítima do álcool (Evêmero) que vai ser afanada por uma vítima de si mesmo (Cobrinha),” (D. p.33) em troca recebe a caridade sexual da manicura. Evêmero, em estado etílico, nada percebe e continua contando para o poste – estrangeiro, puritano, cheio de complexo de superioridade: “Sabe seu poste? Vou escrever um livro bom à beça...” (D. p. 34) Durvalina, esquecida da navalhada que Desabrigo levara no rosto, deseja tirá-lo da prisão onde se encontra desde a segunda briga com seu desafeto.

O terceiro ato começa quando “tava chegando o carnaval de 42” (D .39). Cobrinha encontra Coisada numa batalha de confete, na Praça Onze. Por lá, passa um cordão, “cantando o samba maioral de 42” (D.p.46).O samba é de Cobrinha e fora-lhe roubado no Nice. Desabrigo, instruído por Miquimba, passa o conto no vigário, passa o conto do vigário, ludibria- lhe com uma triste história, envolvendo jóias de falso valor, é ilaqueado pelo padre e por Miquimba e, de novo, vai parar na cadeia. As vozes de Pirandello e de Nietzsche entrecruzam-se no final do terceiro ato. O último ponto de vista, trecho de Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, precede o eterno retorno.Evêmero – um autor em busca de seus personagens – procura pelo cenário e pelas personagens de sua novela. Não os encontra. O Rio de Janeiro apresenta sensíveis modificações em sua geografia física e social. A Avenida Presidente Vargas desmonta a Praça Onze, parte do Mangue e outras construções, também, vão, em ritmo acelerado, descaracterizando palcos por onde zanzam Desabrigo, Cobrinha, Durvalina, Miquimba, Margô e seus pares na vida e na ficção. Dispersos, soltos pelas ruas de um Rio, com nova face, as personagens perdem o rumo do texto e Evêmero não sabe o que fazer.

“Então uma voz que vinha passando e que se chamava verbo”, (D. p.45) responde criticamente a uma das interpelações de Evêmero, usando um discurso espontâneo, jocoso, bem coadunado com o espírito da obra, com o comportamento e com a fala das personagens. Se “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”, o verbo, na novela, numa acepção profana, é o criador, Antônio Fraga. Ele cobra, de certa forma, de Evêmero (ou será de si próprio?) a criação de um texto capaz de reunir as personagens, de libertar Desabrigo e de reconstruir um Rio atropelado pelo progresso. “Evêmero então foi indo para casa e foi pensando É preciso fazer alguma coisa – agir agir...” (D. p.50).É preciso ler esse momento, registrá-lo, torná-lo texto, pois “sacanocratas ensangüentavam o horizonte como um novo sol” (D.p.50).Meia-noite. “rodas de bonde chiavam em sua imaginação”.(D. p.50) o bonde que tantas vezes passa pelas linhas do livro traz a inspiração. “Evêmero arregaçou as mangas da camisa (metralhadoras metralhadoras metralhadoras) e metralhou na reminton” (D.p.50) a novela. É o eterno retorno. É a volta diferente, pois prenhe de novas experiências acumuladas no caminho de ida e de volta, ou nas leituras dos textos e do mundo. O começo é também o fim, ou vice-versa: forma espácio-circular recorrente na obra de Fraga. O fim e o começo imbricados unem a vida à ficção, traçando um ciclo em que o devir assinala o não-fim.

Vozes sobre vozes num eterno retorno do diferente mostram o papel da intertextualidade na produção artística, notadamente neste século: produzir um discurso em que vários textos se contextualizam no texto aglutinador, sem perder sua memória primeira. O ritual intertextual exige uma determinada coerência entre texto/contexto de onde expressões, nomes, citações e idéias foram deslocados e o texto/contexto marginal em que agora se inserem.

Fraga declara por Evêmero seu propósito de escrever um livro sobre o espaço urbano- marginal, sem academizar o falar malandro nem o fluxo de seu pensamento transmitido pelo narrador. Sua novela é permissiva, nela cabem todos os deslizes comuns à fala, principalmente, à de um segmento social que quase nunca possui o domínio da língua culta. Em todo o livro, exceto nos pontos de vista, ele não utiliza a vírgula, os dois pontos e o ponto final; contudo demarca a pausa com iniciais maiúsculas, usa reticências, ponto de exclamação e de interrogação. Os nomes próprios nada valem, logo devem ser grafados com minúscula. Sua redação, distante das regras gramaticais, revela plena sintonia entre o discurso e a vida de personagens cotidianos, despidos de heroicidade. Assim, mescla o discurso da rua (episódios em si) com o da academia (pontos de vista), fá-los bailar em nova coreografia frasal e em nova sonoplastia vocabular. Com seu olhar-câmara, o autor de O louva-a-deus, romance inédito, redimensiona as primeiras propostas modernistas de 22 e de 30, emprestando-lhe um novo enfoque calcado na sua vivência e na sua potencialidade ficcional. Substitui o culto do folclore pela valorização da fala e da existência daqueles que vivem à margem. Assim, extrai as raízes de nacionalidade de um outro solo, tão fértil, tão brasileiro e, até tão marginal quanto o solo de onde emergiram o negro, o índio, o nordestino, o caipira.

O debate acerca da linguagem, presente nos primeiros textos modernistas – de manifestos ou de ficção – é exposto verbalmente em Desabrigo: de um lado, salvo o de Evêmero, a linguagem da tradição, do poder mostrada nos pontos de vista; de outro lado, a voz da marginália que infringe os padrões lingüísticos pela espontaneidade da gíria, da linguagem obscena e pela desarticulação da sintaxe que denota o próprio comportamento social e opõe-se à linguagem da tradição. Convite ilustra reconhecimento do povo de QueimadosDesabrigo fica, no nível ficcional , como um manifesto modernista, que torna a literatura assunto de si mesma.

A intertextualidade é um meio pelo qual o autor mobiliza um coro de vozes – afinado ou não com a escritura deste século – para produzir um eco uníssono, que, mesmo desafinado ideologicamente, abra novas perspectivas formais, rompa com os ismos anteriores ou aclimate-os ao agora e pregue, até por opiniões adversas, uma linguagem literária nossa, comprometida com todos os segmentos sociais, inclusive com aqueles postos quase sempre à margem.

Tudo explode ao mesmo tempo. É tempo de guerra no mundo. É tempo de Estado Novo no Brasil.Os barulhos coincidem. A novela está sendo datilografada. Máquinas destroem casas, dispersam malandros e prostitutas. A construção da Avenida Presidente Vargas abre uma nova trilha para o centro do Rio de Janeiro. “Metratrabalhadoras” ideologizam um novo tempo, marcado pelo culto do trabalho, sem espaço para a coreografia da malandragem. Metralhadoras sonorizam o segundo round bélico do mundo em ruínas. A arte coloca em cena uma época e um século conturbado, em que seres marginais, ficcionais ou históricos, aparecem como eternos pingentes da sobrevivência.

A violência marca presença no livro: a briga entre Cobrinha e Desabrigo ratifica o malandro bambambã, destemido. A luta, travada entre esses elementos produtores da linguagem malandra, mostra o desejo do autor de chocar beletristas, sacanocratas com uma obra que ataque as normas gramaticais, o decoro público e todos aqueles que não revelam o negativo da vida. As prostitutas, nomeadas na obra ou anônimas, são obrigadas a deslocar-se e espalham-se para o centro o que causa protestos na sociedade burguesa, pseudomoralista; outros prostitutos, os da guerra, oriundos de várias partes do mundo, lutam e “doam” seu corpo em prol de uma causa que desconhecem e de um poder que jamais lhes pertencerá.

A vida e a ficção patrocinam o espetáculo: mães clamam pela volta dos filhos que partiram para a guerra; Evêmero procura pelas suas personagens, dizimadas na área periférica do Mangue em prol do progresso e da moral, ou encarcerados numa folha de papel por ajudarem a um escritor “que tava se devorando para se conservar” (D. p.50).

Desabrigo é um texto literário cercado de outros textos. Por suas páginas circulam termos e expressões populares provenientes de um texto pulsante, falado e composto de forma coletiva na vida. Antônio Fraga usa a paráfrase devido à identidade que o aproxima do linguajar do povo. Pela literatura, deseja estabelecer uma continuidade desse discurso que aborrece e contesta o poder. A paródia é a própria finalidade desse discurso na vida e na ficção: desconstruir e corroer o discurso oficial e todas as normas que por ele são instituídas. Desabrigo é fragmento de uma obra maior, construída pelo povo na rua, no dia a dia.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Lobsang Rampa

Lobsang Rampa http://tlrampa.pwp.blueyonder.co.uk/images/Rampa3.jpg
O Polêmico Médico de Lhasa

Às vésperas do lançamento da 34" edição de A Terceira Visão no Brasil, o escritor Lobsang Rampa ainda desperta polêmicas. Apesar de ter sido alvo de críticas severas - tanto quanto de glorificação -Rampa foi um dos escritores esotéricos que mais vendeu nos anos 60, e pode sei considerado um precursor da literatura do gênero.



Naquele dia, logo depois do pôr-do-sol, o garoto de oito anos foi levado a um aposento iluminado apenas por lamparinas. Um lama segurou sua cabeça com força. Sem qualquer anestesia, o instrumento pontiagudo foi sendo lentamente introduzido na testa, abrindo um orifício. Ali foi inserida uma palheta, que permaneceu no osso frontal por dezessete dias. A cirurgia teria estimulado a glândula epífise, ou pineal, que aumentou seus poderes de clarividência.

Impressionado? Você não está sozinho. Outras 132 mil pessoas, só no Brasil, não se esquecem desta passagem do sétimo capítulo do livro A Terceira Visão (The Third Eye), escrito por Lobsang Rampa em 1955.

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O livro, publicado pela primeira vez pela editora britânica Secker & Paula Calloni de Souza
Warburg, foi um best-seller, com 80 mil livros vendidos em seis edições na Inglaterra, e 100 mil na Alemanha, além de edições com vendagens similares em toda a Europa e América do Norte.

Com todos os ingredientes de uma empolgante autobiografia, A Terceira Visão conta a vida de Tuesday Lobsang Rampa e sua formação como monge budista, até se tornar um lama e abade especialista em medicina cirúrgica. Aos sete anos, filho de um membro dos altos postos do governo tibetano, o pequeno Lobsang tem seu destino decidido por uma comissão de sacerdotes-astrólogos, que solenemente profetizam seu futuro durante uma grande festa realizada em sua casa em Lhasa, no Tibete. O menino deveria ser encaminhado ao mosteiro de Chakpori e passar por um severo preparo ético, teórico, religioso e aguçado através de provas de resistência física e mental. Ele deveria estar apto não apenas para exercer seu papel de médico, mas também para enfrentar um destino marcado por dificuldades, privações e sofrimento no Ocidente. Tendo como mestre o lama Mingyar Dondup, por quem nutre respeito e carinho quase filiais, Lobsang passa por inúmeras provações e conta tudo com detalhismo impressionante. Sua convivência com o décimo terceiro Dalai-Lama, suas experiências de quase morte, viagens astrais, clarividência; as expedições ao Planalto de Chang Tang a fim de conhecer e colher ervas medicinais; sua visita à "cidade morta" de uma civilização perdida, suas elucubrações quanto às diferenças culturais, sua fiel descrição de um ambiente carregado de mistério, inatingível à maioria das pessoas comuns, tudo isso faz da obra o tipo de livro que não se consegue mais parar de ler. A narrativa também é permeada por mensagens contra o preconceito: "É uma pena que tenhamos essa tendência para julgar outros povos segundo nossos próprios padrões". E de consolo: "A morte não existe. É um nascimento. Simplesmente o ato de nascer num outro plano de existência".

A história do menino tibetano que se torna um lama marcou época é foi um dos precursores da literatura esotérica dirigida às grandes massas. A linguagem, quase poética, de com preensão fácil, detalhista e cheia de prosopopéia, conquistou um público ávido pela necessidade de sonhar com uma realidade distante, misteriosa e praticamente inacessível.

Cenário Turbulento

Quase nada se sabia a respeito do Tibete, e o cenário sócio-cultural no Ocidente era tão nebuloso quanto a atmosfera impregnada de incenso dos mosteiros budistas. Na Europa do pós-guerra, a apreensão quanto ao domínio comunista dos chineses no Himalaia chamava a atenção para aquela região desconhecida do Oriente. Nos Estados Unidos, o livro de Rampa fez sucesso particularmente nos anos 60, em pleno movimento da contracultura.

A sociedade foi tomada por fortes sentimentos antibeligerantes. Os hippies pregavam paz e amor, o uso de drogas era estimulado como forma de reação aos vícios da sociedade conservadora. No Brasil, a primeira edição foi lançada em 1968, pela Editora Record. Era o ano da rebelião estudantil contra o regime militar, uma época em que o espírito revolucionário criava campo fértil e receptivo a tudo o que significasse a ruptura do status quo. O interesse por tudo o que fosse oposto sublinhou as diferenças entre Ocidente e Oriente, e este último, com seu misticismo e religião, passou a representar o inatingível e o paradisíaco. Os livros de Lobsang Rampa encontraram ali um nicho perfeito, e o resultado foi a conquista de um público em sua maioria leigo, porém fiel, que reagiu e ainda reage ferozmente diante das dúvidas que cercam a figura do autor, morto em 1981 em Ontário, no Canadá. Curiosamente, como fora previsto em A Terceira Visão.

Uma Farsa?
Afinal, quem era Lobsang Rampa?


Relatos do guru Agehananda Bharathi, autor de Light at the Center: Context and Pretext of Modern Mysticism (1976), dão conta de que quando a respeitada editora britânica Secker & Warburg recebeu o primeiro manuscrito de A Terceira Visão, então assinada por um certo dr. C. Kuon Suo - pseudônimo adotado por Lobsang Rampa – surgiram desconfianças acerca de sua procedência. Cautelosos, os editores enviaram cópias da obra para o próprio Agehananda, profundo conhecedor das tradições orientais. Seis meses depois, seu veredicto: tratava-se de uma falácia que não deveria ser publicada. "Quando li aquele livro, as primeiras duas páginas deram-me a certeza de que o autor não era tibetano, e as dez páginas seguintes, de que ele nunca havia estado no Tibete ou na índia e não sabia nada sobre o Budismo, nem sobre o tibetano, nem sobre qualquer outro", contestou.

Cópias da obra também foram enviadas a outros estudiosos do Tibete, entre eles Hugh Richardson, um dos últimos ingleses a residir em Lhasa antes da ocupação dos chineses, Marc Pallis, estudante britânico, e até mesmo Heinrich Harrer, autor do livro Sete Anos no Tibete, que ser viu de base para o roteiro do filme homônimo lançado em 1997. O filme, aliás, é uma deliciosa e intrigante confirmação de todo o universo descrito no primeiro livro de Rampa. As rodas de orações, o Potala, o telescópio do Dalai Lama, os chortens, está tudo lá. Detalhe: Sete Anos no Tibete foi escrito em 1953, e A Terceira Visão, em 1955.

Consultados acerca do manuscrito da primeira obra de Lobsang Rampa, tanto Harrer, quanto Pallis e Richardson foram da mesma opinião: o livro era uma fraude e seu autor, um impostor.

Suas admoestações pareceram não preocupar os editores que, independentemente das opiniões contrarias, e talvez antevendo o potencial de vendagem do livro, optaram por publicá-lo assim mesmo.

O que aconteceu é o que já se sabe: um sucesso de vendas, repercutindo no mercado editorial do mundo inteiro.

Para Harrer, Pallis e Richardson, um sujeito estranho de procedência duvidosa não tinha o direito de representar a cultura tibetana perante o mundo.

Excesso de zelo, ou Rampa seria mesmo detentor de conhecimentos cuja divulgação não interessaria a certos grupos? Seria de se esperar da superioridade ética de um lama revelações como "muros do Potala guardam-se blocos e blocos de ouro, sacos e sacos de pedras preciosas, e relíquias que datam de épocas remotíssimas?"

Pura indiscrição ou fantasia para atrair leitores incautos?

Seja qual tenha sido o motivo de preocupação, os três conhecedores dos mistérios tibetanos, decidiram contratar por conta e risco o detetive Clifford Burgess, que investigou a vida de Lobsang Rampa. Relatório final de Burgesss: o homem que se auto-intitulava lama tibetano jamais tinha estado no Tibete, não tinha uma gota sequer de aristocracia tibetana no sangue e era, na verdade, Cyril Henry Hoskins, nascido em Devon, Inglaterra, filho de um encanador. Nas horas vagas, freqüentava várias livranas e bibliotecas, dedicando-se a leituras esotéricas, notadamente A Doutrina Secreta, de Mine. Blavatsky, e outros de seu discípulo, Charles Leadbeater, sobre teosofia, ambos pródigos pelas descrições da cultura e da religiosidade orientais.

Forçado pela mídia e pela opinião pública a se explicar, o autor foi perseguido e, por fim, declarou: seu corpo era o de um cidadão comum que, por uma espécie de mediunidade, fora tomado pelo espírito de um lama tibetano.

Abriram-se então controversas possibilidades para a explicação de Rampa. De um lado, leitores de espírito mais aberto, absolutamente crédulos quanto à versão da mediunidade, ou canalização; de outro, os céticos, convencidos de que o autor havia forjado sua identidade e escrevera não mais do que um resumo fantasioso do que havia absorvido nas tardes passadas dentro das livrarias. Talvez o próprio livro de Heinrich Harrer tenha fornecido a ele embasamento para tão detalhistas descrições.

Estava lançada a polêmica. Mas parecia ser tarde demais. Rampa/Hoskins já havia conquistado milhares de fãs em todo o mundo, incluindo guias espirituais e até mesmo personalidades altamente credenciadas do meio acadêmico. Se era um farsante, não se pode negar seu talento literário. O livro foi um fenômeno de vendagem e, queiram ou não, entrou para o rol dos clássicos da literatura esotérica.

Polêmica Sem Solução

Qualquer pessoa com mais de 30 anos de idade e interessada em esoterismo ao menos já folheou um livro de Lobsang Rampa.

Para Otávio Leal, estudioso metafísico do Instituto Holístico Humaniversidade, de São Paulo, A Terceira Visão é um livro agradável, mas deve ser encarado como obra de ficção. "O autor pode até ter passado por algumas daquelas experiências, mas operação para abrir o chackra frontal? Isso não existe" - analisa. Outra fonte, que preferiu não se identificar, declarou que a linguagem utilizada pelo autor é extremamente metafórica, passível de interpretações equivocadas, e que trazer a literatura de Rampa para os dias atuais representaria um retrocesso.

Não é o que pensam seus editores no Brasil. "Estamos reformulando aos poucos as edições antigas de livros que são bem-sucedidos comercialmente", afirma Sílvia Leitão, da Editora Nova Era. Ou seja, a obra de Lobsang Rampa ainda tem potencial de vendas.

Há, no entanto, uma grande possibilidade de que as experiências abordadas por Rampa em seu primeiro livro realmente não causem, hoje em dia, o tamanho estranhamento que causaram em 1955. Não há comparação entre o volume de literatura especializada no assunto disponível à época e o que se tem hoje. Temas como viagens astrais, levitação, clarividência, se tornaram populares e, à medida que essas informações alcançaram o grande público, este aprendeu a filtrar com mais sensatez aquilo que é estapafúrdio do que é plausível e até mesmo objeto de estudos científicos. Qual é a possibilidade de algum leitor dos dias de hoje acreditar na existência do abominável homem das neves, mencionado por Lobsang Rampa em A Terceira Visão? Em alguns momentos, ele parece subestimar a inteligência de seus leitores, com frases que chegam a ser infantis, como "...ainda bem que a invisibilidade está além da capacidade de quase todos, e que só poucos, muito poucos, a conseguem atingir".

Em outro trecho, parece querer sair pela tangente,não se aprofundando em temas como as diversas formas de ioga, por exemplo. Ele é incansável, no entanto, ao longo de todos os capítulos, nas suas tentativas de nos convencer de que tudo o que conta é absolutamente real, por mais absurdo que possa parecer. "Imensas coisas que no passado foram objeto de escárnio, como a televisão e o rádio, a passagem dos anos acabou por demonstrar serem possíveis e verdadeiras ...assim é com relação ao que estou contando", frisa o autor em vários trechos da obra.

A mesma preocupação em parecer confiável se deu em O Médico de Lhasa, seu segundo livro, no qual ele continua a história a partir do momento em que deixa Chakpori e parte para Chunking, na China, a fim de complementar seus estudos de medicina e cirurgia. Ao narrar os primeiros contatos com os colegas da universidade e com seus professores, o inevitável choque cultural, o fantasmagórico encontro com a alma do mestre Mingyar Dondup, o autor mantém seu estilo detalhista. Nesse livro, Rampa também se aprofunda nos seus ensinamentos práticos, dedicando capítulos inteiros às várias técnicas de respiração e às viagens astrais, com uma preocupação quase "didática". Parece atender ao anseio dos leitores de A Terceira Visão, dos quais recebeu milhares de cartas do mundo inteiro, numa caixa postal de Fort Eire, no Canadá. Respondeu grande parte delas, prestando "consultas" gratuitas. Mas o fez a contragosto, como revela nessa nota publicada em um de seus livros: "As pessoas se esquecem de que pagam por um livro, e não por toda uma vida de serviço consultivo gratuito, pelo correio".

O Médico de Lhasa é pontuado por uma dose maior de realismo, como quando descreve o momento em que Rampa teria sido feito prisioneiro dos japoneses num campo de concentração. A crueza das torturas e execuções dá um tom sanguinolento à narrativa.

Se o objetivo era atrair mais leitores, não conseguiu. No Brasil, apenas 56 mil exemplares foram vendidos (ainda que este seja um número expressivo de vendas no Brasil). Aliás, nenhum outro de seus dezenove livros conseguiu o sucesso do primeiro. Sucesso que repercute até hoje. O próprio Dalai Lama (o décimo quarto), vez ou outra, ainda é questionado sobre as obras de Lobsang Rampa, ao que responde: "O que costumo dizer é que grande parte de seus livros é fruto de sua imaginação."

Louco ou escroque, verdadeiro lama ou farsante habilidoso, criticado pela maioria e glorificado por alguns leitores, a verdade é que Rampa, de alguma forma, foi um marco para toda uma geração.

Impossível provar ou desmentir seus fantásticos relatos. A busca da verdade é um caminho individual. Ou, nas palavras de Galileu Galilei: "Não se pode ensinar coisa alguma a alguém; pode-se apenas auxiliar a descobrir por si mesmo."

Se Rampa instigou milhares de pessoas a fazer suas próprias descobertas, como condená-lo?

A grande maioria dos críticos de Lobsang Rampa se rende ao fato de que ele trouxe o esoterismo para o palco das discussões populares. A descrição de suas experiências metafísicas e da cultura religiosa oriental vieram para a luz do interesse da opinião pública.

Este parece ser seu maior e irrefutável mérito.

Notas:

Revista Sexto Sentido
Número 35
Páginas 24-28
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