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quarta-feira, agosto 01, 2012

Conto: A casa que cresce

Ela morava numa casa que crescia. E isso era encantador. Como descobrir que sua namorada é fã da mesma banda predileta que os dois idolatraram quando adolescentes. Ou quando se descobre que ela ainda sabe solar sua música preferida. Era a mesma sensação.

Eu tinha obsessão por casas que cresciam. E acreditava que todo dono desse tipo de construção era alguém digno de respeito profundo. Donos de casas que cresciam eram pessoas que sabiam controlar concreto e vigas, janelas e corredores, portas e saídas. Nada por dentro era torto ou incômodo. Tudo se adaptava e tudo se desenvolvia.

Ela ainda tinha aquele sorriso vermelho fruta cor. Os cabelos perfumados e as unhas compridas leitoras de Quintana.

Partiu meu coração quando disse que ia embora numa quarta-feira. Disse que necessitava conhecer o mundo e que precisava de nada mais do que uma lanterna e uma barraca de camping.

- Barracas de camping não crescem, eu indaguei.
- Pois é, ela disse sem dar apoio.

Fiquei mais de duas semanas olhando para a mesma construção parada, abandonada por ela. Estava lá, perfeitinha, em pé, intacta de movimento. Ouvi um boato de que alguém na Irlanda estava começando uma campanha de barracas que cresciam pra dentro. Eu tinha certeza que era ideia dela, mas não me abalei. Eu queria coisa de cimento e ela só ia me dar espaço.

Às vezes eu dou uma quebradinha na parede do quarto só pra fingir que também sei movimentar. É, sei, é coisa de coração partido...

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quarta-feira, julho 25, 2012

Um Conto pro meu bem ou Que linha liga o teu coração ao meu?

Era feitiço. Belle-belle tinha certeza. Levou as mãos abaixo da garganta e lá estava. Um barbante do vagabundo saindo de seu peito. Ela puxou com força tentando arrebentar, mas cada vez que puxava mais nós se formavam. Tentou cortar com a tesoura, estilete, serra elétrica. Usou fogo, dente e maçarico. O troço estava agarrado ao coração. Puxou de novo formando dessa vez uma linha reta em busca de destino e o barbante respondeu.

Ela deu duas puxadinhas rápidas e o troço danou-se a arrancar seu órgão preferido. Belle-belle quase não se aguentou em pé. Os joelhos ficaram bambos, o músculo entrou em taquicardia, as orelhas começaram a suar.

Belle-belle correu assim tão laiá laiá. A pessoa do outro lado também estava morrendo. Era mandinga de amor.

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quarta-feira, julho 18, 2012

Um Conto Erótico para o cara ali da esquina ou Bons Contos de Amor são raríssimos

O nome dela é Paola. Natasha Gabriela Manuela tanto faz. Eu me sentia ator de filme pornô, pau exposto e uma câmera à deriva. Quase um trabalhador de sexo. “Eu nasci pra fazer isso”, ela me disse com meus pentelhos na boca.

Meu sonho era que meu pau ficasse duro toda vez que pensasse nela! Mas Paola Natasha Gabriela Manuela tanto faz tinha uma coisa peculiar. Ela era rouca. Daquela rouquidão sexy que lembrava minha mãe. Minha mãe foi fumante durante toda sua vida e eu acreditava que toda voz trêmula era sinal de santidade. Como eu poderia foder minha mãe?

Ela tinha gemidos roucos, desses que traziam à tona cantigas de ninar do século passado. Não sei se fiz o certo, mas quando ela estava lá na parte de “Você gostaria que eu fizesse isso?” dei uma pequena parada dramática e graças a Deus ela não disse nada.

- Um momento, já volto.

Fui ao banheiro e passei a mão no pau e no cabelo. O espelho estava sujo de pasta de dente, eu tinha que limpar aquilo um dia. Abri a gaveta e encontrei uma caixinha de Rebuçados Mitílicos. Um pouco enferrujada e esquecida, mas serviria.

Pedi pra moça abrir a garganta profunda. Enfiei a caixinha com cuidado. Ela quase sufocou. Fez um som nasal (huuuuum), mas de rouquidão eu não ouvi mais nada. Ficaríamos bem. Aquilo era meu amor eterno.

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quarta-feira, julho 11, 2012

CONTO: O garoto que não conhecia o Líbano


Ele lia as estórias de trás pra frente. Qualquer estória. Desde aquelas de livros finos até às enciclopédias que a gente coloca em ordem e chama de vida. Ficava em casa folheando ao contrário porque era assim que se fazia alguém que vinha da Lua.
Quando as pessoas desciam da Lua elas não traziam malas, mas mochilas. Carregadas de fotos e tudo aquilo que não se pode ver. Aí elas batiam na casa de algum vizinho e mostravam todas as imagens.
O garoto me disse que não conhecia o Líbano, mas tinha um capacete de Marte. Servia para se proteger, pois dizia que tudo que é sólido pode derreter. Me contou que foi daí que surgiu “Tô com a cabeça na Lua” porque quando não se usava capacete o pescoço derretia e a cabeça se soltava. Havia muitas cabeças flutuantes em ambiente lunar. Me perguntou onde estava meu objeto de proteção contra todo o mal do desprendimento e eu não sabia o que dizer.
Foi nesse momento que partilhei o sentimento de extraterrestre.
- Não há problema, ele disse, vou te dar uma foto para você lembrar onde deve procurar. Sei que está aqui em algum lugar.
Desmanchou todos os livros da minha casa. Destruiu todas as estórias lineares e retirou toda a pontuação para que eu pudesse ver as palavras soltas. Vou confessar que em toda minha vida de coração viajante de pés livres foi a primeira vez que duvidei que alguém conseguiria me mostrar alguma coisa no meio daquela pilha de desorganização.
- Aqui, ele gritou em meio a meu Homero e o Inferno de Dante.
E eu não vi nada. Ficou balançando na minha cara todas aquelas folhas e eu só via o branco.
- Não há nada aqui, eu disse.
- Ah, sim – ele afirmou como se tivesse esquecido um detalhe muito importante.
Meus amigos fotógrafos dariam tudo pra ver uma câmera do espaço. A máquina fez clic e trouxe aquele brilho anos-luz. A pupila diminuiu e o coração dilatou por meio segundo. Entortei um pouco a cabeça pra ver se havia realmente enxergado bem a fotografia que ele balançava na minha cara mais uma vez.
Havia um ponto de interrogação tatuado no meio de uma mão. Eu dei aquelas duas piscadelas de confusão mental. Pessoas da Lua tinham pensamentos muito acelerados.
- Você precisa procurar sua energia estática, ele disse sorrindo.
Aí me entregou uma foto e um livro intitulado “Tudo que você gostaria de saber sobre a Lua e não tinha coragem de perguntar”
Depois disse que tinha que ir embora porque a Lua vivia se deslocando e ele precisava achar o caminho esquerdo antes que o direito derretesse. Pensei: Uau. Deve ser muito difícil viajar.

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‎"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."
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