sábado, março 24, 2012
Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena
segunda-feira, setembro 26, 2011
Rudimentarium
Esse é o blog de poesias do João N. Guimarães, com suas poesias boas e ruins, nas palavras do próprio João.
Faça como o João e envie seu material para divulgação aqui no Hippies & Beatniks
Uma poesia do João para ilustrar:
Sina do pescador de sorrisos
E no mar aberto ao sol
abro meu peito e caminho
caminho no sal só
caminho no sal sozinho
Nas ondas de meus calcanhares
desenhei esta praia terna e bela
Nas gotas de meus olhares
desenhei as curvas
desta praia donzela
E quando o crepúculo vier
não haverá marcas deste amor
e as ondas esquecerão
do dia que foram mulher
daquela tarde de calor
II
Agora já não caminho solitário
na gotas de sal que alguém me deu
já não estou só nesses passos ordinários
Neste universo já não sou só eu
Somos duas estrelas
que entram juntas no mar
Somos duas pequenas estrelas
e tentamos nos juntar
Pra brilhar mais bonito
no horizonte infinito
que tentamos nos eternizar
quarta-feira, abril 06, 2011
BURGUESIA - Cazuza
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
A burguesia não tem charme nem é discreta
Com suas perucas de cabelos de boneca
A burguesia quer ser sócia do Country
A burguesia quer ir a New York fazer compras
Pobre de mim que vim do seio da burguesia
Sou rico mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
Eu também cheiro mal
A burguesia tá acabando com a Barra
Afunda barcos cheios de crianças
E dormem tranqüilos
E dormem tranqüilos
Os guardanapos estão sempre limpos
As empregadas, uniformizadas
São caboclos querendo ser ingleses
São caboclos querendo ser ingleses
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
A burguesia não repara na dor
Da vendedora de chicletes
A burguesia só olha pra si
A burguesia só olha pra si
A burguesia é a direita, é a guerra
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução
Ao contrário da de 64
O Brasil é medroso
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia
Vamos pra rua
Vamos pra rua
Vamos pra rua
Vamos pra rua
Pra rua, pra rua
Vamos acabar com a burguesia
Vamos dinamitar a burguesia
Vamos pôr a burguesia na cadeia
Numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista
Estou do lado do povo, do povo
A burguesia fede - fede, fede, fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
Porcos num chiqueiro
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país
E não abandoná-lo com uma pasta de dólares
O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem
E se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro
No sinal, no sinal
No sinal, no sinal
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
quinta-feira, março 31, 2011
De Jack Kerouac para Rimbaud
– Pequeno Grande Latinista, quem diria!
Em outubro de 1869
Rimbaud está escrevendo poesia
em greco-francês
Sem passagem
foge de trem pra Paris,
o miraculoso guarda-freios mexicano
o joga pra fora do trem
veloz, pro Céu, onde
ele não mais viaja porque o
Céu está em todo lugar
Apesar de tudo as bichas velhas
intervêm
Rimbaud sem mais Rimbaud
treina na verdejante Guarda
Nacional, orgulhoso, marchando
na poeira com seus heróis
desejando ardentemente ser violentado,
sonhando com a Garota definitiva.
Cidades são bombardeadas enquanto
ele olha & olha & chupa
seu lábio degenerado & olha
com olhos cinzentos para a
França Sitiada
André Gill foi o precursor
de André Gide
Longas caminhadas lendo poemas
entre os Montes de Feno de Genet
O Voyant nasceu,
o vidente enlouquecido faz seu
primeiro Manifesto
dá cores às vogais
& às consoantes curiosos cuidados,
fica sujeito à influência
de velhas Bichas Francesas
que o acusam de constipação
do cérebro e diarreia
da boca
Verlaine o convoca pra Paris
com menos aprumo do que quando
expulsou garotas pra
Abissínia
“Merde!”, grita Rimbaud
nos salões de Verlaine
Fofocam em Paris a mulher de Verlaine
está com ciúmes de um garoto
que não sossega o rabo em canto algum
Amor manda dinheiro de Bruxelas
Mamãe Rimbaud odeia
a impertinência de Madame
Verlaine – Por essa época já se suspeita que o
Degenerado Arthur seja
um poeta
Uivando no porão
Rimbaud escreve Uma estação no inferno,
Sua mãe estremece
Verlaine manda dinheiro & tiros
Pra Rimbaud
Rimbaud vai à polícia
& apresenta sua inocência
como a inocência pálida
de seu divino e feminino Jesus
Pobre Verlaine, 2 anos
no xadrez, mas poderia
ter levado uma faca no coração
Iluminatións! Stuttgart!
Estudo de línguas!
A pé Rimbaud viaja
& olha através dos passos
alpinos para a Itália, procurando
trevos da sorte, coelhos
Reinos Encantados & a sua
frente nada menos que o velho
Canalleto e a morte do sol
sobre velhos casarões venezianos
Rimbaud estuda línguas
ouve a respeito dos Alleghanes,
do Brooklyn, das últimas
Pragas Americanas
A irmã que mais amava morre
Viena! Ele olha pras confeitarias
& acaricia velhos cachorros! Assim espero!
Esse gato muito louco se alista
no Exército Holandês
& viaja pra Java de navio
comandando moscas
à meia-noite
na proa, sozinho,
ninguém ouve seu Comando
a não ser o brilho dos peixes
no mar – Agosto não é
época de se ficar em Java –
Visando o Egito, ele é mais uma vez
preso na Itália por isso volta
pra casa pra poltrona profunda
mas em seguida vai
de novo pra Chipre pra
dirigir um bando de tra-
balhadores numa pedreira –
com o que se parece esse Último
Rimbaud? – Poeira de pedras
& costas negras & picaretas &
gente tossindo, o sonho surge
na mente africana do francês, –
Inválidos dos Trópicos são sempre
amados – O Mar Vermelho
em junho, os tremores na costa
da Arábia – Harar,
Harar, o mágico entreposto
de comércio – Aden, Aden,
Sul de Bedouin –
Ogaden, Ogaden, jamais
conhecido – (Nesse tempo
Verlaine está sentado em frente a cognacs
em Paris imaginando
com o que o Arthur se parece agora &
como estão desoladas suas sobrancelhas
porque eles acreditavam
na beleza juvenil das sobrancelhas –
Quem se interessa? Que espécie de
Franceses são esses? Rimbaud, bata em
minha cabeça com aquela pedra!
Um Rimbaud sério compõe
artigos elegantes & eruditos
para Sociedades Geográficas
Nacionais & depois das guerras
comanda Harari a Garota
(Ha Ha!) de volta
a Abissínia, & ela
era jovem, tinha olhos
negros, lábios grossos, cabelo
encaracolado, & seios de
um marrom polido com
bicos de bronze & pequenas
pulseiras em seus braços &
juntava suas mãos sobre o ventre &
tinha os ombros tão largos quanto
os de Arthur & orelhas pequenas
– Uma garota de alguma
casta, em Bronzeville –
Rimbaud também conheceu
Polinésias esguias
com longos cabelos revolvidos
& seios pequenos & pés grandes
Finalmente ele começa
a contrabandear armas
em Tajoura
viajando em caravanas, louco,
com um cinturão de ouro
amarrado na cintura –
Ludibriado pelo Rei Menelik!
O Xá de Shoa!
Os ruídos desses nomes
na mente ruidosa
de um francês!
Cairo para o verão,
vento amargo de limão
& beijos no parque empoeirado
onde garotas sentam de
pernas cruzadas
– ao entardecer pensando
em nada –
Harar! Harar!
Levado de maca para Zeyla
lamentando o dia
em que nasceu – o barco
retorna ao castelo de giz
Marseille mais triste que
o tempo, que o sonho,
mais triste que a água
– Carcinoma, Rimbaud
é devorado pela doença
de viver demais
Amputaram sua linda perna
Ele morre nos braços
de Isabelle sua irmã
& antes de subir ao Céu
manda seus francos
para Djami, Djami
o garoto Harari seu servo fiel
8 anos no Inferno
Africano do Francês
& tudo resulta
em nada, como
Dostoiévski, Beethoven
ou Da Vinci
Portanto, poetas, descansem um pouco
& calem-se:
Nada jamais surgiu
do nada.
1960
Jack Kerouac
domingo, fevereiro 06, 2011
Contos Laconizados do meu amigo e parceiro Francisco Jamess, baixem e comprovem o talento desse autor que na minha opinião é um dos mais talentosos da atualidade. Baixe AQUI
quinta-feira, agosto 19, 2010
dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986 - William S. Burroughs
agradeço por um continente a espoliar e envenenar.
agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.
agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.
agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.
agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.
agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.
agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.
agradeço pela aids de laboratório.
agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.
agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.
agradeço por uma nação de dedos-duros.
agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!
você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.
agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.
O uivo - Allen Ginsberg
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus Cérebros ao céu sob o
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Sérgio Sampaio

Carreira
Após ter sido radialista em Cachoeiro, Sérgio foi tentar a carreira musical no Rio de Janeiro. Contratado pela CBS (hoje Sony BMG), Sérgio lançou ao lado de Raul Seixas o álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 em 1971. No ano seguinte, lançou a marcha-rancho Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua no Festival Internacional da Canção. A música se tornou sucesso nacional e deu nome ao primeiro disco solo de Sérgio. Apesar do sucesso do compacto do Bloco, o LP não foi bem-sucedido, em parte pelo comportamento displicente de Sérgio, que se dedicava mais à vida boêmia carioca do que à divulgação do álbum.Já com o rótulo de "maldito" da MPB, Sérgio passou por várias gravadoras e lançou um álbum independente. Alcoólatra, só se recuperou do vício na década de 90, mas acabou falecendo antes de retornar a carreira. Revista Pontozero .
Cronologia
- 1947
- 1956
- 1963
- 1964
- 1965
- 1967
- 1969
- 1970
- 1971
Junho: compacto "Coco verde/"Ana Juan", direção artística de Raul Seixas e arranjos de Ian Guest. O disco toca muito, devido à ajuda de amigos disk-jockeys de Sérgio, mas vende pouco.
Setembro: LP "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez", com Raul Seixas, Míriam Batucada e Edy Star, que causa na época o maior fordunço na gravadora CBS. Também pudera: o disco era uma verdadeira sessão de escracho musical, uma coleção de pastiches de rock, samba e ritmos nordestinos, com letras sarcásticas, entremeadas por piadas e sátiras ao cotidiano em forma de vinhetas malucas.
Outubro: Sérgio participa do VI FIC com "No ano 83", de sua autoria. A seu lado, nos vocais, Jane Vaquer, futuramente conhecida como Jane Duboc.
- 1972
Abril: compacto "Classificados nº 1"/ "Não adianta". Direção artística de Raul Seixas.
Setembro: Pelas mãos de Raul Seixas, que já estava na gravadora, Sérgio ingressa na Phillips, dirigida por André Midani, para trabalhar com o produtor Roberto Menescal. Gravação de "Eu quero é botar meu bloco na rua", inscrita no VII FIC, com presença de Piau no violão, Ivan Machado no baixo, os "Cream Crackers" na percussão, Raul Seixas e membros dos Golden Boys no coro.
Outubro: estouro no FIC com o "Bloco", que invade as rádios de todo o Brasil. Em poucos meses, vendas de mais de 300 mil compactos.
Dezembro: Sérgio contrai tuberculose, mas ainda assim começa as gravações de um LP para a Phillips, com produção de Raul Seixas, e na banda de apoio Renato Piau, o tecladista José Roberto Bertrami, o baixista Alex Malheiros e Ivan "Mamão" Conti na bateria. Também participam os "Cream Crackers" e o baterista Wilson das Neves.
Março: sai o LP "Eu quero é botar meu bloco na rua". Mesmo contendo a música de grande sucesso, torna-se um fracasso comercial e de crítica. No entanto, permanece até hoje como o disco preferido da maioria dos sampaiófilos. Apesar da boa execução nas rádios de músicas como "Viajei de trem", uma toada-rock de alta lisergia, a valsa pop "Leros & leros & boleros" e os sambas "Odete" e "Cala a boca, Zebedeu", a vendagem não ultrapassa as 5 mil cópias.
Maio: apresentação na série de shows "Phono 73", em São Paulo.
Outubro: Sérgio recebe o "Troféu Imprensa", o "Oscar brasileiro", do programa "Sílvio Santos", na TV Globo, como "Revelação de 72".
- 1974
Abril: casa-se com Maria Verônica Martins (Ponka), numa cerimônia hippie em Cachoeiro. Aplica um beijo na testa do Juiz de Paz no final.
Junho: rescinde o contrato com a Phillips e retira-se por algum tempo em Mimoso, cidade próxima a Cachoeiro, onde compõe o samba "Velho bandido".
- 1975
Junho: compacto "Velho bandido"/"O teto da minha casa", com produção de Roberto M. Moura e arranjos do violonista João de Aquino.
Novembro: sua marchinha "Cantor de rádio" é incluída no LP "Convocação Geral nº 2", da Som Livre.
- 1976
Março: compacto "Ninguém vive por mim / História de boêmio(Um abraço em Nélson Gonçalves).
Junho: cancelamento de um novo LP para a Continental seguido da rescisão do contrato.
Agosto: show no Teatro Tonelero, organizado por universitários, com Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Lô Borges.
- 1978
Novembro: lota por uma semana o Teatro Opinião, do Rio, com o show "Agora".
- 1979
- 1982
- 1983
- 1986/87
- 1988
- 1989
- 1990
- 1991/92
Outubro/92: participação no show "Baú do Raul", na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, na Bahia, cantando músicas do LP "Sociedade Kavernista...".
- 1993
- 1994
Maio: internação no CTI do Hospital IV Centenário com crise aguda de pancreatite. Sérgio estava muito debilitado, nao queria ser visto por ninguem, falece às 5 da manhã do dia 15 de maio. Poucas pessoas acompanham o enterro, sinal de abandono, a midia pouco se falou. O maldito descansava...
- 2006
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
sábado, novembro 07, 2009
Poesia marginal e Paulo Leminski
Designação da produção poética caracterizada pela experimentação rítmica e musical, além do abandono, por parte dos poetas, dos meios tradicionais de circulação das obras (editoras, livros, livrarias). A poesia foi levada às praças, às ruas, às universidades. Os poemas circulavam em cópias mimeografadas, eram pendurados em "varais", jogados do alto de edifícios, distribuídos de mão em mão. A poesia marginal foi uma prática poética marcada pelo artesanal, por poetas que queriam se expressar livremente em época de ditadura, buscando caminhos alternativos para distribuir poesia e revelar novas vozes poéticas. A poesia marginal apresenta também oposição ao concretismo.
terça-feira, outubro 13, 2009
terça-feira, setembro 29, 2009
Bukowski
Henry Charles Bukowski (16 de Agosto de 1920, Andernach – ± 9 de Março de 1994, Los Angeles) foi um poeta, contista e romancista americano. Sua obra obscena e estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinaram gerações de jovens à procura de uma obra com a qual pudessem se identificar.
terça-feira, abril 14, 2009
Antônio Fraga: uma obra e um autor em busca de abrigo
Eu sempre parto do final, só o mau escritor parte do início.
Eu tenho um objetivo e quero alcança-lo.
Antônio Fraga
Talvez, não faça parte do mundo acadêmico explicar o título de um trabalho, mas no meu caso – ou melhor, no caso de Antônio Fraga – a questão é justificável pelo quase anonimato do autor e pelo quase ineditismo da obra.
Fraga parte em setembro de 1993. Deixa-nos duas obras publicadas – a novela Desabrigo (1942) e o poema dramático Moinho e (1957), alguns contos, crônicas, ensaios, divulgados pela imprensa oficial e alternativa, e ainda muitos trabalhos inéditos: uns concluídos, outros inacabados – todos desordenados, espalhados em papéis avulsos pelo improvisado escritório na Baixada Fluminense, para onde migra nos anos 60.
Quando Fraga sai definitivamente de cena, grande parte desse acervo é encaminhado à Fundação Casa de Rui Barbosa. Rebeldes, como o próprio autor, alguns manuscritos, registros e documentos pessoais relutam em seguir o destino dos demais, “escondem-se” e, de doação em doação, terminam em minhas mãos. Não consigo resistir aos apelos das personagens da vida e da ficção fraguiana; afinal, desde 1986, um pouco antes, por ocasião da escritura da dissertação de Mestrado e depois da tese de Doutorado, partilho suas histórias e, tantas vezes, com minha leitura, nelas interfiro. Acho, de vez em quando, que abdico de ser crítica ou teórica para inscrever-me, no texto de Fraga, como personagem a quem é atribuída a tarefa de revolver seu baú, organizar seus escritos e buscar editores que abriguem sua obra e propiciem, pela recepção dos leitores, o seu reconhecimento literário.
Nas ruas Senador Euzébio e São Pedro, Antônio brinca sua meninice. De uma rua próxima, Visconde de Itaúna, vem o som popular das rodas de samba. Lá, no número 117, mora Hilária de Almeida, Tia Ciata. O tempo célere desliza pelas ruas do menino e, logo, a separação dos pais, em 1932, lança-o na vida. Aos 16 anos, sozinho, resolve seguir rumo próprio. Vai para o Mangue onde vende siri e bugigangas úteis ao “pedaço”. Pelo andar ziguezagueante recebe o apelido de Cobrinha, personagem da novela Desabrigo, obra que expressa nossa identidade e aproxima a língua falada da língua escrita. Data desse tempo o início da escritura da mitologia marginal de Fraga e do recolhimento da matéria-prima que usa dez anos depois, em 1942, na criação de sua primeira obra, Desabrigo, publicada em 1945, quando finda o Estado Novo.
As primeiras investidas de Fraga no mundo das letras ocorrem em versos. São exercícios de aprimoramento métrico, de escolha e (re)conhecimento das palavras. São transbordamentos de um artista quando jovem. Anos depois, ele revela seu dom, pega o tom, capta os sons que emanam da vida e organiza sua carpintaria poética, sua prosa de arte.
Na primeira metade da década de 40, a inquietude e a insatisfação em relação à Segunda Guerra Mundial e à ditadura do Estado Novo movem a produção intelectual brasileira que, pelas sombras das crises e talvez incitadas por elas, brota profícua e fluente em artigos, em depoimentos, em crônicas, na ficção, na pintura e nos bate-papos entabulados nos cafés, nos bares, nas leiterias, nas livrarias da Cidade do Rio de Janeiro. Década elástica que, sob a locução “de 45", aglutina uma geração de múltiplos perfis, que do final dos anos 30 até meados de 50, revigora o modernismo, então em fase de saturação, e consolida em prosa e verso suas propostas de renovação e de pesquisa estética.
Nos anos 40, quando o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, é o centro cultural do país, Fraga, andarilho irreverente, circula por diferentes espaços do centro carioca que – numa geografia própria de boêmios, intelectuais, artistas, malandros – se estende da Taberna da Glória até botecos e cafés do Estácio, do Mangue e da Praça Onze.
Nesses idos, os pontos de encontro são definidos pelos freqüentadores. A turma da esquerda – principalmente escritores, jornalistas, estudantes, educadores como Anísio Teixeira, Mário Pedrosa, Vinícius de Moraes, Paulo Mercadante, Antônio Olinto, Ledo Ivo, Anibal Machado, Jorge de Lima, Hildon Rocha – transita do Amarelinho ao Vermelhinho. O pessoal de teatro – Dulcina, Procópio, Conchita – prefere o Douradinho, na Rua Álvaro Alvim. Os pintores, cenógrafos e afins – Pancetti (Giuseppe Gianini), Djanira da Mota e Silva, Santa Rosa, Milton Ribeiro, Milton da Costa –, de cavalete, pincel e tinta, “pintam” no Café Gaúcho, na Rua São José. O grupo da música – os que compram e vendem composições e/ou os que gostam de música, como Ismael Silva, Mário Lago, Chico Alves, Grande Otelo – aparece sempre pelo Café Nice, na Galeria Cruzeiro, na esquina da Avenida Rio Branco com Bittencourt Silva. Os escritores adoram as tardes de autógrafo na Livraria São José, na Rua São José, promovidas por Walter Alves Cunha e Carlos Ribeiro. Há ainda um grupo de artistas que costuma ir à Lapa (ao Capela, ao Bar México, ao Café Indígena, ao Danúbio Azul). Alguns, por divertimento só; outros para viver a Lapa, para contracenar com aqueles que são seus personagens. Aí se encontra Fraga e, mais tarde, um outro Antônio – o João. Nos anos 40, João ainda é um meninão de calças curtas. A Lapa não faz parte de sua geografia. O mapa de sua infância limita-se as ruas do bairro pobre de Presidente Altino, na Cidade de São Paulo. A ideologia torna-os contemporâneos. Eles têm mais que um nome em comum: são amigos de bar, de copo, de sinuca, de tema. Amigos de vida e de ficção.
Autodidata, poliglota, leitor compulsivo, Fraga rompe as barreiras acadêmicas; saracoteia de um lado para outro; vive intensamente a década de 40 e participa, meio como dissidente, dessa geração à qual cronologicamente está vinculado. Num início de manhã, na Lapa, em janeiro de 1945, Fraga sugere a Antônio Olinto a criação do Grupo Malraux. Ali mesmo escolhem os integrantes do grupo: Luciano Maurício, Levy Menezes, Hélio Justiniano, Ernande Soares, Aladyr Custódio, José Galdino, além deles mesmos, os Antônios – Fraga e Olinto. Dias depois, no Vermelhinho, em frente à Associação Brasileira de Imprensa, decidem apresentar o grupo por meio de uma exposição de poesia: a primeira do mundo. Há um catálogo com curta biografia dos expositores e com um dos dez poemas que cada membro do grupo iria expor. Em 10 de maio de 1945, na Escola Nacional de Belas Artes, sem querer, dois dias após a queda do hitlerismo, a exposição é inaugurada. Carlos Drummond de Andrade elogia o pioneirismo do evento em “Poetas em maio”, crônica publicada pela revista Leitura, da qual Fraga se torna assíduo colaborador.
Finda a exposição, urge que outro evento dê continuidade à atuação do grupo. Por unanimidade, Desabrigo é escolhido como obra capaz de traduzir e de registrar o grito de uma geração abafado pelos sons bélicos e repressivos advindos do contexto nacional e mundial. Desabrigo fica, desde então, como manifesto de uma geração – pelo menos parte dela – cujos escritores desejam, por viéses diferentes, tornar o discurso ação e, assim, mudar o mundo. Antônio Olinto, em depoimento concedido na época da escritura de minha tese de Doutorado, recorda:
Quando o lancei, na Editora Macunaíma, que Ernande Soares e eu fundamos, com o próprio Fraga de sócio, sabíamos que se tratava de uma novidade literária (...).Alugamos uma pequena sala na Rua São José, 21 – no local em que antes funcionava o Instituto Superior de Preparatório – e, depois do necessário orçamento, mandamos os originais a uma oficina quase artesanal no centro do Rio de Janeiro (...). Lembro-me ainda de quando, entre maio e junho de 45, assim que recebi meu ordenado, fui à oficina quitar a impressão. Reunimo-nos no Vermelhinho para a comemoração; afinal, ali estava a história de Fraga posta em livro.
Assim, Desabrigo literalmente vai à praça. Em 1945, Fraga assume uma atitude semelhante àquela que anos mais tarde identifica a Geração Mimeógrafo: como poucos livreiros quiseram comprar sua novela, ele resolveu vendê-la nos bancos da Cinelândia. É o próprio Fraga quem relata esse fato ao jornal O Globo, em 8 de novembro de 1978:
Fui para Cinelândia, botei os livros num banco e comecei a vender ao povo. Ao lado do banco coloquei um cartaz: um livro, cinco mil réis; dois livros, quatro e um livro autografado somente mil réis. Considero uma bobagem esse negócio de autógrafos. O que vale é a obra. A assinatura de um homem não vale nada.
Muitos caminhos, sem dúvida, conduzem a Fraga. Muitas vozes – contemporâneas ou não – dialogam com seus textos. Seus escritos contemplam muitos ismos. Palavras, expressões e rótulos hodiernos como estudos culturais, interdisciplinaridade, pluralidade, modernidade pós-modernidade são passíveis e possíveis de serem discutidos a partir de seus textos. Como se trata de uma apresentação, escolhi Desabrigo – livro inaugural, livro síntese de uma obra que seria tecida ao longo do tempo, anonimamente, à margem de editores, de críticos e de leitores. Em Desabrigo, estão todos os “ingredientes” – mecanismos e procedimentos literários – com os quais o porta-voz da marginalia elabora suas poções mágicas ou suas composições poéticas.
Essa “quasi-novela” abriga três divisões cujos títulos – primeiro round, segundo tempo e terceiro ato – sintetizam a idéia principal dos seis episódios ou contos flagrantes que compõem cada parte da novela. Esses episódios são como peças de um jogo de armar: atritam-se pelas páginas do primeiro round e pelos espaços periféricos do Rio de Janeiro de outrora; depois aproximam-se e possibilitam, no segundo tempo, o entendimento da “arte” do jogo, da literatura; e, no palco da vida, já no terceiro ato, juntam-se e produzem o sentido do texto, de Desabrigo: novela curta, episódica que focaliza instantâneos de personagens marginais, num espaço e tempo determinados – o Rio boêmio da década de 40.
A novela narra-se, pois expõe ao leitor os bastidores da criação literária e/ou a efervescência interior do escritor em estado epifânico. O autor simula a criação de uma novela dentro da sua e elege Evêmero, personagem e pseudo-autor, como seu procurador. Imbuído de tal atribuição, cabe a Evêmero não só a autoria da novela que se está lendo, mas também o papel de crítico que defende seu ponto de vista sobre a construção da história pelo discurso que lhe é coerente. Evêmero é efêmero, cá no texto de Fraga, cumpre a execução do projeto da novela e bate “a bota em mil-novecentos-e-quarenta-e-dois. Semanas antes de bater ele disse não sei onde nem quando”, o único ponto de vista original, feito para legitimar o livro que pretende escrever e que está sendo escrito sob os olhos do leitor: vou escrever ele todo em gíria pra arreliar um porrilhão de gente Os anatoles vão me esculhambar Mas se me der na telha usar a ausência de pontuação ou fazer as preposições ir parar na quirica das donzelinhas cheias de nove horas ou gastar a sintaxe avacalhada que dá gosto do nosso povo não tenha de modo nenhum que dar satisfações a qualquer sacanocrata não acha? (Desabrigo, p.16-7)
Os pontos de vista, que entremeiam os contos flagrantes dos momentos primeiro e terceiro da novela, não estão vinculados à perspectiva narrativa tradicional. Exceto o de Evêmero, os demais são fragmentos colhidos e deslocados da obra de outros autores que, inseridos em Desabrigo, contemplam o intuito de Fraga: discutir a participação da voz dos excluídos – prosaica, fluida, despida de censura – no coro literário. Pela autoria e pela linguagem formal, esses pontos de vista evidenciam com seu parecer – favorável ou não – a erudição do nosso forasteiro literário e a validade de sua obra.
Há seis pontos de vista: três, no primeiro round; três, no terceiro ato. Os pontos de vista – primeiro e terceiro, respectivamente, de Campos de Carvalho e de José Guerreiro Murta não aceitam o linguajar do povo, o uso da gíria e da linguagem trivial no discurso literário. Os outros, contextualizados no terceiro ato, são apropriações de fragmentos de textos de Azorín, Henri Bauche e Luigi Pirandello. Há, nessa última parte da novela, uma comunhão ideológica que estabelece uma harmoniosa relação intertextos, isto é, entre o texto centralizador, no caso Desabrigo, e a unidade textual deslocada. Esses pontos de vista, introduzidos pelo narrador no curso da narrativa, tanto mostram a coerência entre a obra em si e o questionamento que se realiza pelas suas páginas, como torna a crítica – que, normalmente, só tem função fora da obra e após sua conclusão – parte do texto e, como tal, cúmplice do discurso que o constrói.
No primeiro round, a trama principal é a briga entre Oscar Pereira, vulgo Desabrigo, e seu desafeto Amauri dos Santos Silva, conhecido na Zona do Canal do Mangue e redondezas como Cobrinha. Todos os episódios estão de alguma forma ligados a essas personagens. A cena de banzé – no boteco de Coisada – pára quando ele mostra a Cobrinha o jornal que noticia, sob o título sururu no Mangue, a briga entre este e Desabrigo. O foco desloca-se para Desabrigo. Na porta do barraco de Durvalina, sua preferida, ele “escola a pivetada”, contando as façanhas de seu pai: tocador de cuíca, mulherengo, malandro, capanga de Pinheiro Machado. A cena primeira continua em palpites. No Café Bar e Bilhares Flor do Estácio, Desabrigo, chateado com a carta de rompimento de Durvalina, esconde-se no W. C. para evitar novo confronto com Cobrinha, mas a briga repete-se. O primeiro round só termina menos tenso porque um camelô aproveita o ajuntamento e usa todos os malabarismos verbais para vender a Loção Mercúrio.
No segundo tempo, Evêmero chega ao Mangue para conhecer por dentro a vida que deseja tornar ficção: um livro “sobre todo vagabundo e mulher da vida” (D. p. 32) – um texto prosaico, com gírias, sem preocupações ortográficas ou sintáticas. Esse livro, almejado por ele, já começou a ser contado por um narrador em terceira pessoa, no primeiro round, mas só é escrito por Evêmero na última página. Os truques usados por Fraga conferem à novela caráter (meta)ficcional e são-nos revelados pelo narrador:
Naquele dia anatole tava mais pesado que desabrigo na página dezenove (Loção Mercúrio) desta quasi-novela. (Desabrigo, p. 29)
Nessa parte da novela, não há ponto de vista. Evêmero já externou o seu e o está pondo em prática – a escritura dessa novela. Anatole, que percebe e condena as intenções daquele, sai de bonde pelas linhas do livro e deixa Evêmero livre para documentar “a vida e o patuá” do marginal “gostorrento como quê” mas que incomoda os “sacanocratas e beletristas”, como Anatole.
(...) Eis senão quando para evitar repetições o autor resolveu botar um bonde nestas linhas Botou Então anatole aproveitou e disse que ia tomar aquele bonde porque tinha um encontro urgente marcado na cidade (...) ( Desabrigo, p. 30 ).
De outro bonde (ou será o mesmo?), Cobrinha, o valentão do primeiro round, salta floreado, de costas sem pagar passagem e dá uma banana para o trocador. Banana lembra comida. A fome embaralha a vista, o fonema e o paladar, e ele come “a mão como se fosse mamão” (D. p.30).Miquimba, atrasado no sexo e na comida, leva um fora da Neguinha, todavia defende a comida no jogo de bilhar, enganando Desabrigo. Mais adiante, Miquimba acode “uma vítima do álcool (Evêmero) que vai ser afanada por uma vítima de si mesmo (Cobrinha),” (D. p.33) em troca recebe a caridade sexual da manicura. Evêmero, em estado etílico, nada percebe e continua contando para o poste – estrangeiro, puritano, cheio de complexo de superioridade: “Sabe seu poste? Vou escrever um livro bom à beça...” (D. p. 34) Durvalina, esquecida da navalhada que Desabrigo levara no rosto, deseja tirá-lo da prisão onde se encontra desde a segunda briga com seu desafeto.
O terceiro ato começa quando “tava chegando o carnaval de 42” (D .39). Cobrinha encontra Coisada numa batalha de confete, na Praça Onze. Por lá, passa um cordão, “cantando o samba maioral de 42” (D.p.46).O samba é de Cobrinha e fora-lhe roubado no Nice. Desabrigo, instruído por Miquimba, passa o conto no vigário, passa o conto do vigário, ludibria- lhe com uma triste história, envolvendo jóias de falso valor, é ilaqueado pelo padre e por Miquimba e, de novo, vai parar na cadeia. As vozes de Pirandello e de Nietzsche entrecruzam-se no final do terceiro ato. O último ponto de vista, trecho de Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, precede o eterno retorno.Evêmero – um autor em busca de seus personagens – procura pelo cenário e pelas personagens de sua novela. Não os encontra. O Rio de Janeiro apresenta sensíveis modificações em sua geografia física e social. A Avenida Presidente Vargas desmonta a Praça Onze, parte do Mangue e outras construções, também, vão, em ritmo acelerado, descaracterizando palcos por onde zanzam Desabrigo, Cobrinha, Durvalina, Miquimba, Margô e seus pares na vida e na ficção. Dispersos, soltos pelas ruas de um Rio, com nova face, as personagens perdem o rumo do texto e Evêmero não sabe o que fazer.
“Então uma voz que vinha passando e que se chamava verbo”, (D. p.45) responde criticamente a uma das interpelações de Evêmero, usando um discurso espontâneo, jocoso, bem coadunado com o espírito da obra, com o comportamento e com a fala das personagens. Se “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”, o verbo, na novela, numa acepção profana, é o criador, Antônio Fraga. Ele cobra, de certa forma, de Evêmero (ou será de si próprio?) a criação de um texto capaz de reunir as personagens, de libertar Desabrigo e de reconstruir um Rio atropelado pelo progresso. “Evêmero então foi indo para casa e foi pensando É preciso fazer alguma coisa – agir agir...” (D. p.50).É preciso ler esse momento, registrá-lo, torná-lo texto, pois “sacanocratas ensangüentavam o horizonte como um novo sol” (D.p.50).Meia-noite. “rodas de bonde chiavam em sua imaginação”.(D. p.50) o bonde que tantas vezes passa pelas linhas do livro traz a inspiração. “Evêmero arregaçou as mangas da camisa (metralhadoras metralhadoras metralhadoras) e metralhou na reminton” (D.p.50) a novela. É o eterno retorno. É a volta diferente, pois prenhe de novas experiências acumuladas no caminho de ida e de volta, ou nas leituras dos textos e do mundo. O começo é também o fim, ou vice-versa: forma espácio-circular recorrente na obra de Fraga. O fim e o começo imbricados unem a vida à ficção, traçando um ciclo em que o devir assinala o não-fim.
Vozes sobre vozes num eterno retorno do diferente mostram o papel da intertextualidade na produção artística, notadamente neste século: produzir um discurso em que vários textos se contextualizam no texto aglutinador, sem perder sua memória primeira. O ritual intertextual exige uma determinada coerência entre texto/contexto de onde expressões, nomes, citações e idéias foram deslocados e o texto/contexto marginal em que agora se inserem.
Fraga declara por Evêmero seu propósito de escrever um livro sobre o espaço urbano- marginal, sem academizar o falar malandro nem o fluxo de seu pensamento transmitido pelo narrador. Sua novela é permissiva, nela cabem todos os deslizes comuns à fala, principalmente, à de um segmento social que quase nunca possui o domínio da língua culta. Em todo o livro, exceto nos pontos de vista, ele não utiliza a vírgula, os dois pontos e o ponto final; contudo demarca a pausa com iniciais maiúsculas, usa reticências, ponto de exclamação e de interrogação. Os nomes próprios nada valem, logo devem ser grafados com minúscula. Sua redação, distante das regras gramaticais, revela plena sintonia entre o discurso e a vida de personagens cotidianos, despidos de heroicidade. Assim, mescla o discurso da rua (episódios em si) com o da academia (pontos de vista), fá-los bailar em nova coreografia frasal e em nova sonoplastia vocabular. Com seu olhar-câmara, o autor de O louva-a-deus, romance inédito, redimensiona as primeiras propostas modernistas de 22 e de 30, emprestando-lhe um novo enfoque calcado na sua vivência e na sua potencialidade ficcional. Substitui o culto do folclore pela valorização da fala e da existência daqueles que vivem à margem. Assim, extrai as raízes de nacionalidade de um outro solo, tão fértil, tão brasileiro e, até tão marginal quanto o solo de onde emergiram o negro, o índio, o nordestino, o caipira.
O debate acerca da linguagem, presente nos primeiros textos modernistas – de manifestos ou de ficção – é exposto verbalmente em Desabrigo: de um lado, salvo o de Evêmero, a linguagem da tradição, do poder mostrada nos pontos de vista; de outro lado, a voz da marginália que infringe os padrões lingüísticos pela espontaneidade da gíria, da linguagem obscena e pela desarticulação da sintaxe que denota o próprio comportamento social e opõe-se à linguagem da tradição. Desabrigo fica, no nível ficcional , como um manifesto modernista, que torna a literatura assunto de si mesma.
A intertextualidade é um meio pelo qual o autor mobiliza um coro de vozes – afinado ou não com a escritura deste século – para produzir um eco uníssono, que, mesmo desafinado ideologicamente, abra novas perspectivas formais, rompa com os ismos anteriores ou aclimate-os ao agora e pregue, até por opiniões adversas, uma linguagem literária nossa, comprometida com todos os segmentos sociais, inclusive com aqueles postos quase sempre à margem.
Tudo explode ao mesmo tempo. É tempo de guerra no mundo. É tempo de Estado Novo no Brasil.Os barulhos coincidem. A novela está sendo datilografada. Máquinas destroem casas, dispersam malandros e prostitutas. A construção da Avenida Presidente Vargas abre uma nova trilha para o centro do Rio de Janeiro. “Metratrabalhadoras” ideologizam um novo tempo, marcado pelo culto do trabalho, sem espaço para a coreografia da malandragem. Metralhadoras sonorizam o segundo round bélico do mundo em ruínas. A arte coloca em cena uma época e um século conturbado, em que seres marginais, ficcionais ou históricos, aparecem como eternos pingentes da sobrevivência.
A violência marca presença no livro: a briga entre Cobrinha e Desabrigo ratifica o malandro bambambã, destemido. A luta, travada entre esses elementos produtores da linguagem malandra, mostra o desejo do autor de chocar beletristas, sacanocratas com uma obra que ataque as normas gramaticais, o decoro público e todos aqueles que não revelam o negativo da vida. As prostitutas, nomeadas na obra ou anônimas, são obrigadas a deslocar-se e espalham-se para o centro o que causa protestos na sociedade burguesa, pseudomoralista; outros prostitutos, os da guerra, oriundos de várias partes do mundo, lutam e “doam” seu corpo em prol de uma causa que desconhecem e de um poder que jamais lhes pertencerá.
A vida e a ficção patrocinam o espetáculo: mães clamam pela volta dos filhos que partiram para a guerra; Evêmero procura pelas suas personagens, dizimadas na área periférica do Mangue em prol do progresso e da moral, ou encarcerados numa folha de papel por ajudarem a um escritor “que tava se devorando para se conservar” (D. p.50).
terça-feira, abril 07, 2009
Gregory Nunzio Corso

Gregory Nunzio Corso nasceu em 26 de março de 1930, no Greenwich Village, em Nova York, filho de um casal de adolescentes que o abandonou quando tinha um ano de idade. Desde então, deambulou entre casas de adoção e prisões e nunca em colégios.
Sua primeira prisão aconteceu quando contava 12 anos e foi apanhado roubando mercadorias e passou alguns meses na cadeia esperando o julgamento. Depois de absolvido, Corso passou três meses sob observação no hospital Belleuve em Nova York.
Quando tinha 16 anos, Corso voltou para a cadeia onde cumpriu 3 anos por roubo. Foi lá que ele leu os clássicos - Dostoevsky, Stendhal, Shelley e Christopher Marlowe entre outros - e tornou-se, segundo expressou, "escolado no melhor e no pior da natureza humana."
Corso foi solto em 1950. Logo depois encontrou Ginsberg em um bar do Greenwich Village. Ele então escrevia versos limpos e convencionais, e foi Ginsberg que o introduziu a longas linhas aparentemente desconexas e a combinações surreais de palavras.
Nessa época, Corso andava a viajar pelo país, trabalhando em bicos, como repórter do Los Angeles Examiner e como marinheiro eventual.
Em 1954 ele fixou-se brevemente em Cambridge, Massachussets, onde morou virtualmente na biblioteca da Universidade de Harvard, mergulhando nas papas da poesia. Seus primeiros poemas publicados apareceram no Harvard Advocate e sua peça, "In this hung-up age", um drama macabro sobre como um grupo de turistas é pisoteado até a morte por uma manada de búfalos, foi representada no ano seguinte pelos estudantes de Harvard.
Corso foi para São Francisco em 1956, tarde demais para presenciar a lendária leitura de Uívo de Ginsberg, mas a tempo de ser reconhecido como um dos maiores poetas beat.
Mesmo não sendo engajado politicamente como outros beat, em 1956, Corso foi demitido do posto de professor da Universidade do Estado de Nova York em Buffalo por ter se recusado a assinar um documento para certificar de que não era membro do Partido Comunista.
Gregory Corso morreu de câncer da próstata no dia 17 de janeiro de 2001, na cidade de Robbinsdale, Minnesota, onde morava com sua filha Sheri Langerman. Nos últimos anos, Corso continuava escrevendo, ensinando e participando de leituras. Durante sua carreira, publicou 13 livros de poesia, 2 peças de teatro e algumas colaborações.
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Dylan Thomas
Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim de seus dias aos 39 anos, mas, ainda teve tempo de nos deixar um legado poético que o tornou um dos maiores influenciadores de toda uma geração de escritores e músicos, conta a lenda, que Bob Dylan, originalmente Robert Zimerman, muda seu nome para Dylan em homenagem ao grande poeta Dylan Thomas.
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| EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA Em meu ofício ou arte taciturna Escrevo estas páginas de espuma (tradução: Ivan Junqueira) . ESTE LADO DA VERDADE Para Llewlyn Este lado da verdade, O bom e o mau, duas maneiras (tradução: Ivan Junqueira) POEMA DE OUTUBRO Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas Meu aniversário começou com as aves marinhas Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante Ao girar me afastava do país em júbilo E pêlos campos da infância duas vezes descritos E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário Oh, pudesse a verdade de meu coração .(tradução: Ivan Junqueira) . AMOR NO HOSPÍCIO Uma estranha chegou Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas. Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo, Chegou possessa .(tradução: Ivan Junqueira) . MORTES E ENTRADAS Quase às vésperas incendiárias Quase às vésperas incendiárias Quase às vésperas incendiárias .(tradução: Ivan Junqueira) . A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA A luz irrompe onde nenhum sol brilha; Nas coxas, uma candeia A manhã irrompe atrás dos olhos; A noite, como uma lua de asfalto, A luz irrompe em lugares estranhos, ( tradução: Fernando Guimarães) . E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO E a morte perderá o seu domínio. E a morte perderá o seu domínio. E a morte perderá o seu domínio. ( tradução: Fernando Guimarães) . A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade; A mão soberana chega até um ombro descaído A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre, Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam ( tradução: Fernando Guimarães) . ESTE PÃO QUE VENHO ABRIR Este pão que venho abrir foi outrora centeio, Com o vinho, outrora o sangue de estio Esta carne que despedaças, este sangue ( tradução: Fernando Guimarães) . A FORÇA QUE IMPELE A força que impele através do verde rastilho a flor A força que impele a água através das pedras A mão que faz oscilar a água no pântano Como sanguessugas, os lábios do tempo unem-se à fonte; E não tenho voz para dizer ao túmulo da amada como sobre o meu sudário rastejam os mesmos vermes. ( tradução: Fernando Guimarães) . . | |||||||||||||||||||||||||
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