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quinta-feira, setembro 06, 2012

Formigas flutuam nos rios do inferno - Conto



Havia um formigueiro na porta de madeira oca do banheiro daquela casa em Rondônia. Clarice dizia que as formigas comiam os cupins ou mesmo a própria madeira velha, e insistia que a porta era, no máximo, um refúgio seguro para elas fora do formigueiro. Marcos tinha certeza que havia uma rainha no centro daquela porta, à altura do seu umbigo, e que esse era o motivo pelo qual eles não conseguiram exterminá-las desde o princípio: a rainha sempre punha mais ovos e criava mais operárias. As formigas tomaram conta não só da porta do banheiro como também de todo o forro do teto da casa. Marcos as adorava. Para ele, elas já faziam parte da matéria que constituía a porta, o teto e as paredes e sem elas preenchendo os túneis que criaram, a casa ficaria menos sólida. Ele também gostava dos caminhos que elas faziam nas paredes sem azulejos do banheiro e como elas nunca atacaram a dispensa ou morderam os donos da casa, Clarice se acostumou com elas sem problemas.

Clarice saiu do chuveiro e foi para o quarto, nua, sem toalhas, gotas de água fria pingando por todo chão atrás dela, deslizando pelo seu corpo, escorrendo dos cabelos negros e longos até os pés leves no chão vermelhão. Marcos estava sentado à escrivaninha, trabalhando em um conto, e não percebeu quando sua mulher entrou pela porta e só a notou quando ela o girou na cadeira e sentou no seu colo, enlaçando-o com as pernas. Sua pele estava gelada, mas sua boca estava fervendo e quando ela o beijou, o choque o acendeu rápido, o que a fez sentir mais desejo do que antes, sentindo a vontade do seu marido roçando sua boceta nua. Ela beijou seu pescoço e desceu do colo do marido, indo deitar-se na cama olhando para ele e sorrindo como se tivesse se banhado no Letes¹ e esquecido todos os seus problemas. Marcos nunca vira Clarice de Bervian tão linda como naquele momento e seja lá o que ele estivesse escrevendo evaporou na meia luz do quarto. Ele se livrou das roupas gastas que usava em casa e se pôs sobre ela na cama, lambendo a água do seu corpo todo, deixando apenas o longo cabelo dela encharcando o travesseiro grande. Ele secou todo o corpo de Clarice com os lábios e ela agora estava molhada como nunca e mesmo sabendo que não podia enxugar seu desejo ele se pôs a tentar, enquanto alisava suas coxas grossas e limpas.

Inspirando ar novo pelo nariz, Clarice sorriu mais contentamento que malícia para seu marido entre suas pernas e acenou com a cabeça, fechando os olhos, pedindo silenciosamente um abraço completo. Querendo todo o seu homem sobre si, junto de si. Sentindo seu calor lutando com o dele e perdendo sempre. Sentindo a pele do seu amor aquecendo seu corpo entregue. E não havia mundo quando ela o sentia assim. Só havia o coração forte do seu homem, que ela queria que batesse dentro de si, apertando seu peito contra o dele, cravando as unhas em suas costas largas.

Para Marcos aquele momento era o filtro pelo qual sua mente tinha que passar para que não adoecesse. Todo seu complexo, sua preocupação, seu marasmo, se afogava no carinho de Clarice e se algum dilema sobrevivesse e viesse a tona novamente, estaria um tanto enfraquecido. E mesmo que ainda formulasse essa idéia no escuro, enquanto Clarice dormia no seu peito, o cobrindo de fios negros ondulados, ele refletia sorrindo, sentindo a paz do primeiro Buda.

Uma formiga mordeu o pé trêmulo de Marcos no meio da noite, mas este nem a notou, aninhado que estava ao corpo da sua inspiração sobre os panos úmidos da cama.

                                                                                                                                                                             
1. Letes: rio dos infernos cujas águas davam àqueles que a bebiam o esquecimento (em grego lethe) e a despreocupação.

quarta-feira, agosto 15, 2012

no centro da tempestade

— A nuvem desceu, deus tá bravo.
Estávamos no centro da tempestade. A cada raio que se via um trovão gritava atravessando a chuva e o vidro da janela por onde ela escorria. Tudo lá fora era de um cinza claro intenso e os relâmpagos se seguiam um após outro, como se competissem para ver qual refletia mais forte seu branco iluminado nas gotículas de água da nuvem que tocava o chão.
Um raio gigantesco cortou nossa janela ao meio quando tocou o solo, e minha menina pulou para trás com o som do trovão, que chegou aos seus ouvidos ao mesmo tempo que a luz aos seus olhos. Faltou luz, e um minuto depois eu estava suado, sentindo falta do ventilador. Quando o vento mudou de direção eu abri a janela e vi as nuvens se mexendo de modo assustador a menos de dez metros do chão, os vários tons de cinza formando um prisma embaçado e multiforme. Pondo a cabeça para fora da janela e olhando para baixo, tinha-se a impressão que os fios de água caiam de sua cabeleira molhada e parecia que havia uma mangueira dos bombeiros tentando limpar o telhado com seu jato potente.
Um caminhão atravessava a rua com os quatro pneus submersos na torrente marrom que tomava o asfalto. O dono da loja de produtos de limpeza expulsava com um rodo novo a água que molhava seus calcanhares e seu chão. Assim que eu percebi que a luz voltou, liguei o ventilador e comecei a escrever. A nuvem foi embora tão rápido quanto chegou e os cães saíram de seus abrigos dentro de suas caixas de papelão, sob as mesas da praça . A água escoou muito antes de a chuva parar, e depois disso ainda havia bastante lixo para os cães fuçarem procurando comida. Lixo o bastante para inundar o bairro todo, se fosse o lixo que provocasse enchentes.

segunda-feira, julho 30, 2012

a doença da alma limitada



Eu estava deitado na minha cama, com minha menina já dormida ao meu lado, e pensava em injustiça. Inquieto demais para dormir, me levantei tentando fazer pouco barulho e fui até a cozinha pensando em escrever. Abri a geladeira para pegar uma garrafa de água e uma luz laranja e forte atraiu minha atenção, atravessando a janela de vidro. Abri a janela e vi uma pequena fogueira acesa, provavelmente queimando lixo e caixas velhas, fazendo uma enorme fumaça cinza subir, deixando as luzes dos postes nebulosas, mas não esmaecendo nem um pouco as luzes de natal das casas. E minha visão daquela cena me fez redobrar a confiança no texto que pretendia escrever. Peguei o notebook no quarto e o coloquei sobre a centrífuga que nós deixamos sob a janela, puxei uma cadeira da mesa de jantar e me sentei para apresentar para vocês mais um espetáculo da autoridade débil mental.

A DOENÇA DA ALMA LIMITADA  

As cortinas se abrem, entram em cena dois doutores da igreja, Kramer e Sprenger, este com um grande volume de papel sob o braço esquerdo. É uma encomenda, feita pelo papa Inocêncio XIII anos antes. Nele estão listadas todas as maneiras de identificar uma feiticeira, todos os malefícios que ela pode causar a um homem, e todos os meios de fazê-la sofrer pelos seus pecados contra a Santa Igreja Católica. O papa o folheia com interesse, ainda desconhecendo o conteúdo do livro, mas tendo certeza de que seria maravilhoso à Santa Inquisição ter um forte seguro onde se basear. Pega uma pena e, à mão, escreve uma bula certificando cada palavra escrita no Malleus Maleficarum como verdade e reiterando o fato de que quem fosse contra tal obra seria considerado herege e julgado como tal. A Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia o elogia prontamente como um marco para a fé e um inquisidor que o tivesse nas mãos se tornava um homem com poder sobre qualquer pessoa com quem ele não simpatizasse, pois você não precisava exatamente ser pego em um ato de heresia para ser condenado à morte. Os métodos de tortura da inquisição fariam qualquer jovem de 17 anos confessar que beijou o cu de Satanás.

"Nesse momento eu olhei para trás com medo do escuro às minhas costas. Fui até o quarto para ver se minha menina estava bem e voltei para a cozinha. Um catador de lixo surgiu de alguma esquina e está alimentando o fogo com madeira velha das barracas da feira. O fogo cresceu e o barulho de garrafas de vidro estourando nas chamas me fizeram perder a concentração, mas voltemos às fogueiras santas. O que vou lhes descrever a seguir são cenas de horror terríveis, mas nenhuma delas é ficção. Minha mente não é tão perversa quanto as dos doutores da igreja. Eu não conseguiria inventar tais aberrações." 

Kramer e Sprenger saem do palco, as cortinas se fecham por um minuto inteiro e, quando se abrem, mostram uma dúzia de homens vestidos com mantos brancos presos à cintura por cordas rústicas banhadas em ouro. A platéia fica apreensiva. O terceiro homem da direita pra esquerda desce do palco e vai em direção às galerias do teatro, onde os pobres se ajeitam para assistir a tragédia. Se demora olhando para uma mulher de meia idade que o encara com desprezo. O inquisidor olha para o resto da platéia e grita:

— Esta mulher tem um caldeirão grande demais para uma simples sopa! Só Deus sabe o que ela anda fervendo nesse recipiente nefando! Pode o filho de vocês ter sido cozido ontem por essa mulher malévola! Ela alimenta-se de sua carne e com o tutano de seus ossos faz a pomada voadora, com a qual unta as vassouras e esfregões nos quais ela pode voar sobre suas casas! Assim diz o Martelo das Feiticeiras, assim o crê o fiel católico!

As outras galerias e toda a platéia das primeiras filas treme diante de tal verdade e o "amém" sai seco de suas bocas. O inquisidor arrasta a mulher para o teatro com violência, o chão do palco se abre e um caldeirão gigantesco surge do buraco, subindo lentamente à medida que os dois se aproximam dele. Uma chama faz ferver o azeite dentro do caldeirão. O homem ata os braços e as pernas da mulher e com a ajuda de outro homem, sobe uma pequena escada que leva à boca do diabo, puxa a corda presa ao teto do palco, suspende a mulher sobre o caldeirão e pergunta:

— Você confessa que devorou os filhos ainda não batizados dos nossos irmãos? 

— Não! Por favor... AAAAAAAAAARHHHHHHHHH!

A platéia toda suga o ar entre os dentes "sssssss". As mulheres fecham os olhos horrorizadas. Os amigos da mulher se desesperam em agonia, e o irmão desamparado chora a dor mais forte já sentida. A mulher é levantada do azeite. A pele de suas pernas totalmente queimada. Ela olha para o teto do palco, olha além do topo do mundo, e pergunta em segredo ao seu Deus onde está a piedade dos homens santos. Os outros 10 inquisidores não olham para o caldeirão. Eles mantêm os olhos fixos na platéia, observando sentimentos exacerbados de pena em relação a uma feiticeira. Heresia é um pecado contra o divino espírito santo e contra o filho de Deus, e só o que a igreja quer é purificar essas almas pecadoras para que alcancem a salvação diante do Pai. As lágrimas, as feridas e as dores que os hereges sentem ali no palco duram algumas horas, talvez dias, e são libertadoras, mas a tortura e a agonia do inferno são eternas e de lá não se pode escapar. "Nós somos o bem!", grita a santa igreja católica, e toda mulher e homem têm que aceitar isso como verdade sob ameaça de tortura por heresia.

O outro inquisidor se manifesta:

— Você ouviu a pergunta, feiticeira, confesse seus crimes e seu sofrimento acaba. 

E a mulher delirante de dor diz:

— Eu não sou bruxa, eu não sou... AAAARHHHHAHAAAAAARRRRR! SOCORRO! ME TIREM DAQUI!

A corda que a suspendia no ar é solta, e o azeite cobre seu corpo todo até o pescoço, derretendo sua pele e cozinhando sua carne. Ela pára de gritar depois de alguns segundos. Os inquisidores puxam a corda e o corpo queimado faz alguns espectadores vomitarem. Alguns não conseguem conter o desespero. Outros sorriem a morte de uma pecadora suja, e há esperma de dois homens diferentes nos vãos de seus dentes. A morte de pessoas inocentes os mantém vivos. A mulher morreu com o choque de tanta dor cobrindo seu corpo. Os padres a desamarram e jogam-na em um canto do palco onde não há luz. O chão se abre novamente e engole o caldeirão. Um grande silêncio paira sobre os cabelos arrepiados. 

Ouve-se um baque e um grito de dor e todos se viram assustados para ver de onde veio o som. Um homem dentro de uma armadura enorme surge dos fundos do teatro arrastando um homem magro pelos cabelos. A platéia o segue com os olhos, virando o pescoço a medida que o guarda se aproxima do palco. Ele pára logo à frente da primeira fila e faz uma reverência ao superior mais próximo dizendo: 

— Este homem foi pego tentando deixar o teatro, Santíssimo.

— Obrigado, cavaleiro, nós vamos cuidar dele. - respondeu o inquisidor, erguendo o homem pelo colarinho e puxando-o para cima do palco.

Um dos padres sai da cena e volta empurrando uma mesa de madeira. Dois outros inquisidores o ajudam a preparar a mesa enquanto o que segura o prisioneiro se aproxima. Ele deita o homem magro na mesa de madeira, acorrenta suas mãos e prende cada uma de suas pernas entre chapas de madeira que as comprimem cruelmente. Uma voz estrondosa e assustadora vem do alto e brinca de ventriloquismo se escondendo nas bocas fechadas de cada padre.

— Nosso espetáculo não o agrada, senhor?

Um dos padres pega do chão uma marreta enorme, com a cabeça maior que seu antebraço, e o homem preso se desespera:

— Não me matem! Pelo amor de Deus, não me matem!

Ao que a voz gravitroante responde: 

— Ora, meu filho, você não morrerá esta noite, mas aprenderá uma lição valiosa: o que nós fazemos é para o bem de vocês. 

O algoz deixa a marreta cair sobre o joelho direito do homem, e seu grito de dor se sobrepõe à voz sem corpo. Um longo espasmo de agonia ecoa por todo o teatro e, quando retorna o silêncio assustado da platéia, a voz começa de novo, dessa vez saindo da boca do carrasco com o martelo. 

— Por em dúvida a verdade da Santa Igreja Católica e questionar as ações dos padres é um ato de heresia, é um crime contra Deus e a única pena adequada para tal vilania é a morte purificadora. Você estava tentando fugir do nosso meio, logo, deve achar que o que fazemos é cruel e desprezível, mas o que nós fazemos é libertar essas mulheres de suas vidas imundas e garantir a segurança de vocês. Você não acha isso válido?

— Vocês torturam as pessoas! Vocês arrancam a pele delas, esmagam seus seios, as queimam com ferro, as afogam com AAAAAAAAAARRRRGH-AAAAAARHHH!

— Resposta errada.

O desespero de ter o joelho esquerdo destruído pela marreta continha mais ódio que dor. Os rostos ao redor do homem na mesa eram impassíveis. Não havia mais nenhum traço de humanidade em suas faces velhas e duras. Nada poderia mudar suas convicções falidas. A voz voltou a falar, vinda do verdugo que segurava sua cabeça.

— Ir contra a vontade de Deus não leva a nada além de sofrimento, meu filho. Tudo o que nós fazemos é para o bem de vocês. Ser vítima das armadilhas de Satanás é comum entre as pessoas de alma torta, e assim como um ferreiro habilidoso faz um pedaço de ferro tosco se tornar uma espada magnífica nas mãos dos soldados, nós transformamos espíritos de luxúria em almas retas e integras usando nossas FOGUEIRAS, nossos ALICATES e nossas MARRETAS!

Dois golpes de marreta descem com toda a força e destroem os dois pés do homem deitado e respingos de sangue pobre sujam os trajes da primeira fila, que protesta em silêncio carrancudo. Os olhos do homem se tornam nascentes de água salgada, e sua mente se encolhe em si mesma, temendo um golpe direto no crânio. Os padres se retiram do local e as cortinas se fecham. O medo causa náuseas na platéia assustada, mas ninguém se levanta. Por duas horas inteiras as pessoas ficam sentadas olhando para as cortinas vermelhas e atrás delas o herege sangra, chora, agoniza, "pelo seu bem". Era um exemplo. As cortinas se abrem pouco depois da segunda hora e os padres começam a soltar o homem. Eles o tiram da madeira rubra e dois deles o apoiam nos ombros descendo do palco. Eles percorrem um dos corredores da platéia levando a sombra do que há algumas horas foi um questionador insensato. Suas pernas destruídas se arrastam pelo chão e o carpete ganha uma listra vermelha escura. Dois homens se levantam em uma das filas de poltronas e começam a seguir o padre, mas nenhum inquisidor do palco percebe o movimento, atarefados que estão fazendo preparativos. Os algozes do herege entram na galeria e jogam o corpo na direção dos pobres sentados ali, dão meia volta e se deparam com os dois homens que os seguiram parados no portal: 

— Chega de ópio, senhores. 

— Chega de cegueira.

Dois socos diretos derrubam os padres no chão ensanguentado. Abismados demais para se levantar, eles olham em direção ao herege e vêm o ódio estampado nos rostos de todas as mulheres e homens que o acolhiam e, sem apoio de nenhum lado, eles se apavoram. Lobos em fúria cercam os cordeiros de deus e os despedaçam com garras sólidas e bocas famintas, não com malefícios. Caçadores surgem das sombras e investem sobre os lobos com flechas e lanças, matam centenas, mas conseguem prender muitos deles vivos. Todos são hereges agora. Culpados sem grandes julgamentos, afinal atacaram agentes inquisidores - atacaram a igreja - atacaram Deus. Uma fila de mulheres e homens segue em direção ao palco, onde os cordeiros sedentos por vingança já preparam dezenas de postes erguidos sobre palha seca. A platéia que antes olhava aterrorizada para trás, ansiosa pelo sucesso dos lobos, agora estava cabisbaixa e direcionava seu olhar de pena ao chão, com medo de que os padres vissem o remorso que sentia pelos prisioneiros. Um a um, necromantes, feiticeiras, homossexuais, adúlteros, hereges, amantes do Diabo, confessos ou inconfessos, foram sendo acorrentados aos postes de madeira. Os doze inquisidores se organizaram com suas tochas para que todos os prisioneiros fossem queimados ao mesmo tempo. E o fogo das dezenas de fogueiras acesas se uniu em uma chama gigantesca que lambeu o teto do palco antes que ele pudesse ser aberto. O buraco sobre as chamas não foi suficiente para expulsar toda a fumaça, que se espalhou pelo teatro e pelas galerias. A fumaça entrando nos olhos das pessoas as fazia lacrimejar e assim elas puderam chorar de verdade, sem medo das lanças e flechas mirando suas cabeças. Ninguém tentou se levantar e lutar contra aquela injustiça, por mais que seus impulsos ordenassem isso. Ninguém queria alimentar as chamas, ou ser morto por um dos cavaleiros que cercavam a platéia, mas todos sentiam um remorso monstruoso devorando seus intestinos. Os atores não tinham razão, mas a platéia não tinha armas.

domingo, julho 22, 2012

a breve morte do sono



PERSONAGENS 
 
Hipnos: personificação do sono. 

Thanatos: personificação da morte.


CENOGRAFIA

O Tártaro Nevoento, morada dos filhos da Noite e prisão dos seres odiados pelos deuses. Mais profundo que o próprio Hades. 


A BREVE MORTE DO SONO

“Nove noites e dias uma bigorna de bronze cai do céu e só no décimo atinge a terra. E nove noites e dias uma bigorna de bronze cai da terra e só no décimo atinge o Tártaro.” – Hesíodo.

*CLANG!* 

HIPNOS
AAAAAAAAAARRRRRRHHHHHH! Eu não ACREDITO!

THANATOS
Caralho, irmão, o que aconteceu?

HIPNOS
Guarda o que estou te dizendo, Thanatos! GUARDA O QUE ESTOU DIZENDO! Se mais um filho de bacante jogar uma bigorna de bronze lá de cima só pra se divertir... se acontecer MAIS UMA VEZ! Eu juro que ninguém mais vai dormir por cinqüenta gerações!

THANATOS
Mas Hipnos, isto criaria uma raça que não duraria sequer 20 anos.

HIPNOS
Eles duram o quanto você quiser!

THANATOS
Você sabe que isso não é verdade, irmão. Tudo depende do que Cloto fia, Láquesis desenrola e Átropos corta.

HIPNOS
Só depende delas o destino dos humanos! 

THANATOS
Mas se a sua ira fosse cair sobre os humanos, as Parcas¹ já saberiam disso, com certeza! Acalme-se, irmão, afinal não é de você que os humanos têm medo, eles te adoram. Venha, levante-se, deixe-me ver esta cabeça.

Thanatos ajuda Hipnos a se levantar e tenta ver se a bigorna de bronze machucou seu irmão, o que sabia que não havia acontecido, mas com certeza o havia irritado.

HIPNOS
Você não sabe o quanto esses atos impensados dos humanos me enfurecem, Thanatos. Eu estou até com vontade de ir ao Hades para torturar algum de seus condenados. 

THANATOS
Por Zeus, Hipnos, você está mesmo perturbado. Você devia dormir um pouco...

HIPNOS
E VOCÊ DEVIA MORRER, THANATOS! CONSEGUIRIA FAZER ISSO CONSIGO MESMO?! EU NÃO POSSO DORMIR! 

THANATOS
Me desculpe, irmão. Me desculpe. Eu vou buscar uma coisa pra passar sua dor. 

HIPNOS
Céus...

Thanatos caminha para qualquer direção nas trevas, a fim de se distanciar de onde o irmão estava flutuando. Toma em suas mãos um pedaço de rocha negra e o lapida com os dedos fortes, de modo que se tornasse um recipiente. Dentro dele condensa um pouco de água das nuvens tempestuosas ao seu redor e, friccionando as mãos por bastante tempo, faz com que um pó fino e escuro se solte de sua pele e caia no copo, fazendo a mistura vaporar sem ferver.

THANATOS
Aqui, Hipnos, beba isto. Você vai se sentir melhor.

HIPNOS
Obrigado, irmão.

Hipnos sorve a bebida aos poucos, pois apesar de insípida, ela era densa e difícil de tragar. Um segundo depois, o copo de rocha cai das mãos de Hipnos, que estava desacordado, mas ainda respirava. Tranqüilo, como os humanos o gostavam de ter. Durante nove dias e noites o Sono provou aquela migalha de morte que os humanos experimentam todas as noites, necessária para deixar preocupações e rancores esquecidos no Tártaro. Durante nove dias e noites os bares não fecharam, pois o balconista não estava com sono, as prostitutas não estavam com sono e nem mesmo quem havia entornado vinte litros de vinho sozinho estava com sono. Mais velas foram gastas e parte da produção das fazendas se perdeu, pois os trabalhadores estavam exaustos pela falta de descanso. Ficavam na cama com as pernas moles e, sem conseguir dormir, olhavam para o teto e redescobriam o que é pensar. E foi assim com todas as pessoas, pois até os bebuns tiveram que cair em algum momento. Os filósofos, os poetas, os atores, todos tiveram alguma inspiração brilhante depois do quarto ou quinto dia e os homens comuns se tornaram tristes com tanto tempo para lembranças e formulações. As crianças romperam as portas das casas na oitava noite, loucas em sua hiperatividade ferina e a fila à frente do oráculo de Delfos nunca fora tão magnífica.

THANATOS
Bom dia, Hipnos. Como foi seu primeiro sono?

HIPNOS
Irmão... eu vi o nascimento da nossa mãe...

THANATOS
É isso que eles chamam de sonho, irmão, mas não é você que provoca isso, é o Morpheus². Não o vi passando por aqui...

HIPNOS
Céus...

Tudo se normalizou aos poucos depois que Hipnos acordou, mas este trecho da história humana se tornou um dos mais interessantes da tapeçaria das Parcas. O oráculo disse a um mendigo qual era o motivo de sua falta de sono e este passou todos os dias de insônia amaldiçoando os homens na praça por fazerem com que ele perdesse o único momento do dia em que podia esquecer sua miséria. E mortal algum jamais lançou uma bigorna de bronze ao Tártaro novamente.

                                                                                                                                                                       
1- Parcas: divindades gregas que punham e dispunham do destino e da vida dos humanos.
2- Morpheus: personificação do Sonho.

terça-feira, julho 17, 2012

Valquíria


“Pois é, menina, seu marido anda olhando pra bunda de tudo quanto é mulher no escritório. Ele é um safado mau caráter! Você devia era dar um jeito nele!”

Aumentando cada detalhe, como era de se esperar de uma fofoqueira, Marcinha conta tudo o que o marido de Valquíria andou fazendo longe do alcance de seus olhos. Ela ouve o discurso emocionado da amiga com interesse, mas demonstra pouca surpresa ou indignação diante dos fatos apresentados. Quando o falatório acaba, Marcinha se despede e deixa Valquíria sentada em sua poltrona carmesim olhando para a porta sendo fechada. Ela ouve os passos da vizinha atravessando o quintal e passando pelo portão em direção à calçada, conta 37 passos em direção à casa ao lado até ouvir a porta sendo fechada ao longe e uma chave dando duas voltas, trancando a cobra em seu buraco. Descansa a cabeça no encosto da poltrona e vê seu gato, Shuster, ronronando baixinho, olhando para dentro dos seus olhos verdes, como quem pergunta qual é o próximo passo. Ela o chama, e ele sobe em uma de suas coxas de costas para a dona e ambos ficam olhando para a porta da sala de estar, esperando.

Pierre voltava para casa em seu Rolls-Royce, fumando seu havano, no trânsito que seu dinheiro não conseguia fazer desaparecer da sua frente. Olhava para a calçada distraído, soltando fumaça pelas ventas, avistando aqui e ali uma cocotte da qual tentava descobrir a marca do absorvente apenas olhando para suas ancas. Entrou em uma avenida menos movimentada e, poucas esquinas depois, apertou o botão de um controle que abriu os portões de sua casa em uma vizinhança burguesa. Saiu pelo mesmo portão que entrou e cruzou o quintal e o jardim bem cuidado para entrar pela porta da frente em seu reino.

Valquíria ouviu ao longe o som do velho leão cruzando o asfalto, voltando para sua caverna. O rugido que antes se aproximava depressa, com urgência de chegar em casa logo e se esconder do mundo, agora se aproximava cada dia mais devagar, vadio, sem pressa de perder a luz de fora da gruta. Ouviu um pequeno "bip" e o portão se abrindo, e sentiu o leão entrando na garagem e deixando lá sua pele. Contou os passos lentos cruzando o quintal e percebeu que foram muitos mais do que os necessários. Notou que ele havia voltado até o portão e parado um momento para só depois seguir uma linha reta até a porta de casa e abri-la devagar, tendo um leve sobressalto ao notar sua mulher sentada na poltrona da sala escura.

— Oi, amor.
— Olá.
— Tá tudo bem?
— Sim.
— Hum.

Nesse momento Valquíria alisou a orelha esquerda de Shuster e ambos olharam fixamente para Pierre. Este, por sua vez, sentiu que o ambiente não estava muito bom e subiu as escadas em direção ao quarto. Tirou sua roupa, jogou-a no chão e sentou-se em sua cama king size, sentindo sua cabeça latejar. Entrou no banheiro e urinou com muita dificuldade, ligou o chuveiro e o deixou esquentar até que o box estivesse cheio de vapor e entrou no banho. Ensaboou os braços, o peito, a barriga e quando foi em direção à virilha o sabonete escorregou de sua mão. Ele se abaixou irritado procurando o sabonete ao redor dos pés e notou seu membro caído no chão.

Valquíria não se levantou da poltrona um segundo e ainda alisava Shuster quando ouviu acima de sua cabeça o som de algo caindo no chão molhado.

Pierre recolheu seu membro e o observou curioso. Colocou-o sobre a saboneteira, achou o sabonete no chão e continuou tomando seu banho.

Valquíria sorriu.

Pierre terminou seu banho, secou-se e desceu as escadas enrolado na toalha segurando seu pênis. Avistou Valquíria sorrindo e disse-lhe:

— Olha, amor, meu pau caiu.

Shuster pulou do colo de sua dona e ela se levantou sorridente:

— Interessante, querido. Vou pedir para Otsu servir nosso jantar.
— Quero ver o que essa bruxa velha preparou hoje.
— Não seja grosseiro, Pierre.

Otsu era uma senhora de traços orientais muito distintos e trejeitos de uma matriarca rígida. Entendia tudo sobre misturas de ingredientes para alcançar os fins desejados. Era a única cozinheira da casa, sendo vez ou outra, a contragosto, auxiliada pelos outros empregados. Preferia trabalhar sozinha.

— Onde está a comida, Otsu?! - resmungou Pierre.
— Está a caminho, seu cão resmungão! - respondeu Otsu.
— Ora, sua cadela idosa - disse Pierre se levantando e segurando a toalha para que não caísse.
— Pierre! - gritou Valquíria, o mandando sentar - Não liga para ele, Otsu, ele está nervoso porque perdeu o membro.
— Ora! Esse homem faz drama por qualquer coisinha! - disse Otsu, servindo a mesa desinteressada.
— Pra mim chega, eu vou subir. - disse Pierre. Pegou o prato de comida e saiu da cozinha, deixando a toalha no caminho e o pênis sobre a mesa.

Valquíria o seguiu e quando entrou no quarto viu Pierre sentado na cama com o prato de comida intocado no criado mudo, sentou-se ao lado dele e perguntou com voz amena:

— Querido, o que você tem?
— Nada... só não quero ficar ouvindo ofensas de ninguém.
— Mas você sempre respondeu a Otsu a altura.
— Não consegui pensar em nada.
— Você tá bem?
— Não... acho que tive um dia ruim no trabalho.
— Ô, meu amor, não fica assim.

Valquíria abraçou Pierre e o sentiu frio. Pegou o membro que tinha trazido da cozinha e o esticou com as mãos, o deixando teso, tocou o baixo-ventre nu de Pierre e pôs o seu orgulho no lugar. Ele esticou a coluna e se manteve ereto como sempre ficava. Beijou Valquíria e a deitou na cama, despindo-a, beijou seu corpo todo e a amou com o mesmo ânimo de quando eram jovens. Valquíria se sentiu bem por perceber como o marido a amava quando tinha o desejo acumulado. O plano ia bem.

No dia seguinte Pierre acordou pela manhã e rolou para fora da cama, esquecendo seu membro enrolado nas cobertas junto de Valquíria. Ele não deu mais pela falta do falo perdido. Foi ao banheiro, olhou para o rosto que amanheceu com menos barba do que o comum e não se deu o trabalho de apará-la, sentou-se no vaso sanitário e mijou como uma mulher, sem pensar muito no assunto. Tomou banho, vestiu o terno e foi para o trabalho sem falar com ninguém da casa. Ninguém o notou passando.

Valquíria acordou às 9:30 da manhã e se espreguiçou na cama sem abrir os olhos. Esticando um dos braços, sentiu a pele do marido tocar sua mão e ficou feliz com a ideia de ele ter faltado ao trabalho e ainda estar na cama com ela àquela hora. Virou o corpo para o lado dele na cama, e viu que ele não estava lá, mas seu membro esticado estava na palma de sua mão fechada. Olhou para o órgão lembrando-se do que havia feito e levou-o consigo até o banheiro. Olhou para o cabelo bagunçado no espelho e sentou-se no vaso que estava com o assento abaixado, o que foi estranho porque Pierre era do tipo raro que levanta a tampa do vaso para mijar. Levantou-se adivinhando o que havia acontecido, tirou a camisola e entrou no box do banheiro. Lavou o corpo todo e pegou o mastro que estava repousando sobre a pia do banheiro para lavá-lo também, pois o marido era muito cuidadoso com isso. Saiu do banheiro com a toalha enrolada no corpo e deixou a lembrança do marido sobre o criado mudo.

Pierre estava no escritório e, por trás da escrivaninha, viu sua secretária entrando pela porta. Camila era nova demais para a função de secretária do chefe de finanças, mas era benquista na empresa, e por Pierre.

— Bom dia, Camila.
— Bom dia, Pierre, como vai?
— Bem... bem... e você?
— Eu estou ótima, chefe. O senhor parece abatido. Precisa de alguma coisa?
— Acho que não, Camila. Acho que não. Me trás só um café, acho que acordei meio doente.
— Certo, chefe, em um minuto.

Camila se virou para sair e um documento caiu dos papéis que estava carregando. Ela se abaixou para pegar o documento e suas coxas cresceram sob a meia calça quando sua saia subiu. Olhou para trás sorrindo e viu Pierre concentrado na tela do notebook. Se recompôs e saiu pela porta, pensando que o chefe devia estar mesmo doente.

Valquíria se vestiu com roupas leves e se preparou para subir ao sótão, onde seu velho baú se cobria de poeira e fuligem. Subiu as escadas e viu o baú sob uma caixa de quinquilharias sem valor que logo pôs de lado para que pudesse abrir a sua arca preciosa, de onde saiu um brilho prateado que iluminou todos os vultos do cômodo escuro. As aranhas tremeram em suas teias e as mariposas revoaram por um pedaço quebrado na janela oval próxima ao teto. Seus casulos abertos e secos crepitavam sob o calor que emanava da arca. Valquíria tocou cada objeto fantástico que havia no baú com ternura, saudosa, mas o que ela buscava de verdade era a palha eterna que mantinha todos os seus bens em segurança, protegendo-os da visão dos não iniciados e os mantendo intocáveis ao Tempo.

Era costume de algumas bruxas criadoras de pintos acalentarem seus balangandãs em palha das Estinfálides, as aves mais singulares que os gregos tiveram chance de apreciar, mas que, exatamente por sua singularidade, eram temidas e evitadas a todo custo: tinham asas, garras e bico de ferro e podiam disparar penas como setas. Elas viviam no lago Estinfalo e eram soberanas do local, dominando todo o bosque que cercava as águas. Nessa região da Acádia vivia uma feiticeira que conversava com aves e que não temia as Estinfálides. Ela ia ao lago buscar água todos os dias e assim conhecera o segredo de seus ninhos. A ave apanhava as hastes secas com suas garras, atirava quatro penas em um galho forte da árvore, ajeitava a palha com seu bico usando as penas como escoras e lufava o ninho com suas asas de ferro, checando se suporta sua revoada. Este ritual antigo e mágico dava ao ninho o poder de manter seus ovos frágeis intactos e imunes ao efeito do tempo. Só a temperatura exata de seus corpos de ferro era capaz de fazê-los chocar. A ave que não obtivesse sucesso nesse ritual estava fadada a não ter descendentes.

Certa tarde, a feiticeira sem nome foi pegar água e percebeu que quanto mais perto se aproximava do lago, mais escuro o céu ficava sobre as árvores. Imaginou que fossem nuvens de chuva, mas apurando um pouco mais a vista, percebeu que eram as Estinfálides voando todas juntas, coisa que raramente faziam, pelo risco de se machucarem. A feiticeira apressou o passo para perguntar a elas o que estava acontecendo, mas quando chegou bem perto do lago notou que havia algumas aves estendidas no chão entre as árvores. Correu até uma delas e só conseguiu ouvir, “a pele dele é muito grossa... nossas penas... são inúteis...”. A mulher fechou os olhos da ave morta e correu para ver que monstro era este que estava matando suas amigas. Na beira oposta do lago, viu uma figura do tamanho de um homem, com cabeça e pele de leão. Vendo mais atentamente, percebeu que era um homem muito forte, que vestia a pele de um leão morto como se fosse um capuz e atirava flechas para o ar com um arco enorme. Cada flecha que lançava acertava uma das aves, que caia com estrondo na água do lago ou no chão do bosque. A revoada das aves gigantescas cobriu o sol e foi como se uma tempestade de ferro se fechasse sobre o homem, mas a cada rajada de penas ele respondia com uma flecha que era fatal. Havia muitas penas afiadas fincadas em seus braços, mas qualquer parte vital do seu corpo estava coberta pelo manto de pele que parecia ser impenetrável. A feiticeira preparou um malefício e tentou lançá-lo contra o homem, mas ele parecia imune até a magia. Era noite quando o homem conseguiu trespassar a última Estinfálide com uma flecha envenenada, cobrindo as clareiras do bosque de cinza. A feiticeira chorou a morte das amigas até amanhecer e, desta vez, não se via mais as belas sombras que as aves lançavam ao chão quando cobriam a luz do sol com seus corpos magníficos.

Ela subiu em cada uma das árvores com a ajuda dos Silfos e pegou todos os ovos que conseguiu encontrar. Removeu também a palha eterna de todos os ninhos das Estinfálides e levou-a para sua casa no bosque. Tentou alquimizar toda sorte de metais para cobrir os ovos e chocá-los, mas nada se comparava ao ferro do corpo das aves. A feiticeira não conseguiu dar vida aos herdeiros de suas amigas e as aves do lago Estinfalo se tornaram uma lenda. A feiticeira forrou todas as paredes da sua casa com a palha eterna e viveu dezenas de anos que sua juventude e sua magia não viram passar. Viu nascer suas netas e as netas de suas netas, e sempre contava a elas a lenda do lago, o qual nunca deixou de visitar. Acontece que toda vez que ia buscar água e prestar homenagem o tempo caia sobre ela, impiedoso, e as horas que ela passava no lago, somadas, fizeram com que ela envelhecesse pouco a pouco depois de algumas centenas de anos. Quando a feiticeira se viu doente e velha demais até para ir ao lago sem ajuda de alguma outra bruxa, chamou suas descendentes mais jovens e contou a elas o segredo de sua longevidade, legando a elas o dever de repassá-lo para as gerações seguintes. Pediu para ser levada até o lago e passou lá seu último dia de vida, esperando o sol se pôr e lembrando cada detalhe do massacre de suas amigas. Morreu ao cair da noite e foi lançada ao rio em cujo fundo repousava o ferro de garras, bicos e penas das maiores aves que já tocaram o ar.

Quanto às bruxas, elas dividiram a palha eterna entre si e se dispersaram mundo afora. Sem disputas. Sem luta para ter toda a palha e manter sua juventude por séculos. Nenhuma bruxa estava disposta a ficar presa em um cubículo cercado de hastes secas para se manter viva mais que o necessário. Elas queriam apenas viver, e cada bruxa tinha suas preferências de como gozar a vida. Mas toda bruxa, em verdade, tinha consigo um baú forrado de palha eterna onde guardava os seus objetos e ingredientes mais secretos. Valquíria fechou o baú depois de apanhar um punhado de palha e limpou uma lágrima que escorreu pelo seu rosto quando se lembrou da história que sua mãe havia lhe contado muitos anos atrás.

Pierre continuou estranhamente quieto no trabalho. Quando entrou em seu Rolls-Royce ao final do dia, não havia orgulho em seu semblante e ele dirigiu para casa sem olhar muito para os lados. O motor do carro parecia triste quando Pierre estacionou na garagem de casa. Ele subiu as escadas sem chamar atenção dos empregados e Valquíria se assustou quando ele abriu a porta do quarto, pois ela não havia sentido sua presença.

— Oi, querido, como foi o trabalho?
— Tranquilo, eu diria.
— Tira esse terno, deixa eu te dar um banho. – disse Valquíria sorrindo, e ajudou o marido a se despir.

Ela tirou a própria roupa também e seguiu o marido, que já havia ligado o chuveiro e entrado no box, sem esperar a água esquentar. Valquíria esperou o vapor levantar-se para que Pierre não notasse o que ela trazia nas mãos, e quando ele sentiu seu membro teso restituído, tomou a mulher em seus braços e levantando uma de suas coxas, a penetrou com luxúria, dizendo tudo que Valquíria sempre rogou ouvir. Na cama, com os corpos molhados, eles trocaram carícias até a madrugada, e o jantar se foi, esquecido, e quando Pierre finalmente dormiu, Valquíria ficou receosa em remover o membro do marido de novo, e o ninho de palha sobre o criado mudo ficou vazio até o banho da manhã seguinte.

Os dias seguiram-se assim, com Pierre manso durante o dia e ferino durante a noite, e tudo parecia caminhar bem, até que Valquíria chegou à semana do mês em que seu corpo produzia um dos mais poderosos ingredientes de feitiçaria do mundo, o mênstruo. Ela decidiu que não reporia o membro de Pierre até que esses dias acabassem, pois ele havia se tornado um amante insaciável, e ela não queria decepcioná-lo recusando sua carne quando ele a pedisse. Durante seis dias Pierre chegou do trabalho, jantou e assistiu TV até pegar no sono. Valquíria não disse nada, pois sabia que o marido só estava fazendo isso porque não tinha mais um pau entre as pernas. Ele nunca havia ligado para televisão afinal. Então ela esperou pacientemente, tendo Shuster por companhia.

Ao fim do sétimo dia, Valquíria estava magnificamente sexy com suas meias arrastão, cinta-liga e rendas, esperando o marido chegar do trabalho para surpreendê-lo. Seu corpo estava coberto por perfume de lírios e seus olhos faiscavam de desejo. Pierre entrou no quarto e foi direto para o banheiro sem se despir e sem notar a mulher incrível deitada em sua cama. Valquíria não se chocou com isso e, despertando cuidadosamente o pinto que repousava no ninho, o levou para o banheiro e entrou no box beijando o marido e restituindo seu ego.

Pierre gritou de forma assustadora, primeiro por dor, e depois por desejo. Tomou Valquíria nos braços com força desmedida e mordeu sua boca em um beijo violento. Apertou um dos seios da mulher com fúria e com a outra mão arranhou suas costas, deixando cinco fios de sangue correndo sob a água quente. Seus músculos se contraiam e relaxavam como se houvesse um coração sob cada ligamento. Valquíria ficou horrorizada ao ver o membro do marido inchado e sólido, seus nervos pulsavam como se fossem explodir. Ele agarrou seus cabelos puxando sua cabeça para baixo e a mulher fechou a boca machucada, mas um soco cruzado a fez abri-la e engolir o órgão com repulsa só para depois mordê-lo com toda a força que sua mandíbula podia usar. Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, Pierre a lançou contra a parede molhada, e a penetrou com ódio, seu pênis sangrando dentro da mulher, seus olhos eram de um Íncubo faminto. Valquíria tentou se concentrar o máximo que podia sendo violada, e fechando sua concha em uma contração violenta, conseguiu arrancar o membro do marido e o isolar de novo, fazendo Pierre cair inconsciente sobre a água vermelha que corria para o ralo.

Quando Pierre acordou na manhã seguinte se assustou com o horário e ficou aflito até se lembrar que era seu dia de folga. Percebeu que sua mulher não estava na cama e sentiu uma dor forte vinda do seu baixo-ventre e quando se levantou para ir mijar, percebeu que havia um curativo com unguento em torno do seu pênis e que ele devia estar bastante ferido. Ele não fazia ideia de como poderia ter se machucado tanto, e pensando melhor, percebeu que não se lembrava de nada que havia acontecido na última semana. Mijar doía horrores. Sem conseguir imaginar nenhuma resposta para isso tudo, ele desceu as escadas de pijama e foi descontar sua irritação da manhã em Otsu, a cozinheira. Ele jamais iria saber o que se passou.

Valquíria havia saído de casa antes de amanhecer. Depois de preparar o unguento e fazer o curativo no marido, ela preparou um feitiço simples para que ninguém pudesse ver as feridas de seu corpo, além dela mesma. Ela queria que as feridas fossem um lembrete para que nunca mais lançasse um malefício contra seu amante, logo elas sumiriam sem deixar cicatrizes. Valquíria sentiu medo, e decidiu não deixar o membro do marido longe de seu corpo nem mais um segundo. Queria o homem que amava de volta, e ele havia deixado de sê-lo há semanas, e Valquíria conhecia os culpados. Ainda havia um assunto a tratar antes de voltar à sua vida normal.

Valquíria saiu de casa de antes de amanhecer levando consigo seu gato. Caminhou até o prédio onde Pierre trabalhava e durante todo o percurso, recitava mentalmente um encantamento que seria eterno e atingiria muitas pessoas ao mesmo tempo. Ela entrou pela porta principal e se aproximou da recepção mantendo o passo firme, de modo que o porteiro não a impediu de acessar o prédio, mesmo sem crachá ou cartão-passe. Subiu o primeiro lance de escadas e caminhou pelo primeiro andar encarando todas as mulheres que avistava, enquanto alisava a cauda de Shuster, que se eriçava todo em seus braços. Subiu o segundo lance de escadas e fez o mesmo no segundo andar, e no terceiro, e em todos os outros 14 andares do prédio, pacientemente e com muito cuidado. Chegando ao 17º andar do prédio ela percebeu que neste só havia escritórios abandonados, chamou o elevador e desceu até o térreo para ir embora. Quando saiu do prédio falou baixinho para o gato, “Está feito, amigo. Obrigada.”, e antes que tivesse terminado de atravessar a rua o prédio todo estremeceu com um grito de horror feminino e Valquíria sorriu ao ouvir a prova de que todas as bundas das mulheres do prédio haviam murchado para sempre.

sábado, julho 14, 2012

ele não fumava



Havia milhões de palitos de fósforo espalhados pelo chão de pedra suja da praça. Parecia que todos os habitantes da cidade iam ali para fumar seus cigarros, bagulhos, charutos, e que nenhum deles tinha um isqueiro e se pareciam mutuamente asquerosos demais para que alguém quisesse acender seu cigarro na chama do cigarro de outra pessoa. Há anos não se via um gari por aquelas bandas. Tudo ali parecia lembrança visual e você só não pensava que estava sonhando com o passado porque de vez em quando via coisas insanas, como um garoto de 10 anos dançando techno como um índio do Equador:
— Curtiu, hein, mano?
O moleque nunca deixava os dois pés juntos no chão, intercalava batendo e erguendo eles à altura do joelho, chutando o ar. Era quase como o Chaves empolgado. Seu amigo observava sentado em um banco, segurando uma bicicleta pelo selim.
— Lindo... Você tá parecendo um babuíno no cio!
— Babuíno no cio é a sua avó!
— A sua, aquela cafetina.
— O que é cafetina?
— É quem ensina sua mãe a trabalhar.
— Ah tá... se liga nessa então. – a música do seu celular mudou para um psy trance e o garoto passou a remexer cada pedaço do corpo.
— Cê tá brincando de mímica, mano? Agora você é uma enguia elétrica, acertei?
— Vai tomar no cu.
— Ô, choque! – chamou um outro jovem de longe, em uma bicicleta.
— Tá chamando você, enguia.
— Cala a boca!
— Choque! Bora logo, caralho, a gente ainda tem que pegar aquelas chinas hoje, lembra?! – gritou de novo o rapaz.
— Guentaí, Paulão! Sobe aí, moleque.
— Moleque é o caralho.
— Cê é embaçado, hein, mano? Sobe logo aí, porra!
E os dois desceram pela rua lateral em direção às chinas.


Um monge budista surgiu de uma das ruas e foi em direção ao centro da praça, onde estava o memorial de inauguração. Ele tinha a cabeça raspada e vestia uma única peça de roupa clara manchada que vinha dos seus ombros e ia até os joelhos, cobrindo seu corpo magro. Trazia um headphone na cabeça, cobrindo seus ouvidos com Clarence “Gatemouth” Brown. O bloco de concreto tinha a altura de um homem. O monge subiu nele de um salto, e se equilibrou em pé formando um 4 com as pernas e juntando as mãos espalmadas. Fechou os olhos e assim ficou, ouvindo o blues e meditando, perfeitamente imóvel.


Manos não gostam de blues, mas um deles tinha uma coleção de cds, The Blues Collection, que era seu tesouro, guardado em uma caixa debaixo da sua cama, que ele havia ganhado de um tio que morava em Louisiana e era um artista de rua – gaitista – muito famoso por lá. Ele era apaixonado por blues e queria ser Lightin’ Hopkins. De fato havia comprado um óculos escuro no camelô para se parecer mais com o “gato preto”. Este rapaz agora discutia com dois amigos em um banco próximo ao centro da praça.
— Juro, cara, não sei que graça você vê nessa música. – disse um de seus amigos, um rapaz de nick Orelha.
— Oreba, você não sabe de nada, mano! Não conhece nada além desse rap importado, que chega aqui fedendo a merda, e quer criticar o blues! Você devia ouvir, Carol, ia saber do que eu estou falando.
— Que bluuuss?!... – respondeu Carol, a amiga que estava na discussão, sentada do encosto do banco, com os pés no acento – Vê lá se eu vou ouvir “bluuuss”, olha a minha cor, Botega!
— Justamente, Carol, olha a sua cor! – respondeu Botega, que tinha que se esforçar para se lembrar de um bluesman branco. – Blues de respeito só negro sabe fazer.
— Isso não importa, Botega. – interveio Orelha – Eu continuo achando esse seu som muito caipira.
— Foi mal aí, metropolitano.
— Vamos parar, caralho! – gritou Carol – Vocês já viram aquele cara por aqui? – ela apontava para o monge, que já meditava há uma hora.
— Eu já vi ele uma vez. Ele estava daquele mesmo jeito.
— Quero ver de perto.
Ela pulou do banco e andou em direção ao monge. Os outros a seguiram.
— Por que ele faz isso?
— Ele deve estar querendo bater um recorde.
— Ele deve estar meditando – disse Botega – queria saber o que ele está ouvindo.
— Deve ser alguma música new age idiota. – disse Carol.
O monge não se abalava, não estava sequer escutando o que diziam. Estava tão concentrado que talvez não ouvisse nem mesmo o Memphis Slim solando nos seus ouvidos.
— Mano, isso é muito idiota.
— Concordo.
— Vocês deviam deixar o cara em paz, vamos sair daqui.
— Dá um dinheiro pra ele então, já que se importa tanto. Ele tá precisando de uns pano novo pra vestir.
— O mano não tem nem chinelo, doido – observou Carol.
— Não vou tirar o cara da paz pra dar dinheiro pra ele – respondeu Botega.
— Então enfia no cu. Vamo embora. – disse Orelha.
E seguiram por uma das ruas até muito longe.
— Vou deixar a Carol na casa dela, Botega. Se da minha casa der pra ouvir aquele seu som de viado quando eu chegar, eu te pego amanhã.
— Vá a merda... – disse Botega, entrando na sua casa, que era vizinha da de Orelha. Puxou sua caixa debaixo da cama e pegou um cd da sua coleção, B. B. King – The King of Blues, colocou no seu rádio, com o volume em boa altura e se deitou para ouvir o rei: “The Thrill Is Gone...”


O monge ficou na sua meditação até o blues acabar. Já eram 3 da manhã quando um homem atirou no seu pescoço, de baixo para cima, e o derrubou para lhe tomar o Ipod. Por algum motivo inexplicável, o monge ainda se encontrava na mesma posição em que meditava quando foi encontrado por um gari na manhã seguinte.
— Olha a paz no rosto desse rapaz.
— É como se ele estivesse sorrindo sem estar.
— Esse buraco no pescoço dele tá horroroso, será que ninguém viu isso?!
— Cala a boca, Agenor! Todo mundo viu que o cara tá morto.
— É – disse o gari – e se vocês me dão licença, eu tenho que fazer meu trabalho.
— O que você vai fazer?!
O gari pegou o corpo do monge, com certa dificuldade, pois este se encontrava duro com as pernas formando um 4 e as mãos espalmadas juntas, e o colocou dentro do seu carrinho de lixo com um grande saco preto.
— Cara! Você tá maluco?
— A gente tem que chamar a polícia!
— Você não pode fazer isso!
— Quietos! – disse o gari, cuspindo no chão e olhando cada um daqueles cidadãos assustados com um rosto feroz – EU limpo o lixo que VOCÊS fazem. Vocês mataram esse mendigo, e eu vou levar ele comigo. É assim que acontece. Não é como se vocês se importassem. Ninguém se importa. Vocês nunca olharam na cara desse rapaz, nunca deram comida pra ele, e agora o matam com um tiro e eu tenho que enterrar ele no aterro sanitário da cidade. VOCÊS são responsáveis por isso. Então calem essas malditas bocas e me deixem limpar sua sujeira.
O gari deu o nó no saco e fechou a tampa da lata no carrinho. Seu serviço na praça tinha acabado.
Ele já ia embora quando um cidadão disse:
— Você deveria era varrer esses fósforos do chão...
E o gari, sem olhar para trás, se deu ao trabalho de responder:
— Foda-se, isso é problema de vocês! Parem de fumar, seus filhos da puta.

sexta-feira, julho 13, 2012

ratos se alimentam de blues



Nesse Dia Internacional do Rock, meu segundo conto sobre o cotidiano fantástico é em homenagem a um dos pais do gênero, o Blues.

— Tem alguém nesse banco, meu jovem?
O rapaz no bar era alto e se curvava sobre o balcão olhando para uma parte do vazio que não se podia identificar. Aparentava uns 25 anos, talvez mais, com um penteado à Elvis um pouco bagunçado e barba de alguns dias. Vestia um jeans escuro amassado e uma camisa simples preta. Ouvindo o estranho, ergueu os olhos do seu copo de aguardente e piscou algumas vezes, como despertando de um devaneio, antes de dizer:
— Senhor?
— Não me recordo de ter adquirido nenhum escravo, não sou seu senhor.
— E eu não costumo tratar ninguém como superior, só não entendi o que você disse.
— Perguntei se havia alguém sentado aqui.
— Podia haver alguém aí até antes de eu chegar.
— Está sozinho?
— Na maior parte do tempo.
Não era possível definir a idade daquele senhor. Vestia um terno negro com uma camisa branca aberta no peito. Um chapéu de feltro negro com uma fita de seda cinza cobria seu cabelo grisalho. Tomou lugar no balcão, acendeu um cigarro e pediu uma dose de uísque. O balconista serviu a bebida e lhe ofereceu um cinzeiro. O velho tragou demoradamente seu cigarro, virou-se para o jovem e perguntou:
— Onde estão seus amigos?
— Em algumas das cidades por onde passei.
— Não tem amigos aqui?
— Não na minha definição de amigo.
— E sua namorada?
— Não tenho uma.
— Por quê?
— “Por quê”?
— Sim, por quê?
O jovem tomou sua aguardente de um trago, estalou os dedos pro balconista e apontou o copo vazio. Pensou um pouco enquanto observava a cachaça envelhecida sendo despejada no pequeno copo até enchê-lo e disse:
— É uma boa pergunta.
— Já teve uma namorada?
— Não.
— Como! Você já teve tempo suficiente para se apaixonar a essa idade.
— A que idade, vovô?
— Bom, você tem quantos anos? Vinte e cinco, vinte e seis?
— Vinte.
— Não minta pra mim, rapaz.
— Eu nunca minto, acho um erro estúpido de se cometer. Não raro as pessoas pensam que sou mais velho. Deve ser minha aura amena, meu ki em repouso: “ar de velho”. Mas como esse tipo de coisa não faz sentido, creio que meus trejeitos acabam expressando a tranqüilidade que eu penso ter. Jovens não são calmos.
— Realmente. Você é sempre assim?
— Sempre, pouca coisa me abala.
— Isso é muito bom, rapaz.
— Pois é. Ambrose Bierce diz que a paciência é uma forma menor de desespero, disfarçada em virtude.
— Você não me parece desesperado.
— E não sou. Sou indiferente demais para me desesperar.
— Então você não se importa com nada?
— Com muito pouco. Não conheço muitas coisas que importem.
O velho deu uma boa puxada no seu cigarro e tomou um gole de uísque. Demorou a soltar o ar. Soprou a fumaça na direção do copo e aquela imagem, iluminada pela luz fraca do bar, era inegavelmente bonita. O balcão brilhava com algumas manchas de copos de meia hora atrás.
— Aceita um cigarro, rapaz?
— Eu não fumo.
— Se importa que eu fume perto de você?
— Nem um pouco.
— Você não parou de contrair as narinas desde que eu acendi o cigarro.
— Eu não gosto do cheiro.
— Então você se importa – disse o velho, puxou a chama do cigarro quase até o filtro e o apagou no cinzeiro. Soltou a fumaça pelas narinas devagar.
— Se você não tivesse falado comigo, eu teria saído do balcão.
— Não me parece justo.
— Nem a mim, mas prefiro isso a pedir para a pessoa apagar o cigarro.
— Ela tira seu direito de respirar e você não quer tirar o dela de fumar, você é mesmo muito tranqüilo.
— Pelo menos eu tenho direito de me afastar de pessoas assim.
— Tem razão, me desculpe.
— Relaxa – disse o jovem erguendo uma mão espalmada e sorrindo com os lábios. Tomou mais um gole da sua cachaça.
— Que espécie de lugar é esse?
— Qual lugar?
— Esse bar.
— É agradável, nunca entrou aqui?
— Não. Tem um rádio tocando Bukka White. Quem conhece Bukka White?!
— Você.
— E você, pra saber que é o próprio.
— Eu venho muito aqui, conheço toda a maldita coleção de blues desse cara.
— Achei que ninguém mais ouvia blues, meu jovem.
— E não ouvem. Não eles. Mas seres como esse taberneiro aí se alimentam de blues.
— Que tipo de seres?
— Poetas, esses ratos.
O velho se recostou no balcão para enxergar o outro lado e viu um sujeito vestindo uma bermuda e chinelos, com uma camisa aberta até o último botão mostrando sua pança respeitável e seu peito peludo, sentado numa poltrona, batendo um pé ritmado no chão e balançando a cabeça, com um sorriso no rosto e olhos fechados.
— Eu o conheci. – disse o jovem – Costumava atender os clientes pessoalmente. Pelo menos alguns deles. Mas parou há um bom tempo.
— Por que ele parou? – quis saber o velho.
— Percebeu que ninguém valia o que ele servia em seus copos americanos.
— Ele deve ter ficado muito amargurado para pensar que um homem não vale sequer um copo de uísque.
— Não foi o que eu disse.
— Eu não entendo.
— Aqui não se servia essa bebida ordinária que nós tomamos para esquecer quem somos.
— Há tempos eu não esqueço – disse o velho, virando o copo abandonado no balcão de um trago e pedindo outro para o garçom com o mesmo estalar de dedos do jovem. Percebeu ser eficiente. Tinha um copo cheio em mãos quando perguntou: “e o que se servia aqui?”
— Ausência, delírio, luxúria, melancolia, memória, silêncio, sonho, amor... O amor desse rato faria você chorar antes de tomar fôlego para um segundo gole. A luxúria dele deixaria você de pau duro em segundos, e depois de a sentir descendo pela sua garganta, você bateria uma punheta e gozaria no copo que acabou de esvaziar antes que percebesse que abaixou as calças.
— Mas isso é...
— Repugnante. Todos achavam isso. E mesmo assim continuavam vindo aqui. Vermes atraídos por uma satisfação maior que a vida que levavam, se arrastando por aí. Eu conheço esse buraco há um bom tempo. Devo ser a única pessoa da época da névoa que ainda vem aqui.
— Por que época da névoa?
— Era o que serviam pra gente. Idéias nubladas. Idéias são muito tênues. Mesmo sendo destiladas pelo poeta, ainda não passavam de névoa. Uma névoa deliciosa de se tragar. Pelo menos para mim era. Aposto que para todos os que se enfiavam porta adentro atrás daquelas garrafas preciosas. Luxúria era a mais procurada. Mas ninguém sabia apreciar a luxúria. São todos tolos no fim das contas. Eu me servi de luxúria uma vez. Saí pela porta antes que pudesse pensar em pagar a conta. Com uma ereção me cortando a glande. Fui à casa de uma amiga de infância que eu sempre amei, mas que nunca conheceu minhas intenções. Até o dia em que ela foi até o portão ver quem estava tocando a campainha e se deparou comigo nu na calçada. Não devia haver ninguém em casa aquela noite. Entrei fechando o portão atrás de mim e antes que ela pudesse perguntar o que acontecera às minhas roupas, já estava com minhas bolas roçando seus lábios, e uma glande pulsando na sua garganta. Eu a joguei na grama e abri suas pernas com força, me enfiei entre elas e beijei sua boca úmida de sêmen. Nunca soube se o hálito dela era bom. A fodi. Suguei cada poro da pele macia e branca, cada terminação nervosa da pele vermelha. A fodi por horas sem gozar, e quando o fiz ela já estava tão sufocada de prazer que não conseguiu dizer mais nada. Ela agüentou as duas horas e meia muito bem disposta. A deixei deitada na grama e fui embora, vendo aquela buceta rosa regando a terra. A vadia obviamente não era virgem, e nem eu queria que fosse. Teria sido horrível pra ela.
O velho não disse nada por um longo tempo e, embora o jovem achasse que veria uma expressão abismada naquele rosto estranho, ele sorriu com o canto da boca, mostrando algumas poucas rugas nas bochechas idosas.
— A poesia tem muitas faces não é, meu jovem?
— Muitos sabores, eu diria.
— Creio que se você tivesse tomado amor naquela noite, você estaria acompanhado agora e eu não teria ocupado um banco ao seu lado no balcão.
— Quem sabe? Eu não gostaria de voltar no tempo e testar. Talvez minhas próximas garrafas fossem melancolia, memória, ausência e, de todo modo, o rato não as serviria mais.
— Você nunca mais a viu?
— Vi, claro que vi. Mas a partir daquele dia ela não era nada além de uma buceta molhada na minha presença. E eu não tinha mais tesão nenhum por ela. O gênio dela é que me excitava, mesmo ela tendo seios ótimos.
— E quando foi que o poeta deixou de servir sua poesia engarrafada?
— No dia seguinte ao que eu saí sem agradecer a ele. Eu era o único cliente que considerava o que ele fazia como algo incrível, que o cumprimentava pelo seu talento. Quando até EU saí sem ao menos erguer um copo em homenagem ao rato, ele desistiu de destilar idéias. Ou ainda o faz, mas não as tira mais da cabeçorra redonda. Ele tem uma aparência muito melhor desde então. Parece mais feliz.
— Pelo menos os bluesmen o entendem. – disse o velho, olhando mais uma vez para o poeta sentado, agora com as mãos postas sobre a barriga e o pescoço recostado na poltrona, ouvindo Professor Longhair assobiar uma canção bucólica.
— NÓS o entendemos, mas eu nunca consegui me desculpar. Só posso vir aqui e beber um pouco dessa aguardente. – virou o copo, fechando os olhos e batendo no balcão com a garganta queimada – Nenhum outro buraco me acolhe tão bem. Não me sinto bem lá fora. A indiferença me consome nas ruas.
— E aqui dentro não?
— Não... – disse o jovem estalando os dedos para o garçom – Porque aqui eu ainda tenho uma esperança. O garçom me disse que o rato tem uma garrafa que ninguém jamais pediu. Eu tenho esperança de que ele me perdoe um dia e me sirva essa garrafa, em nome dos velhos tempos.
— Que garrafa é essa?
— O entusiasmo... eu me tornei indiferente. Livrei-me da dor, dos casos de amor fracassados, da decepção pelos prazeres inalcançáveis, da preocupação, da culpa, da insônia. Mas com tudo isso se foi a inspiração para a única coisa que eu sabia fazer bem.
— E o que você fazia, rapaz? – disse o velho curioso, fechando o terno com frio.
— Blues.

terça-feira, julho 10, 2012

meu último Marlboro


Joe abria e fechava seu isqueiro de prata lisa enegrecida. Abria-o com um movimento do punho, olhava a chama com interesse quase científico e o fechava empurrando a tampa com o polegar.
Mac, que o acompanhava há anos fechando bares nas noites cansadas, acendeu um cigarro com um fósforo da caixinha que pediu ao dono do bar. Nunca havia pedido o isqueiro de Joe pois desconfiava que ele não o emprestaria. Deu uma boa tragada no cigarro, tomou um gole do seu scoth com gelo, pôs o copo na mesa e continuou o assunto:
— Ainda não acredito que você parou de fumar, Joe.
— Se você tivesse visto o que eu vi, você também pararia.
— O que aconteceu?
— Esqueça.
— O que você viu que te fez largar um vício de 17 anos?
— Você não acreditaria.
— Tente! Esse já é meu sétimo scoth hoje. Eu não ofereço resistência a nenhuma informação a essa hora da noite. Tente!
Joe foi diminuindo a velocidade do abrir e fechar do isqueiro de prata, pensando, até fechá-lo uma última vez e colocá-lo sobre a mesa, junto do seu bourbon.
— Ok.
— Maravilha.
— Você se lembra do que me disse sobre a Travessa do Gato Cego?
— “Mantenha-se a pelo menos três quadras de distância dela.”
— Exatamente. Bom, eu ouvi seu conselho, mas não obedeci completamente.
— Ah, merda... O que você fez, Joe?!
— Há umas duas semanas, quando você ainda tava viajando, eu fiquei muito deprimido uma noite e saí pra dar uma volta na rua. E cheguei mais perto do que deveria daquela rua sem saída.
— QUANTO mais perto?
— Eu entrei nela, Mac.
— Não acredito...
O cigarro se apagou esquecido entre os dedos de Mac e ele acendeu mais um fósforo e tragou um bocado até avivar novamente a chama. Seu rosto parecia um talo de palmito num vidro de conserva.
— Eu falei que você não ia acreditar.
— Não, não... Pelo amor de deus, Joe. Agora eu quero saber o que aconteceu. Fizeram alguma coisa com você?!
— Calma, deixa eu te contar. Já era tarde da noite quando eu comecei a andar no meio da rua da travessa. O asfalto de lá era o menos gasto que eu vi na minha vida. Não tinha nenhum carro nas calçadas ou nas garagens das casas. Parecia que não morava ninguém lá. As casas pareciam vazias. Todas escuras. Nenhuma com aquela maldita luz vinda da TV atravessando a janela. Mas depois eu descobri por quê.
Joe tomou seu bourbon de um gole e pediu outro ao dono do bar. Ele servia sozinho aquele pequeno boteco. Era um lugar agradável. Não tinha muito movimento àquela hora da noite. Podia-se conversar sem ser interrompido.
— No fim da travessa tinha um bar: “Boca do Belzebu”.
— Puuuta que pariu...
— É. Nome forte. Mas o lugar era simples que nem esse aqui. Quando eu vi a luz do bar de longe eu achei que todo mundo que morava na travessa estava lá. Mas o lugar tava tão vazio quanto o resto. Eu fui até o balcão e pedi uma cerveja de trigo, porque você sabe que eu não bebo destilado quando estou deprimido.
— Você é um masoquista intelectual, Joe. É quando você tá assim que você devia tomar uma garrafa de gim sozinho. Mas não, você quer continuar pensando nos seus problemas, e com a lucidez apurada que o pouco álcool te dá. Você é louco.
— Pronto?
— Pronto.
— Ok, então eu perguntei pro dono do bar, “por que não tem nenhuma luz saindo das casas dessa travessa? até parece que ninguém mora por aqui.”, e ele respondeu, “dormir e transar são coisas que se faz melhor no escuro.”
— Toma, cavalo.
— Na cara. Fechei meu bico e fui pra uma mesa. Tomei aquela garrafa em pouco tempo e pedi outra, o cara não parecia preocupado em fechar o bar. Toma esse whisky e pede outro logo, a melhor parte vem agora.
— Ok.
Mac tomou o scoth que estava pela metade e foi pegar outro no balcão. Acendeu um cigarro com o isqueiro de lá e voltou segurando ele na boca, com dois copos na mão.
— Trouxe outro bourbon pra você.
— Valeu, e pára de jogar fumaça na minha cara, filho da puta.
— Foi mal.
— Então. Eu tava lá olhando pro meu copo, aquela cor de mel maravilhosa da weiss.
— Aquilo é uma beleza.
— É sim. Tava lá olhando pro copo, tava até sorrindo, tinha até esquecido um pouco o que tava me deprimindo. Tateei no bolso e peguei meu maço de Marlboro. Só tinha um. Peguei meu isqueiro no bolso da camisa. Acendi o cigarro e dei umas boas tragadas. Deixei o isqueiro na mesa e me recostei mais na cadeira e fiquei fumando. Naquele momento eu já não sabia mais o que tava me afligindo. Mas aí ele apareceu.
— Quem, mano?
— Eu não sei de onde aquele cara saiu, Mac. A rua tava deserta e ele despontou na porta do bar. Do nada. Um cara enorme. Com uns 2 metros de altura. Ele não era forte, nem fraco, nem gordo, nem magro. O cara era GRANDE entende? O corpo dele todo era proporcional à altura.
— Entendi.
— Ele tinha um puta bigode de Leminski e tava com uma jaqueta de couro preto que parecia que ele mesmo tinha arrancado do boi. A jaqueta ficava pequena pra ele, Mac!
— Ah, cê jura?
— E, meu, os olhos do cara eram pretos que nem breu e ele parecia irritado. Com o cabelo curto bagunçado. Ofegando. Mas, mano, não dava pra dizer que o cara era feio.
— Como assim, Joe?
— O cara parecia um vilão de filme de velho oeste. Um vilão daqueles de Hollywood.
— Entendi, cê curtiu o cara.
— Curti o cu da sua mãe, caralho!
— Calma, Joe. Tô zoando, continua aí.
— Ele foi pro balcão e acho que falou alguma coisa. Eu não ouvi. Só ouvi o dono do bar dizendo, “você sabe que eu não vendo cigarros desde que me pegaram na lei antifumo, Kasparov. Sinto muito.”
— Russo sem vergonha!
— Puta merda, nem me fale. O cara ficou parado uns 10 segundos olhando pro dono do bar e virou pra mim. O russo tava furioso, Mac. Veio andando na minha direção sem tirar o olho do meu e eu não conseguia baixar a cabeça. Fiquei olhando pra ele com o meu cigarro na boca, paralisado.
— Nossa, Joe...
— É... Ele olhou pro maço vazio de Marlboro vermelho na mesa e olhou pro cigarro na minha boca e eu conseguia me mexer de novo, mas não movi um dedo. Uma ponta de cinza caiu do cigarro e queimou minha camisa.
Joe apontou para uma mancha marrom escura na camisa branca fechada no peito que ele vestia. Tomou seu whisky já com as pedras de gelo muito pequenas e aproximou de si o copo que Mac havia lhe trazido do balcão, esse sem gelo.
— Cacete...
— O maldito continuava olhando pra mim e quando eu notei ele já tinha tirado uma faca do cu, porque eu não sei de onde ele tirou aquilo.
— Uma faca?
— É! Uma daquelas malditas facas que a gente vê em tabacarias do lado das estrelas ninja e eu juro por deus que eu nunca achei que alguém compraria uma porcaria daquelas.
— Isso é coisa de idiota.
— Mac, o cara era um psicopata. Ele apontou um dedo pro meu isqueiro em cima da mesa e eu o peguei tremendo e entreguei na mão dele. Adivinha pra que ele queria o isqueiro, Mac.
— Puta que pariu, fala logo.
— Aquele desgraçado abriu meu isqueiro e começou a esquentar a lâmina da faca com a chama. Ele ficou muito tempo assim, mano, e acho que na proporção que a faca ia esquentando eu ia gelando. Eu tava desesperado, mas continuei parado lá, não tinha pra onde correr, e do jeito que eu tava eu não queria mesmo correr, naquela hora seria bom se ele acabasse comigo porque eu lembrei de todas as merdas que estavam acontecendo e não era má idéia dar um fim a elas.
— Não fala isso, Joe.
— Eu tava pensando nisso na hora, mano. Mas você não vai acreditar no que ele fez depois.
— Pode falar, Joe. Eu não vou beber mais nada hoje, quero lembrar disso amanhã de tarde.
— Acho que você vai lembrar disso por muito mais tempo.
— Então conta logo.
— O cara colocou o isqueiro na mesa e espalmou a mão no canto dela. Mexeu os dedos de modo que ficasse só o dedo médio em cima da mesa. Aquele dedo devia medir uns 15 centímetros, Mac, e era grosso. Como eu disse: proporcional. E, mano, ele encostou a faca na base dele. Eu ouvi o “tssss” da pele tostando e deu pra ver os pelinhos do dedo queimados.
— Ai...
— Ele ergueu a faca na altura da cabeça e desceu ela com tudo. TAW!
Joe estava ilustrando o movimento com a própria mão imitando uma lâmina golpeando seu dedo na mesa. Mac, puxou o ar entre os dentes e franziu todo o rosto.
— Sssssssssss...
— O dedo dele foi um pouco pra frente na mesa, solto, com a força do golpe, e quase não sangrou. Aquele maldito deixou a faca pressionando o toco de dedo que sobrou “tsssssssssssssssssssssss” e quando ele tirou a faca ela tava com uma mancha feia na lâmina e o dedo do cara tava cauterizado.
— Caralho, que maníaco. Pra que isso, velho?!
— Ele pôs a faca na mesa, Mac, e pegou o dedo médio cortado. Virou ele na mão de um lado pro outro e sabe o que aquele psicopata fez? Ele mordeu a ponta do dedo, Mac! Arrancou a unha e a ponta da falangeta com uma mordida, como quem morde um maldito charuto! E você sabe o que ele fez?! Ele segurou o dedo entre os dentes com as digitais pra cima praquela merda não dobrar! Ele segurou o dedo em riste na boca. Pegou meu isqueiro e começou a queimar a falange! Deixou o isqueiro aberto queimando aquela pele fresca e começou a tragar o dedo como se fosse um maldito Havano!
— Catso!
— Ele chupava o dedo ficando cada vez mais irado e bufava mais que a besta cigana. E o dedo começou a crepitar na chama do isqueiro. A pele começou a soltar uma fumaça de cheiro horrível e o sangue coagulava cada vez mais depressa, mas a ponta tava queimando mais e mais forte.
— Meu deus.
— Quando parecia que ele ia explodir de cólera ele deu uma tragada com toda a força que tinha, apertando os olhos, e encolheu os ombros de satisfação. Ele segurou o dedo entre os dedos... caralho, ele fez mesmo isso... soltou uma baforada de fumaça rubra pra cima e arreganhou os dentes sujos de sangue pra mim como um maldito cachorro com raiva. Eu me levantei rápido da cadeira. Derrubei ela com a adrenalina. Ele olhou pra mim por uns segundos, segurou o dedo entre os dentes de novo, jogou meu isqueiro perto do meu copo na mesa e saiu pela porta do bar, fumando o dedo. Ele esqueceu a faca na mesa. Eu olhei pro balcão e o dono não estava lá. Olhei pra mesa e vi meu cigarro apagado e eu nem lembrava mais quando ele caiu da minha boca. Aquele foi meu último Marlboro. Eu o deixei lá junto com a faca, a garrafa e o copo de cerveja. Peguei meu isqueiro e saí, esquecido da cara velha do taberneiro. Saí daquele lugar tremendo, sem olhar pra trás. Acho que nunca andei tão rápido em toda a minha vida.
Mac olhou para Joe um bom tempo ainda depois que este parou de falar. Seu cigarro pendia de sua boca ainda aceso, metade dele cinzas que teimavam em não cair. Ele deu uma última tragada no cigarro e o segurou com os dedos, apontando-o para Joe:
— Aquele psicopata devia ter fumado o SEU dedo, Joe. Aí você ia aprender a me ouvir.
— Eu acho que sou sortudo, não?
— Você é um filho da puta, Joe. Você é um filho da puta.
Joe concordou com a cabeça e Mac apagou seu cigarro no cinzeiro com o rosto assombrado. Seria seu último Pall Mall.

-

Ateu, anarquista, contraculturista, polemista e marginalista, acho que sou tudo o que o Hippies & Beatniks preza e que os conservadores desprezam. Sendo antigamente um poeta hiperinspirado e atualmente um estudioso de história da religião, não vou mostrar nenhuma dessas fases no momento. Separei uma série de quatro contos sobre o cotidiano fantástico que pretendo postar aqui no blog como um portfólio para não chocar tão depressa os desavisados. E esse foi um deles.

Espero que tenham gostado e muito obrigado pela atenção dos que leram até este ponto.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

resposta a um verso clichê

"te busco em outros corpos", você diz,
achando que isso é um elogio monstruoso
e que eu deveria me sentir lisonjeada
por você pegar essas putas
procurando o que tinha comigo."te busco em outros corpos", você diz,
achando que isso é um elogio monstruoso
e que eu deveria me sentir lisonjeada
por você pegar essas putas
procurando o que tinha comigo.

é estúpido da sua parte vir me dizer isso
depois de ter ficado com os ovos vazios
traindo a si mesmo
no plural desses corpos

seu reto conhece bem a matéria de que seus poemas são feitos.
corte a jugular antes de me mandar outra porcaria dessas
pelo menos assim você me poupa o tempo
de te mandar morrer de novo
seu filho de uma puta.

é estúpido da sua parte vir me dizer isso
depois de ter ficado com os ovos vazios
traindo a si mesmo
no plural desses corpos

seu reto conhece bem a matéria de que seus poemas são feitos.
corte a jugular antes de me mandar outra porcaria dessas
pelo menos assim você me poupa o tempo
de te mandar morrer de novo
seu filho de uma puta.
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‎"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."
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