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domingo, julho 22, 2012

a breve morte do sono



PERSONAGENS 
 
Hipnos: personificação do sono. 

Thanatos: personificação da morte.


CENOGRAFIA

O Tártaro Nevoento, morada dos filhos da Noite e prisão dos seres odiados pelos deuses. Mais profundo que o próprio Hades. 


A BREVE MORTE DO SONO

“Nove noites e dias uma bigorna de bronze cai do céu e só no décimo atinge a terra. E nove noites e dias uma bigorna de bronze cai da terra e só no décimo atinge o Tártaro.” – Hesíodo.

*CLANG!* 

HIPNOS
AAAAAAAAAARRRRRRHHHHHH! Eu não ACREDITO!

THANATOS
Caralho, irmão, o que aconteceu?

HIPNOS
Guarda o que estou te dizendo, Thanatos! GUARDA O QUE ESTOU DIZENDO! Se mais um filho de bacante jogar uma bigorna de bronze lá de cima só pra se divertir... se acontecer MAIS UMA VEZ! Eu juro que ninguém mais vai dormir por cinqüenta gerações!

THANATOS
Mas Hipnos, isto criaria uma raça que não duraria sequer 20 anos.

HIPNOS
Eles duram o quanto você quiser!

THANATOS
Você sabe que isso não é verdade, irmão. Tudo depende do que Cloto fia, Láquesis desenrola e Átropos corta.

HIPNOS
Só depende delas o destino dos humanos! 

THANATOS
Mas se a sua ira fosse cair sobre os humanos, as Parcas¹ já saberiam disso, com certeza! Acalme-se, irmão, afinal não é de você que os humanos têm medo, eles te adoram. Venha, levante-se, deixe-me ver esta cabeça.

Thanatos ajuda Hipnos a se levantar e tenta ver se a bigorna de bronze machucou seu irmão, o que sabia que não havia acontecido, mas com certeza o havia irritado.

HIPNOS
Você não sabe o quanto esses atos impensados dos humanos me enfurecem, Thanatos. Eu estou até com vontade de ir ao Hades para torturar algum de seus condenados. 

THANATOS
Por Zeus, Hipnos, você está mesmo perturbado. Você devia dormir um pouco...

HIPNOS
E VOCÊ DEVIA MORRER, THANATOS! CONSEGUIRIA FAZER ISSO CONSIGO MESMO?! EU NÃO POSSO DORMIR! 

THANATOS
Me desculpe, irmão. Me desculpe. Eu vou buscar uma coisa pra passar sua dor. 

HIPNOS
Céus...

Thanatos caminha para qualquer direção nas trevas, a fim de se distanciar de onde o irmão estava flutuando. Toma em suas mãos um pedaço de rocha negra e o lapida com os dedos fortes, de modo que se tornasse um recipiente. Dentro dele condensa um pouco de água das nuvens tempestuosas ao seu redor e, friccionando as mãos por bastante tempo, faz com que um pó fino e escuro se solte de sua pele e caia no copo, fazendo a mistura vaporar sem ferver.

THANATOS
Aqui, Hipnos, beba isto. Você vai se sentir melhor.

HIPNOS
Obrigado, irmão.

Hipnos sorve a bebida aos poucos, pois apesar de insípida, ela era densa e difícil de tragar. Um segundo depois, o copo de rocha cai das mãos de Hipnos, que estava desacordado, mas ainda respirava. Tranqüilo, como os humanos o gostavam de ter. Durante nove dias e noites o Sono provou aquela migalha de morte que os humanos experimentam todas as noites, necessária para deixar preocupações e rancores esquecidos no Tártaro. Durante nove dias e noites os bares não fecharam, pois o balconista não estava com sono, as prostitutas não estavam com sono e nem mesmo quem havia entornado vinte litros de vinho sozinho estava com sono. Mais velas foram gastas e parte da produção das fazendas se perdeu, pois os trabalhadores estavam exaustos pela falta de descanso. Ficavam na cama com as pernas moles e, sem conseguir dormir, olhavam para o teto e redescobriam o que é pensar. E foi assim com todas as pessoas, pois até os bebuns tiveram que cair em algum momento. Os filósofos, os poetas, os atores, todos tiveram alguma inspiração brilhante depois do quarto ou quinto dia e os homens comuns se tornaram tristes com tanto tempo para lembranças e formulações. As crianças romperam as portas das casas na oitava noite, loucas em sua hiperatividade ferina e a fila à frente do oráculo de Delfos nunca fora tão magnífica.

THANATOS
Bom dia, Hipnos. Como foi seu primeiro sono?

HIPNOS
Irmão... eu vi o nascimento da nossa mãe...

THANATOS
É isso que eles chamam de sonho, irmão, mas não é você que provoca isso, é o Morpheus². Não o vi passando por aqui...

HIPNOS
Céus...

Tudo se normalizou aos poucos depois que Hipnos acordou, mas este trecho da história humana se tornou um dos mais interessantes da tapeçaria das Parcas. O oráculo disse a um mendigo qual era o motivo de sua falta de sono e este passou todos os dias de insônia amaldiçoando os homens na praça por fazerem com que ele perdesse o único momento do dia em que podia esquecer sua miséria. E mortal algum jamais lançou uma bigorna de bronze ao Tártaro novamente.

                                                                                                                                                                       
1- Parcas: divindades gregas que punham e dispunham do destino e da vida dos humanos.
2- Morpheus: personificação do Sonho.

terça-feira, julho 17, 2012

Valquíria


“Pois é, menina, seu marido anda olhando pra bunda de tudo quanto é mulher no escritório. Ele é um safado mau caráter! Você devia era dar um jeito nele!”

Aumentando cada detalhe, como era de se esperar de uma fofoqueira, Marcinha conta tudo o que o marido de Valquíria andou fazendo longe do alcance de seus olhos. Ela ouve o discurso emocionado da amiga com interesse, mas demonstra pouca surpresa ou indignação diante dos fatos apresentados. Quando o falatório acaba, Marcinha se despede e deixa Valquíria sentada em sua poltrona carmesim olhando para a porta sendo fechada. Ela ouve os passos da vizinha atravessando o quintal e passando pelo portão em direção à calçada, conta 37 passos em direção à casa ao lado até ouvir a porta sendo fechada ao longe e uma chave dando duas voltas, trancando a cobra em seu buraco. Descansa a cabeça no encosto da poltrona e vê seu gato, Shuster, ronronando baixinho, olhando para dentro dos seus olhos verdes, como quem pergunta qual é o próximo passo. Ela o chama, e ele sobe em uma de suas coxas de costas para a dona e ambos ficam olhando para a porta da sala de estar, esperando.

Pierre voltava para casa em seu Rolls-Royce, fumando seu havano, no trânsito que seu dinheiro não conseguia fazer desaparecer da sua frente. Olhava para a calçada distraído, soltando fumaça pelas ventas, avistando aqui e ali uma cocotte da qual tentava descobrir a marca do absorvente apenas olhando para suas ancas. Entrou em uma avenida menos movimentada e, poucas esquinas depois, apertou o botão de um controle que abriu os portões de sua casa em uma vizinhança burguesa. Saiu pelo mesmo portão que entrou e cruzou o quintal e o jardim bem cuidado para entrar pela porta da frente em seu reino.

Valquíria ouviu ao longe o som do velho leão cruzando o asfalto, voltando para sua caverna. O rugido que antes se aproximava depressa, com urgência de chegar em casa logo e se esconder do mundo, agora se aproximava cada dia mais devagar, vadio, sem pressa de perder a luz de fora da gruta. Ouviu um pequeno "bip" e o portão se abrindo, e sentiu o leão entrando na garagem e deixando lá sua pele. Contou os passos lentos cruzando o quintal e percebeu que foram muitos mais do que os necessários. Notou que ele havia voltado até o portão e parado um momento para só depois seguir uma linha reta até a porta de casa e abri-la devagar, tendo um leve sobressalto ao notar sua mulher sentada na poltrona da sala escura.

— Oi, amor.
— Olá.
— Tá tudo bem?
— Sim.
— Hum.

Nesse momento Valquíria alisou a orelha esquerda de Shuster e ambos olharam fixamente para Pierre. Este, por sua vez, sentiu que o ambiente não estava muito bom e subiu as escadas em direção ao quarto. Tirou sua roupa, jogou-a no chão e sentou-se em sua cama king size, sentindo sua cabeça latejar. Entrou no banheiro e urinou com muita dificuldade, ligou o chuveiro e o deixou esquentar até que o box estivesse cheio de vapor e entrou no banho. Ensaboou os braços, o peito, a barriga e quando foi em direção à virilha o sabonete escorregou de sua mão. Ele se abaixou irritado procurando o sabonete ao redor dos pés e notou seu membro caído no chão.

Valquíria não se levantou da poltrona um segundo e ainda alisava Shuster quando ouviu acima de sua cabeça o som de algo caindo no chão molhado.

Pierre recolheu seu membro e o observou curioso. Colocou-o sobre a saboneteira, achou o sabonete no chão e continuou tomando seu banho.

Valquíria sorriu.

Pierre terminou seu banho, secou-se e desceu as escadas enrolado na toalha segurando seu pênis. Avistou Valquíria sorrindo e disse-lhe:

— Olha, amor, meu pau caiu.

Shuster pulou do colo de sua dona e ela se levantou sorridente:

— Interessante, querido. Vou pedir para Otsu servir nosso jantar.
— Quero ver o que essa bruxa velha preparou hoje.
— Não seja grosseiro, Pierre.

Otsu era uma senhora de traços orientais muito distintos e trejeitos de uma matriarca rígida. Entendia tudo sobre misturas de ingredientes para alcançar os fins desejados. Era a única cozinheira da casa, sendo vez ou outra, a contragosto, auxiliada pelos outros empregados. Preferia trabalhar sozinha.

— Onde está a comida, Otsu?! - resmungou Pierre.
— Está a caminho, seu cão resmungão! - respondeu Otsu.
— Ora, sua cadela idosa - disse Pierre se levantando e segurando a toalha para que não caísse.
— Pierre! - gritou Valquíria, o mandando sentar - Não liga para ele, Otsu, ele está nervoso porque perdeu o membro.
— Ora! Esse homem faz drama por qualquer coisinha! - disse Otsu, servindo a mesa desinteressada.
— Pra mim chega, eu vou subir. - disse Pierre. Pegou o prato de comida e saiu da cozinha, deixando a toalha no caminho e o pênis sobre a mesa.

Valquíria o seguiu e quando entrou no quarto viu Pierre sentado na cama com o prato de comida intocado no criado mudo, sentou-se ao lado dele e perguntou com voz amena:

— Querido, o que você tem?
— Nada... só não quero ficar ouvindo ofensas de ninguém.
— Mas você sempre respondeu a Otsu a altura.
— Não consegui pensar em nada.
— Você tá bem?
— Não... acho que tive um dia ruim no trabalho.
— Ô, meu amor, não fica assim.

Valquíria abraçou Pierre e o sentiu frio. Pegou o membro que tinha trazido da cozinha e o esticou com as mãos, o deixando teso, tocou o baixo-ventre nu de Pierre e pôs o seu orgulho no lugar. Ele esticou a coluna e se manteve ereto como sempre ficava. Beijou Valquíria e a deitou na cama, despindo-a, beijou seu corpo todo e a amou com o mesmo ânimo de quando eram jovens. Valquíria se sentiu bem por perceber como o marido a amava quando tinha o desejo acumulado. O plano ia bem.

No dia seguinte Pierre acordou pela manhã e rolou para fora da cama, esquecendo seu membro enrolado nas cobertas junto de Valquíria. Ele não deu mais pela falta do falo perdido. Foi ao banheiro, olhou para o rosto que amanheceu com menos barba do que o comum e não se deu o trabalho de apará-la, sentou-se no vaso sanitário e mijou como uma mulher, sem pensar muito no assunto. Tomou banho, vestiu o terno e foi para o trabalho sem falar com ninguém da casa. Ninguém o notou passando.

Valquíria acordou às 9:30 da manhã e se espreguiçou na cama sem abrir os olhos. Esticando um dos braços, sentiu a pele do marido tocar sua mão e ficou feliz com a ideia de ele ter faltado ao trabalho e ainda estar na cama com ela àquela hora. Virou o corpo para o lado dele na cama, e viu que ele não estava lá, mas seu membro esticado estava na palma de sua mão fechada. Olhou para o órgão lembrando-se do que havia feito e levou-o consigo até o banheiro. Olhou para o cabelo bagunçado no espelho e sentou-se no vaso que estava com o assento abaixado, o que foi estranho porque Pierre era do tipo raro que levanta a tampa do vaso para mijar. Levantou-se adivinhando o que havia acontecido, tirou a camisola e entrou no box do banheiro. Lavou o corpo todo e pegou o mastro que estava repousando sobre a pia do banheiro para lavá-lo também, pois o marido era muito cuidadoso com isso. Saiu do banheiro com a toalha enrolada no corpo e deixou a lembrança do marido sobre o criado mudo.

Pierre estava no escritório e, por trás da escrivaninha, viu sua secretária entrando pela porta. Camila era nova demais para a função de secretária do chefe de finanças, mas era benquista na empresa, e por Pierre.

— Bom dia, Camila.
— Bom dia, Pierre, como vai?
— Bem... bem... e você?
— Eu estou ótima, chefe. O senhor parece abatido. Precisa de alguma coisa?
— Acho que não, Camila. Acho que não. Me trás só um café, acho que acordei meio doente.
— Certo, chefe, em um minuto.

Camila se virou para sair e um documento caiu dos papéis que estava carregando. Ela se abaixou para pegar o documento e suas coxas cresceram sob a meia calça quando sua saia subiu. Olhou para trás sorrindo e viu Pierre concentrado na tela do notebook. Se recompôs e saiu pela porta, pensando que o chefe devia estar mesmo doente.

Valquíria se vestiu com roupas leves e se preparou para subir ao sótão, onde seu velho baú se cobria de poeira e fuligem. Subiu as escadas e viu o baú sob uma caixa de quinquilharias sem valor que logo pôs de lado para que pudesse abrir a sua arca preciosa, de onde saiu um brilho prateado que iluminou todos os vultos do cômodo escuro. As aranhas tremeram em suas teias e as mariposas revoaram por um pedaço quebrado na janela oval próxima ao teto. Seus casulos abertos e secos crepitavam sob o calor que emanava da arca. Valquíria tocou cada objeto fantástico que havia no baú com ternura, saudosa, mas o que ela buscava de verdade era a palha eterna que mantinha todos os seus bens em segurança, protegendo-os da visão dos não iniciados e os mantendo intocáveis ao Tempo.

Era costume de algumas bruxas criadoras de pintos acalentarem seus balangandãs em palha das Estinfálides, as aves mais singulares que os gregos tiveram chance de apreciar, mas que, exatamente por sua singularidade, eram temidas e evitadas a todo custo: tinham asas, garras e bico de ferro e podiam disparar penas como setas. Elas viviam no lago Estinfalo e eram soberanas do local, dominando todo o bosque que cercava as águas. Nessa região da Acádia vivia uma feiticeira que conversava com aves e que não temia as Estinfálides. Ela ia ao lago buscar água todos os dias e assim conhecera o segredo de seus ninhos. A ave apanhava as hastes secas com suas garras, atirava quatro penas em um galho forte da árvore, ajeitava a palha com seu bico usando as penas como escoras e lufava o ninho com suas asas de ferro, checando se suporta sua revoada. Este ritual antigo e mágico dava ao ninho o poder de manter seus ovos frágeis intactos e imunes ao efeito do tempo. Só a temperatura exata de seus corpos de ferro era capaz de fazê-los chocar. A ave que não obtivesse sucesso nesse ritual estava fadada a não ter descendentes.

Certa tarde, a feiticeira sem nome foi pegar água e percebeu que quanto mais perto se aproximava do lago, mais escuro o céu ficava sobre as árvores. Imaginou que fossem nuvens de chuva, mas apurando um pouco mais a vista, percebeu que eram as Estinfálides voando todas juntas, coisa que raramente faziam, pelo risco de se machucarem. A feiticeira apressou o passo para perguntar a elas o que estava acontecendo, mas quando chegou bem perto do lago notou que havia algumas aves estendidas no chão entre as árvores. Correu até uma delas e só conseguiu ouvir, “a pele dele é muito grossa... nossas penas... são inúteis...”. A mulher fechou os olhos da ave morta e correu para ver que monstro era este que estava matando suas amigas. Na beira oposta do lago, viu uma figura do tamanho de um homem, com cabeça e pele de leão. Vendo mais atentamente, percebeu que era um homem muito forte, que vestia a pele de um leão morto como se fosse um capuz e atirava flechas para o ar com um arco enorme. Cada flecha que lançava acertava uma das aves, que caia com estrondo na água do lago ou no chão do bosque. A revoada das aves gigantescas cobriu o sol e foi como se uma tempestade de ferro se fechasse sobre o homem, mas a cada rajada de penas ele respondia com uma flecha que era fatal. Havia muitas penas afiadas fincadas em seus braços, mas qualquer parte vital do seu corpo estava coberta pelo manto de pele que parecia ser impenetrável. A feiticeira preparou um malefício e tentou lançá-lo contra o homem, mas ele parecia imune até a magia. Era noite quando o homem conseguiu trespassar a última Estinfálide com uma flecha envenenada, cobrindo as clareiras do bosque de cinza. A feiticeira chorou a morte das amigas até amanhecer e, desta vez, não se via mais as belas sombras que as aves lançavam ao chão quando cobriam a luz do sol com seus corpos magníficos.

Ela subiu em cada uma das árvores com a ajuda dos Silfos e pegou todos os ovos que conseguiu encontrar. Removeu também a palha eterna de todos os ninhos das Estinfálides e levou-a para sua casa no bosque. Tentou alquimizar toda sorte de metais para cobrir os ovos e chocá-los, mas nada se comparava ao ferro do corpo das aves. A feiticeira não conseguiu dar vida aos herdeiros de suas amigas e as aves do lago Estinfalo se tornaram uma lenda. A feiticeira forrou todas as paredes da sua casa com a palha eterna e viveu dezenas de anos que sua juventude e sua magia não viram passar. Viu nascer suas netas e as netas de suas netas, e sempre contava a elas a lenda do lago, o qual nunca deixou de visitar. Acontece que toda vez que ia buscar água e prestar homenagem o tempo caia sobre ela, impiedoso, e as horas que ela passava no lago, somadas, fizeram com que ela envelhecesse pouco a pouco depois de algumas centenas de anos. Quando a feiticeira se viu doente e velha demais até para ir ao lago sem ajuda de alguma outra bruxa, chamou suas descendentes mais jovens e contou a elas o segredo de sua longevidade, legando a elas o dever de repassá-lo para as gerações seguintes. Pediu para ser levada até o lago e passou lá seu último dia de vida, esperando o sol se pôr e lembrando cada detalhe do massacre de suas amigas. Morreu ao cair da noite e foi lançada ao rio em cujo fundo repousava o ferro de garras, bicos e penas das maiores aves que já tocaram o ar.

Quanto às bruxas, elas dividiram a palha eterna entre si e se dispersaram mundo afora. Sem disputas. Sem luta para ter toda a palha e manter sua juventude por séculos. Nenhuma bruxa estava disposta a ficar presa em um cubículo cercado de hastes secas para se manter viva mais que o necessário. Elas queriam apenas viver, e cada bruxa tinha suas preferências de como gozar a vida. Mas toda bruxa, em verdade, tinha consigo um baú forrado de palha eterna onde guardava os seus objetos e ingredientes mais secretos. Valquíria fechou o baú depois de apanhar um punhado de palha e limpou uma lágrima que escorreu pelo seu rosto quando se lembrou da história que sua mãe havia lhe contado muitos anos atrás.

Pierre continuou estranhamente quieto no trabalho. Quando entrou em seu Rolls-Royce ao final do dia, não havia orgulho em seu semblante e ele dirigiu para casa sem olhar muito para os lados. O motor do carro parecia triste quando Pierre estacionou na garagem de casa. Ele subiu as escadas sem chamar atenção dos empregados e Valquíria se assustou quando ele abriu a porta do quarto, pois ela não havia sentido sua presença.

— Oi, querido, como foi o trabalho?
— Tranquilo, eu diria.
— Tira esse terno, deixa eu te dar um banho. – disse Valquíria sorrindo, e ajudou o marido a se despir.

Ela tirou a própria roupa também e seguiu o marido, que já havia ligado o chuveiro e entrado no box, sem esperar a água esquentar. Valquíria esperou o vapor levantar-se para que Pierre não notasse o que ela trazia nas mãos, e quando ele sentiu seu membro teso restituído, tomou a mulher em seus braços e levantando uma de suas coxas, a penetrou com luxúria, dizendo tudo que Valquíria sempre rogou ouvir. Na cama, com os corpos molhados, eles trocaram carícias até a madrugada, e o jantar se foi, esquecido, e quando Pierre finalmente dormiu, Valquíria ficou receosa em remover o membro do marido de novo, e o ninho de palha sobre o criado mudo ficou vazio até o banho da manhã seguinte.

Os dias seguiram-se assim, com Pierre manso durante o dia e ferino durante a noite, e tudo parecia caminhar bem, até que Valquíria chegou à semana do mês em que seu corpo produzia um dos mais poderosos ingredientes de feitiçaria do mundo, o mênstruo. Ela decidiu que não reporia o membro de Pierre até que esses dias acabassem, pois ele havia se tornado um amante insaciável, e ela não queria decepcioná-lo recusando sua carne quando ele a pedisse. Durante seis dias Pierre chegou do trabalho, jantou e assistiu TV até pegar no sono. Valquíria não disse nada, pois sabia que o marido só estava fazendo isso porque não tinha mais um pau entre as pernas. Ele nunca havia ligado para televisão afinal. Então ela esperou pacientemente, tendo Shuster por companhia.

Ao fim do sétimo dia, Valquíria estava magnificamente sexy com suas meias arrastão, cinta-liga e rendas, esperando o marido chegar do trabalho para surpreendê-lo. Seu corpo estava coberto por perfume de lírios e seus olhos faiscavam de desejo. Pierre entrou no quarto e foi direto para o banheiro sem se despir e sem notar a mulher incrível deitada em sua cama. Valquíria não se chocou com isso e, despertando cuidadosamente o pinto que repousava no ninho, o levou para o banheiro e entrou no box beijando o marido e restituindo seu ego.

Pierre gritou de forma assustadora, primeiro por dor, e depois por desejo. Tomou Valquíria nos braços com força desmedida e mordeu sua boca em um beijo violento. Apertou um dos seios da mulher com fúria e com a outra mão arranhou suas costas, deixando cinco fios de sangue correndo sob a água quente. Seus músculos se contraiam e relaxavam como se houvesse um coração sob cada ligamento. Valquíria ficou horrorizada ao ver o membro do marido inchado e sólido, seus nervos pulsavam como se fossem explodir. Ele agarrou seus cabelos puxando sua cabeça para baixo e a mulher fechou a boca machucada, mas um soco cruzado a fez abri-la e engolir o órgão com repulsa só para depois mordê-lo com toda a força que sua mandíbula podia usar. Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, Pierre a lançou contra a parede molhada, e a penetrou com ódio, seu pênis sangrando dentro da mulher, seus olhos eram de um Íncubo faminto. Valquíria tentou se concentrar o máximo que podia sendo violada, e fechando sua concha em uma contração violenta, conseguiu arrancar o membro do marido e o isolar de novo, fazendo Pierre cair inconsciente sobre a água vermelha que corria para o ralo.

Quando Pierre acordou na manhã seguinte se assustou com o horário e ficou aflito até se lembrar que era seu dia de folga. Percebeu que sua mulher não estava na cama e sentiu uma dor forte vinda do seu baixo-ventre e quando se levantou para ir mijar, percebeu que havia um curativo com unguento em torno do seu pênis e que ele devia estar bastante ferido. Ele não fazia ideia de como poderia ter se machucado tanto, e pensando melhor, percebeu que não se lembrava de nada que havia acontecido na última semana. Mijar doía horrores. Sem conseguir imaginar nenhuma resposta para isso tudo, ele desceu as escadas de pijama e foi descontar sua irritação da manhã em Otsu, a cozinheira. Ele jamais iria saber o que se passou.

Valquíria havia saído de casa antes de amanhecer. Depois de preparar o unguento e fazer o curativo no marido, ela preparou um feitiço simples para que ninguém pudesse ver as feridas de seu corpo, além dela mesma. Ela queria que as feridas fossem um lembrete para que nunca mais lançasse um malefício contra seu amante, logo elas sumiriam sem deixar cicatrizes. Valquíria sentiu medo, e decidiu não deixar o membro do marido longe de seu corpo nem mais um segundo. Queria o homem que amava de volta, e ele havia deixado de sê-lo há semanas, e Valquíria conhecia os culpados. Ainda havia um assunto a tratar antes de voltar à sua vida normal.

Valquíria saiu de casa de antes de amanhecer levando consigo seu gato. Caminhou até o prédio onde Pierre trabalhava e durante todo o percurso, recitava mentalmente um encantamento que seria eterno e atingiria muitas pessoas ao mesmo tempo. Ela entrou pela porta principal e se aproximou da recepção mantendo o passo firme, de modo que o porteiro não a impediu de acessar o prédio, mesmo sem crachá ou cartão-passe. Subiu o primeiro lance de escadas e caminhou pelo primeiro andar encarando todas as mulheres que avistava, enquanto alisava a cauda de Shuster, que se eriçava todo em seus braços. Subiu o segundo lance de escadas e fez o mesmo no segundo andar, e no terceiro, e em todos os outros 14 andares do prédio, pacientemente e com muito cuidado. Chegando ao 17º andar do prédio ela percebeu que neste só havia escritórios abandonados, chamou o elevador e desceu até o térreo para ir embora. Quando saiu do prédio falou baixinho para o gato, “Está feito, amigo. Obrigada.”, e antes que tivesse terminado de atravessar a rua o prédio todo estremeceu com um grito de horror feminino e Valquíria sorriu ao ouvir a prova de que todas as bundas das mulheres do prédio haviam murchado para sempre.

sexta-feira, julho 13, 2012

Lágrima Divina: Resenha de O Oitavo Pecado de Adriana Vargas


O Oitavo Pecado de Adriana Vargas
O Oitavo Pecado





O Oitavo Pecado é um romance forte, fortemente centrado em sentimentos e ambientado em cenários e temática fascinantes oriundos das mitologias cristã e grega.


Henaph, um anjo nascido puro e ignorante do mundo no ventre do deus pai, recebe uma tarefa importante ligada à guarda e manutenção do Jardim do Éden. Mas ao se deparar com outros seres que ali habitam, sua imprudência e ingenuidade se demonstram muito superiores à sua sabedoria. Pois devido à sua recente concepção, a personagem não tem nenhuma experiência e até mesmo coisas como o corpo masculino do deus Hermes se demonstra uma novidade. Ela apaixona-se perdidamente por ele, o que culmina na sua expulsão do Jardim do Éden e a perda de sua imortalidade. Agora, vivendo entre os homens, ela precisa tomar as decisões mais difíceis de sua existência e o maior dos desafios será atingir o autoconhecimento. 


O primeiro capítulo
Decidi dedicar uma parte da resenha somente ao primeiro capítulo pois devo confessar o quão fiquei impressionado com ele. O texto é denso, centrado na mente do anjo e com linda linguagem poética - descrição realmente digna do nascimento de um anjo. Nesse momento o leitor já é posto em contato com o ambiente místico do texto pois tudo se passa no interior da barriga do deus pai e trata-se do nascimento de Henaph. Essa característica é particularmente interessante pois os antigos gregos entendiam que a alma e a mente se encontravam no estômago. Esse é um capítulo belíssimo e se me permitem vou criar um termo e classificá-lo como "Alta Literatura".


A escrita
Como eu havia imaginado, do segundo capítulo em diante, a escrita se torna menos poética cedendo espaço para uma escrita levemente mais seca. O que faz com que as descrições de cenas se tornassem mais fáceis de se visualizar e também condiz com a condição de Henaph enquanto observadora do mundo, já que nesse ponto não estamos mais participando das primeiras impressões da mesma e sim partilhando de suas experimentações do universo ao redor. 
Os personagens divinos são bastante interessantes e distantes de pessoas comuns, mesmo que os deuses tenham as tais características que nos aproximam deles, ainda sim a autora trouxe uma visão completamente divina do modo com esses seres lidam com o seu destino, missões e tarefas. Além da relação entre eles, que é muito mais direta e sem meias-palavras. O que é bem diferente de quando se trata da relação entre os mortais, há uma clara diferença no modo de pensar, sentir, amar e temer entre essas duas classes. De modo geral, os deuses são menos passionais e mais disciplinados e submissos aos seus superiores, aceitando seus destinos com retidão e resiliência. Não posso deixar de ressaltar a maestria e domínio da autora com as palavras, introduzindo conceitos incomuns e maneiras diferentes de dizer e descrever as passagens, recomendo a leitura do livro até mesmo com uma intenção didática afim de aprender e "sugar" um pouco do poder de descrição da escritora, que aliás, fica clara a intensa pesquisa realizada antes de executar o projeto.

As lágrimas
Como eu havia mencionado, o texto é todo em primeira pessoa, contada por Henaph, e carregada de suas impressões. É uma personagem realmente intensa e há menções à suas aflições em boa parte da estória. Pois o livro trata disso, da luta de Henaph para se conhecer e domar seu coração(estômago para os antigos) durante sua sina rumo à perfeição. Talvez isso tenha feito o texto parecer um pouco arrastado em algumas passagens, mas em minha opinião isso não prejudica em nada, inclusive fortalece o clímax do final trazendo uma marcante compreensão de tudo que se passou. A personagem é claramente imatura e inconsequente, e é justo o que é explorado de tal maneira a se tornar a espinha dorsal do livro. 

Os ambientes
O primeiro cenário é pasmem - a barriga do deus pai. Que apesar das limitações óbvias do cenário é magnificamente bem aproveitado. Temos o Éden, a Ilha de Creta, castelos, interiores e uma miríade de locais que nos remetem ao passado lendário dos antigos gregos. A descrição é sucinta, o foco não é esse, mesmo em situações de combate não há minúcia na descrição dos ferimentos, tamanho do exército, aparência de algum animal, nada em grandes detalhes, o que vai com certeza agradar uma grande parcela de leitores e acredito, combine perfeitamente com a proposta da autora, pois, se diferente fosse, a estória correria o risco de perder o foco e o ritmo, o que não acontece em momento algum, o tom é o mesmo, do início ao fim.

Considerações Finais
Recomendo o livro a todos, pois ele tem diversos méritos como as descrições históricas, o romance, um determinado suspense quanto ao destino da personagem. Mas deixo um alerta aos leitores menos maleáveis, não se trata de um livro de ação, chego a enxergar um foco feminino em todo o texto, mas entendo que deixar de ler esse livro por conta disso será uma perda para o leitor. E sobre o livro em si, acredito que a editora pode investir melhor em acabamento nas próximas edições, não que ele tenha defeitos, mas poderia ter um acabamento muito melhor. Um texto tão maravilhoso merece todos os cuidados. Apesar disso, a diagramação é linda e as páginas e início de capítulos são decorados com figuras de asas e de anjos.



Adriana Vargas
Adriana Vargas

Sobre a autora: 
Formada em Direito pela UCDB; residente em Campo Grande – MS.
Adriana escreve desde os sete anos de idade. Teve participações com menções honrosas em diversos concursos literários. Autora das obras: O oitavo pecado, O voo da estirpe, O segredo de Eva, Borboletas na Primavera, Encontro de alma e Inocence, A Sociedade secreta. Coordenadora do Clube dos Novos Autores e Agente Literária da MODO Editora. Tem como meta, lutar pela ascensão literária no Brasil.






Siga a fanpage da autora para ficar por dentro das novidades: https://www.facebook.com/AdrianaVargasAguiar



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‎"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."
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