segunda-feira, julho 30, 2012

a doença da alma limitada



Eu estava deitado na minha cama, com minha menina já dormida ao meu lado, e pensava em injustiça. Inquieto demais para dormir, me levantei tentando fazer pouco barulho e fui até a cozinha pensando em escrever. Abri a geladeira para pegar uma garrafa de água e uma luz laranja e forte atraiu minha atenção, atravessando a janela de vidro. Abri a janela e vi uma pequena fogueira acesa, provavelmente queimando lixo e caixas velhas, fazendo uma enorme fumaça cinza subir, deixando as luzes dos postes nebulosas, mas não esmaecendo nem um pouco as luzes de natal das casas. E minha visão daquela cena me fez redobrar a confiança no texto que pretendia escrever. Peguei o notebook no quarto e o coloquei sobre a centrífuga que nós deixamos sob a janela, puxei uma cadeira da mesa de jantar e me sentei para apresentar para vocês mais um espetáculo da autoridade débil mental.

A DOENÇA DA ALMA LIMITADA  

As cortinas se abrem, entram em cena dois doutores da igreja, Kramer e Sprenger, este com um grande volume de papel sob o braço esquerdo. É uma encomenda, feita pelo papa Inocêncio XIII anos antes. Nele estão listadas todas as maneiras de identificar uma feiticeira, todos os malefícios que ela pode causar a um homem, e todos os meios de fazê-la sofrer pelos seus pecados contra a Santa Igreja Católica. O papa o folheia com interesse, ainda desconhecendo o conteúdo do livro, mas tendo certeza de que seria maravilhoso à Santa Inquisição ter um forte seguro onde se basear. Pega uma pena e, à mão, escreve uma bula certificando cada palavra escrita no Malleus Maleficarum como verdade e reiterando o fato de que quem fosse contra tal obra seria considerado herege e julgado como tal. A Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia o elogia prontamente como um marco para a fé e um inquisidor que o tivesse nas mãos se tornava um homem com poder sobre qualquer pessoa com quem ele não simpatizasse, pois você não precisava exatamente ser pego em um ato de heresia para ser condenado à morte. Os métodos de tortura da inquisição fariam qualquer jovem de 17 anos confessar que beijou o cu de Satanás.

"Nesse momento eu olhei para trás com medo do escuro às minhas costas. Fui até o quarto para ver se minha menina estava bem e voltei para a cozinha. Um catador de lixo surgiu de alguma esquina e está alimentando o fogo com madeira velha das barracas da feira. O fogo cresceu e o barulho de garrafas de vidro estourando nas chamas me fizeram perder a concentração, mas voltemos às fogueiras santas. O que vou lhes descrever a seguir são cenas de horror terríveis, mas nenhuma delas é ficção. Minha mente não é tão perversa quanto as dos doutores da igreja. Eu não conseguiria inventar tais aberrações." 

Kramer e Sprenger saem do palco, as cortinas se fecham por um minuto inteiro e, quando se abrem, mostram uma dúzia de homens vestidos com mantos brancos presos à cintura por cordas rústicas banhadas em ouro. A platéia fica apreensiva. O terceiro homem da direita pra esquerda desce do palco e vai em direção às galerias do teatro, onde os pobres se ajeitam para assistir a tragédia. Se demora olhando para uma mulher de meia idade que o encara com desprezo. O inquisidor olha para o resto da platéia e grita:

— Esta mulher tem um caldeirão grande demais para uma simples sopa! Só Deus sabe o que ela anda fervendo nesse recipiente nefando! Pode o filho de vocês ter sido cozido ontem por essa mulher malévola! Ela alimenta-se de sua carne e com o tutano de seus ossos faz a pomada voadora, com a qual unta as vassouras e esfregões nos quais ela pode voar sobre suas casas! Assim diz o Martelo das Feiticeiras, assim o crê o fiel católico!

As outras galerias e toda a platéia das primeiras filas treme diante de tal verdade e o "amém" sai seco de suas bocas. O inquisidor arrasta a mulher para o teatro com violência, o chão do palco se abre e um caldeirão gigantesco surge do buraco, subindo lentamente à medida que os dois se aproximam dele. Uma chama faz ferver o azeite dentro do caldeirão. O homem ata os braços e as pernas da mulher e com a ajuda de outro homem, sobe uma pequena escada que leva à boca do diabo, puxa a corda presa ao teto do palco, suspende a mulher sobre o caldeirão e pergunta:

— Você confessa que devorou os filhos ainda não batizados dos nossos irmãos? 

— Não! Por favor... AAAAAAAAAARHHHHHHHHH!

A platéia toda suga o ar entre os dentes "sssssss". As mulheres fecham os olhos horrorizadas. Os amigos da mulher se desesperam em agonia, e o irmão desamparado chora a dor mais forte já sentida. A mulher é levantada do azeite. A pele de suas pernas totalmente queimada. Ela olha para o teto do palco, olha além do topo do mundo, e pergunta em segredo ao seu Deus onde está a piedade dos homens santos. Os outros 10 inquisidores não olham para o caldeirão. Eles mantêm os olhos fixos na platéia, observando sentimentos exacerbados de pena em relação a uma feiticeira. Heresia é um pecado contra o divino espírito santo e contra o filho de Deus, e só o que a igreja quer é purificar essas almas pecadoras para que alcancem a salvação diante do Pai. As lágrimas, as feridas e as dores que os hereges sentem ali no palco duram algumas horas, talvez dias, e são libertadoras, mas a tortura e a agonia do inferno são eternas e de lá não se pode escapar. "Nós somos o bem!", grita a santa igreja católica, e toda mulher e homem têm que aceitar isso como verdade sob ameaça de tortura por heresia.

O outro inquisidor se manifesta:

— Você ouviu a pergunta, feiticeira, confesse seus crimes e seu sofrimento acaba. 

E a mulher delirante de dor diz:

— Eu não sou bruxa, eu não sou... AAAARHHHHAHAAAAAARRRRR! SOCORRO! ME TIREM DAQUI!

A corda que a suspendia no ar é solta, e o azeite cobre seu corpo todo até o pescoço, derretendo sua pele e cozinhando sua carne. Ela pára de gritar depois de alguns segundos. Os inquisidores puxam a corda e o corpo queimado faz alguns espectadores vomitarem. Alguns não conseguem conter o desespero. Outros sorriem a morte de uma pecadora suja, e há esperma de dois homens diferentes nos vãos de seus dentes. A morte de pessoas inocentes os mantém vivos. A mulher morreu com o choque de tanta dor cobrindo seu corpo. Os padres a desamarram e jogam-na em um canto do palco onde não há luz. O chão se abre novamente e engole o caldeirão. Um grande silêncio paira sobre os cabelos arrepiados. 

Ouve-se um baque e um grito de dor e todos se viram assustados para ver de onde veio o som. Um homem dentro de uma armadura enorme surge dos fundos do teatro arrastando um homem magro pelos cabelos. A platéia o segue com os olhos, virando o pescoço a medida que o guarda se aproxima do palco. Ele pára logo à frente da primeira fila e faz uma reverência ao superior mais próximo dizendo: 

— Este homem foi pego tentando deixar o teatro, Santíssimo.

— Obrigado, cavaleiro, nós vamos cuidar dele. - respondeu o inquisidor, erguendo o homem pelo colarinho e puxando-o para cima do palco.

Um dos padres sai da cena e volta empurrando uma mesa de madeira. Dois outros inquisidores o ajudam a preparar a mesa enquanto o que segura o prisioneiro se aproxima. Ele deita o homem magro na mesa de madeira, acorrenta suas mãos e prende cada uma de suas pernas entre chapas de madeira que as comprimem cruelmente. Uma voz estrondosa e assustadora vem do alto e brinca de ventriloquismo se escondendo nas bocas fechadas de cada padre.

— Nosso espetáculo não o agrada, senhor?

Um dos padres pega do chão uma marreta enorme, com a cabeça maior que seu antebraço, e o homem preso se desespera:

— Não me matem! Pelo amor de Deus, não me matem!

Ao que a voz gravitroante responde: 

— Ora, meu filho, você não morrerá esta noite, mas aprenderá uma lição valiosa: o que nós fazemos é para o bem de vocês. 

O algoz deixa a marreta cair sobre o joelho direito do homem, e seu grito de dor se sobrepõe à voz sem corpo. Um longo espasmo de agonia ecoa por todo o teatro e, quando retorna o silêncio assustado da platéia, a voz começa de novo, dessa vez saindo da boca do carrasco com o martelo. 

— Por em dúvida a verdade da Santa Igreja Católica e questionar as ações dos padres é um ato de heresia, é um crime contra Deus e a única pena adequada para tal vilania é a morte purificadora. Você estava tentando fugir do nosso meio, logo, deve achar que o que fazemos é cruel e desprezível, mas o que nós fazemos é libertar essas mulheres de suas vidas imundas e garantir a segurança de vocês. Você não acha isso válido?

— Vocês torturam as pessoas! Vocês arrancam a pele delas, esmagam seus seios, as queimam com ferro, as afogam com AAAAAAAAAARRRRGH-AAAAAARHHH!

— Resposta errada.

O desespero de ter o joelho esquerdo destruído pela marreta continha mais ódio que dor. Os rostos ao redor do homem na mesa eram impassíveis. Não havia mais nenhum traço de humanidade em suas faces velhas e duras. Nada poderia mudar suas convicções falidas. A voz voltou a falar, vinda do verdugo que segurava sua cabeça.

— Ir contra a vontade de Deus não leva a nada além de sofrimento, meu filho. Tudo o que nós fazemos é para o bem de vocês. Ser vítima das armadilhas de Satanás é comum entre as pessoas de alma torta, e assim como um ferreiro habilidoso faz um pedaço de ferro tosco se tornar uma espada magnífica nas mãos dos soldados, nós transformamos espíritos de luxúria em almas retas e integras usando nossas FOGUEIRAS, nossos ALICATES e nossas MARRETAS!

Dois golpes de marreta descem com toda a força e destroem os dois pés do homem deitado e respingos de sangue pobre sujam os trajes da primeira fila, que protesta em silêncio carrancudo. Os olhos do homem se tornam nascentes de água salgada, e sua mente se encolhe em si mesma, temendo um golpe direto no crânio. Os padres se retiram do local e as cortinas se fecham. O medo causa náuseas na platéia assustada, mas ninguém se levanta. Por duas horas inteiras as pessoas ficam sentadas olhando para as cortinas vermelhas e atrás delas o herege sangra, chora, agoniza, "pelo seu bem". Era um exemplo. As cortinas se abrem pouco depois da segunda hora e os padres começam a soltar o homem. Eles o tiram da madeira rubra e dois deles o apoiam nos ombros descendo do palco. Eles percorrem um dos corredores da platéia levando a sombra do que há algumas horas foi um questionador insensato. Suas pernas destruídas se arrastam pelo chão e o carpete ganha uma listra vermelha escura. Dois homens se levantam em uma das filas de poltronas e começam a seguir o padre, mas nenhum inquisidor do palco percebe o movimento, atarefados que estão fazendo preparativos. Os algozes do herege entram na galeria e jogam o corpo na direção dos pobres sentados ali, dão meia volta e se deparam com os dois homens que os seguiram parados no portal: 

— Chega de ópio, senhores. 

— Chega de cegueira.

Dois socos diretos derrubam os padres no chão ensanguentado. Abismados demais para se levantar, eles olham em direção ao herege e vêm o ódio estampado nos rostos de todas as mulheres e homens que o acolhiam e, sem apoio de nenhum lado, eles se apavoram. Lobos em fúria cercam os cordeiros de deus e os despedaçam com garras sólidas e bocas famintas, não com malefícios. Caçadores surgem das sombras e investem sobre os lobos com flechas e lanças, matam centenas, mas conseguem prender muitos deles vivos. Todos são hereges agora. Culpados sem grandes julgamentos, afinal atacaram agentes inquisidores - atacaram a igreja - atacaram Deus. Uma fila de mulheres e homens segue em direção ao palco, onde os cordeiros sedentos por vingança já preparam dezenas de postes erguidos sobre palha seca. A platéia que antes olhava aterrorizada para trás, ansiosa pelo sucesso dos lobos, agora estava cabisbaixa e direcionava seu olhar de pena ao chão, com medo de que os padres vissem o remorso que sentia pelos prisioneiros. Um a um, necromantes, feiticeiras, homossexuais, adúlteros, hereges, amantes do Diabo, confessos ou inconfessos, foram sendo acorrentados aos postes de madeira. Os doze inquisidores se organizaram com suas tochas para que todos os prisioneiros fossem queimados ao mesmo tempo. E o fogo das dezenas de fogueiras acesas se uniu em uma chama gigantesca que lambeu o teto do palco antes que ele pudesse ser aberto. O buraco sobre as chamas não foi suficiente para expulsar toda a fumaça, que se espalhou pelo teatro e pelas galerias. A fumaça entrando nos olhos das pessoas as fazia lacrimejar e assim elas puderam chorar de verdade, sem medo das lanças e flechas mirando suas cabeças. Ninguém tentou se levantar e lutar contra aquela injustiça, por mais que seus impulsos ordenassem isso. Ninguém queria alimentar as chamas, ou ser morto por um dos cavaleiros que cercavam a platéia, mas todos sentiam um remorso monstruoso devorando seus intestinos. Os atores não tinham razão, mas a platéia não tinha armas.

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