quarta-feira, agosto 01, 2012

Kaori e o Samurai Sem Braço

Não é de hoje que os vampiros da ficção fascinam o público, basta ver a quantidade de livros, filmes, quadrinhos e séries de TV produzidos com esses personagens. Entretanto, há de se convir que muitas dessas produções esbarram em clichês. Já há algum tempo, os vampiros mereciam uma abordagem diferente. E foi exatamente isso que a escritora Giulia Moon fez ao escrever o livro “Kaori e o Samurai Sem Braço” (200p, Giz Editorial, R$ 29,90), com lançamento previsto na Bienal para o dia 18 de agosto. Trata-se do terceiro volume da série de aventuras de sua vampira japonesa Kaori.
Desta vez, a história começa poucos dias após o terremoto que devastou o Japão em 2011. Kaori consola um amigo vampiro, japonês como ela, que sofre com as notícias do desastre. Para distraí-lo, a vampira conta-lhe uma aventura que viveu em 1782 no Japão da Era Tokugawa, quando um terremoto a levou a conhecer um samurai maneta, um exterminador de monstros.
A ideia de usar como mote o desastre no Japão surgiu com uma triste coincidência”, explica a autora. “A história original já começava com um terremoto. Então aconteceu o terremoto e o tsunami de 2011, e as cenas do desastre me marcaram profundamente. Por isso, incluí na história Takezo, o amigo de Kaori”.


A Giz Editorial resolveu destinar a entidades assistenciais de auxílio a vítimas de catástrofes semelhantes 2% dos lucros obtidos com a primeira impressão do livro.
O livro, recheado de citações da cultura japonesa, conta com ilustrações da própria autora, com colagens de padrões japoneses e desenhos a bico de pena.

TRECHO
“Kaori começou a correr, o pano providencial sobre o corpo. Teve o cuidado de deslocar-se mais devagar para que o samurai pudesse acompanhá-la. As passadas vigorosas de Kitarô soavam atrás de si. Ele era forte e corajoso. Depois de muito tempo, podia correr sem se preocupar em olhar para trás. Percebia, agora, por que a kitsune escolhera este mortal como seu senhor. Apesar de todos os defeitos, Kitarô trazia dentro de si uma força extraordinária, luminosa, que enchia de esperança os que sofriam com a dor, o abandono e o medo.”

SOBRE A AUTORA
Giulia Moon é escritora, ilustradora e editora. Já foi diretora de criação e sócia de agência de propaganda, tendo no seu currículo a criação dos personagens Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre da Marisol. Com várias coletâneas publicadas desde 2003, só em 2009 Giulia lançou o seu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira, pela Giz Editorial. Em 2011, dando prosseguimento à série, Giulia lançou Kaori 2: Coração de Vampira. E, em 2012, ela volta às livrarias com Kaori e o Samurai Sem Braço, o seu terceiro livro com a personagem.


SERVIÇO
Kaori e o Samurai Sem Braço Autora: Giulia Moon
Giz Editorial
Páginas: 200
Tamanho: 16 cm x 23 cm
Preço: R$29,90
Ilustrações de Giulia Moon
LANÇAMENTO
Data: 18 de agosto de 2012
Local: Estande da Giz Editorial (M-79)
Horário: 18h
Informações: (11) 3333-3059 
Mais informações para a imprensa:Simone Mateus
(11) 3333-3059
giz@gizeditorial.com.br

segunda-feira, julho 30, 2012

a doença da alma limitada



Eu estava deitado na minha cama, com minha menina já dormida ao meu lado, e pensava em injustiça. Inquieto demais para dormir, me levantei tentando fazer pouco barulho e fui até a cozinha pensando em escrever. Abri a geladeira para pegar uma garrafa de água e uma luz laranja e forte atraiu minha atenção, atravessando a janela de vidro. Abri a janela e vi uma pequena fogueira acesa, provavelmente queimando lixo e caixas velhas, fazendo uma enorme fumaça cinza subir, deixando as luzes dos postes nebulosas, mas não esmaecendo nem um pouco as luzes de natal das casas. E minha visão daquela cena me fez redobrar a confiança no texto que pretendia escrever. Peguei o notebook no quarto e o coloquei sobre a centrífuga que nós deixamos sob a janela, puxei uma cadeira da mesa de jantar e me sentei para apresentar para vocês mais um espetáculo da autoridade débil mental.

A DOENÇA DA ALMA LIMITADA  

As cortinas se abrem, entram em cena dois doutores da igreja, Kramer e Sprenger, este com um grande volume de papel sob o braço esquerdo. É uma encomenda, feita pelo papa Inocêncio XIII anos antes. Nele estão listadas todas as maneiras de identificar uma feiticeira, todos os malefícios que ela pode causar a um homem, e todos os meios de fazê-la sofrer pelos seus pecados contra a Santa Igreja Católica. O papa o folheia com interesse, ainda desconhecendo o conteúdo do livro, mas tendo certeza de que seria maravilhoso à Santa Inquisição ter um forte seguro onde se basear. Pega uma pena e, à mão, escreve uma bula certificando cada palavra escrita no Malleus Maleficarum como verdade e reiterando o fato de que quem fosse contra tal obra seria considerado herege e julgado como tal. A Faculdade de Teologia da Universidade de Colônia o elogia prontamente como um marco para a fé e um inquisidor que o tivesse nas mãos se tornava um homem com poder sobre qualquer pessoa com quem ele não simpatizasse, pois você não precisava exatamente ser pego em um ato de heresia para ser condenado à morte. Os métodos de tortura da inquisição fariam qualquer jovem de 17 anos confessar que beijou o cu de Satanás.

"Nesse momento eu olhei para trás com medo do escuro às minhas costas. Fui até o quarto para ver se minha menina estava bem e voltei para a cozinha. Um catador de lixo surgiu de alguma esquina e está alimentando o fogo com madeira velha das barracas da feira. O fogo cresceu e o barulho de garrafas de vidro estourando nas chamas me fizeram perder a concentração, mas voltemos às fogueiras santas. O que vou lhes descrever a seguir são cenas de horror terríveis, mas nenhuma delas é ficção. Minha mente não é tão perversa quanto as dos doutores da igreja. Eu não conseguiria inventar tais aberrações." 

Kramer e Sprenger saem do palco, as cortinas se fecham por um minuto inteiro e, quando se abrem, mostram uma dúzia de homens vestidos com mantos brancos presos à cintura por cordas rústicas banhadas em ouro. A platéia fica apreensiva. O terceiro homem da direita pra esquerda desce do palco e vai em direção às galerias do teatro, onde os pobres se ajeitam para assistir a tragédia. Se demora olhando para uma mulher de meia idade que o encara com desprezo. O inquisidor olha para o resto da platéia e grita:

— Esta mulher tem um caldeirão grande demais para uma simples sopa! Só Deus sabe o que ela anda fervendo nesse recipiente nefando! Pode o filho de vocês ter sido cozido ontem por essa mulher malévola! Ela alimenta-se de sua carne e com o tutano de seus ossos faz a pomada voadora, com a qual unta as vassouras e esfregões nos quais ela pode voar sobre suas casas! Assim diz o Martelo das Feiticeiras, assim o crê o fiel católico!

As outras galerias e toda a platéia das primeiras filas treme diante de tal verdade e o "amém" sai seco de suas bocas. O inquisidor arrasta a mulher para o teatro com violência, o chão do palco se abre e um caldeirão gigantesco surge do buraco, subindo lentamente à medida que os dois se aproximam dele. Uma chama faz ferver o azeite dentro do caldeirão. O homem ata os braços e as pernas da mulher e com a ajuda de outro homem, sobe uma pequena escada que leva à boca do diabo, puxa a corda presa ao teto do palco, suspende a mulher sobre o caldeirão e pergunta:

— Você confessa que devorou os filhos ainda não batizados dos nossos irmãos? 

— Não! Por favor... AAAAAAAAAARHHHHHHHHH!

A platéia toda suga o ar entre os dentes "sssssss". As mulheres fecham os olhos horrorizadas. Os amigos da mulher se desesperam em agonia, e o irmão desamparado chora a dor mais forte já sentida. A mulher é levantada do azeite. A pele de suas pernas totalmente queimada. Ela olha para o teto do palco, olha além do topo do mundo, e pergunta em segredo ao seu Deus onde está a piedade dos homens santos. Os outros 10 inquisidores não olham para o caldeirão. Eles mantêm os olhos fixos na platéia, observando sentimentos exacerbados de pena em relação a uma feiticeira. Heresia é um pecado contra o divino espírito santo e contra o filho de Deus, e só o que a igreja quer é purificar essas almas pecadoras para que alcancem a salvação diante do Pai. As lágrimas, as feridas e as dores que os hereges sentem ali no palco duram algumas horas, talvez dias, e são libertadoras, mas a tortura e a agonia do inferno são eternas e de lá não se pode escapar. "Nós somos o bem!", grita a santa igreja católica, e toda mulher e homem têm que aceitar isso como verdade sob ameaça de tortura por heresia.

O outro inquisidor se manifesta:

— Você ouviu a pergunta, feiticeira, confesse seus crimes e seu sofrimento acaba. 

E a mulher delirante de dor diz:

— Eu não sou bruxa, eu não sou... AAAARHHHHAHAAAAAARRRRR! SOCORRO! ME TIREM DAQUI!

A corda que a suspendia no ar é solta, e o azeite cobre seu corpo todo até o pescoço, derretendo sua pele e cozinhando sua carne. Ela pára de gritar depois de alguns segundos. Os inquisidores puxam a corda e o corpo queimado faz alguns espectadores vomitarem. Alguns não conseguem conter o desespero. Outros sorriem a morte de uma pecadora suja, e há esperma de dois homens diferentes nos vãos de seus dentes. A morte de pessoas inocentes os mantém vivos. A mulher morreu com o choque de tanta dor cobrindo seu corpo. Os padres a desamarram e jogam-na em um canto do palco onde não há luz. O chão se abre novamente e engole o caldeirão. Um grande silêncio paira sobre os cabelos arrepiados. 

Ouve-se um baque e um grito de dor e todos se viram assustados para ver de onde veio o som. Um homem dentro de uma armadura enorme surge dos fundos do teatro arrastando um homem magro pelos cabelos. A platéia o segue com os olhos, virando o pescoço a medida que o guarda se aproxima do palco. Ele pára logo à frente da primeira fila e faz uma reverência ao superior mais próximo dizendo: 

— Este homem foi pego tentando deixar o teatro, Santíssimo.

— Obrigado, cavaleiro, nós vamos cuidar dele. - respondeu o inquisidor, erguendo o homem pelo colarinho e puxando-o para cima do palco.

Um dos padres sai da cena e volta empurrando uma mesa de madeira. Dois outros inquisidores o ajudam a preparar a mesa enquanto o que segura o prisioneiro se aproxima. Ele deita o homem magro na mesa de madeira, acorrenta suas mãos e prende cada uma de suas pernas entre chapas de madeira que as comprimem cruelmente. Uma voz estrondosa e assustadora vem do alto e brinca de ventriloquismo se escondendo nas bocas fechadas de cada padre.

— Nosso espetáculo não o agrada, senhor?

Um dos padres pega do chão uma marreta enorme, com a cabeça maior que seu antebraço, e o homem preso se desespera:

— Não me matem! Pelo amor de Deus, não me matem!

Ao que a voz gravitroante responde: 

— Ora, meu filho, você não morrerá esta noite, mas aprenderá uma lição valiosa: o que nós fazemos é para o bem de vocês. 

O algoz deixa a marreta cair sobre o joelho direito do homem, e seu grito de dor se sobrepõe à voz sem corpo. Um longo espasmo de agonia ecoa por todo o teatro e, quando retorna o silêncio assustado da platéia, a voz começa de novo, dessa vez saindo da boca do carrasco com o martelo. 

— Por em dúvida a verdade da Santa Igreja Católica e questionar as ações dos padres é um ato de heresia, é um crime contra Deus e a única pena adequada para tal vilania é a morte purificadora. Você estava tentando fugir do nosso meio, logo, deve achar que o que fazemos é cruel e desprezível, mas o que nós fazemos é libertar essas mulheres de suas vidas imundas e garantir a segurança de vocês. Você não acha isso válido?

— Vocês torturam as pessoas! Vocês arrancam a pele delas, esmagam seus seios, as queimam com ferro, as afogam com AAAAAAAAAARRRRGH-AAAAAARHHH!

— Resposta errada.

O desespero de ter o joelho esquerdo destruído pela marreta continha mais ódio que dor. Os rostos ao redor do homem na mesa eram impassíveis. Não havia mais nenhum traço de humanidade em suas faces velhas e duras. Nada poderia mudar suas convicções falidas. A voz voltou a falar, vinda do verdugo que segurava sua cabeça.

— Ir contra a vontade de Deus não leva a nada além de sofrimento, meu filho. Tudo o que nós fazemos é para o bem de vocês. Ser vítima das armadilhas de Satanás é comum entre as pessoas de alma torta, e assim como um ferreiro habilidoso faz um pedaço de ferro tosco se tornar uma espada magnífica nas mãos dos soldados, nós transformamos espíritos de luxúria em almas retas e integras usando nossas FOGUEIRAS, nossos ALICATES e nossas MARRETAS!

Dois golpes de marreta descem com toda a força e destroem os dois pés do homem deitado e respingos de sangue pobre sujam os trajes da primeira fila, que protesta em silêncio carrancudo. Os olhos do homem se tornam nascentes de água salgada, e sua mente se encolhe em si mesma, temendo um golpe direto no crânio. Os padres se retiram do local e as cortinas se fecham. O medo causa náuseas na platéia assustada, mas ninguém se levanta. Por duas horas inteiras as pessoas ficam sentadas olhando para as cortinas vermelhas e atrás delas o herege sangra, chora, agoniza, "pelo seu bem". Era um exemplo. As cortinas se abrem pouco depois da segunda hora e os padres começam a soltar o homem. Eles o tiram da madeira rubra e dois deles o apoiam nos ombros descendo do palco. Eles percorrem um dos corredores da platéia levando a sombra do que há algumas horas foi um questionador insensato. Suas pernas destruídas se arrastam pelo chão e o carpete ganha uma listra vermelha escura. Dois homens se levantam em uma das filas de poltronas e começam a seguir o padre, mas nenhum inquisidor do palco percebe o movimento, atarefados que estão fazendo preparativos. Os algozes do herege entram na galeria e jogam o corpo na direção dos pobres sentados ali, dão meia volta e se deparam com os dois homens que os seguiram parados no portal: 

— Chega de ópio, senhores. 

— Chega de cegueira.

Dois socos diretos derrubam os padres no chão ensanguentado. Abismados demais para se levantar, eles olham em direção ao herege e vêm o ódio estampado nos rostos de todas as mulheres e homens que o acolhiam e, sem apoio de nenhum lado, eles se apavoram. Lobos em fúria cercam os cordeiros de deus e os despedaçam com garras sólidas e bocas famintas, não com malefícios. Caçadores surgem das sombras e investem sobre os lobos com flechas e lanças, matam centenas, mas conseguem prender muitos deles vivos. Todos são hereges agora. Culpados sem grandes julgamentos, afinal atacaram agentes inquisidores - atacaram a igreja - atacaram Deus. Uma fila de mulheres e homens segue em direção ao palco, onde os cordeiros sedentos por vingança já preparam dezenas de postes erguidos sobre palha seca. A platéia que antes olhava aterrorizada para trás, ansiosa pelo sucesso dos lobos, agora estava cabisbaixa e direcionava seu olhar de pena ao chão, com medo de que os padres vissem o remorso que sentia pelos prisioneiros. Um a um, necromantes, feiticeiras, homossexuais, adúlteros, hereges, amantes do Diabo, confessos ou inconfessos, foram sendo acorrentados aos postes de madeira. Os doze inquisidores se organizaram com suas tochas para que todos os prisioneiros fossem queimados ao mesmo tempo. E o fogo das dezenas de fogueiras acesas se uniu em uma chama gigantesca que lambeu o teto do palco antes que ele pudesse ser aberto. O buraco sobre as chamas não foi suficiente para expulsar toda a fumaça, que se espalhou pelo teatro e pelas galerias. A fumaça entrando nos olhos das pessoas as fazia lacrimejar e assim elas puderam chorar de verdade, sem medo das lanças e flechas mirando suas cabeças. Ninguém tentou se levantar e lutar contra aquela injustiça, por mais que seus impulsos ordenassem isso. Ninguém queria alimentar as chamas, ou ser morto por um dos cavaleiros que cercavam a platéia, mas todos sentiam um remorso monstruoso devorando seus intestinos. Os atores não tinham razão, mas a platéia não tinha armas.

sábado, julho 28, 2012

Entre dois lados


Abro os olhos no escuro da madrugada
apenas acho estranho mas ainda não tenho medo
estranho meu corpo e minha voz
com se eu não fosse eu
mãos invisíveis me tocam
muitas vozes estão na minha mente
minha visão fica diferente...

parece que um véu foi rasgado
e um outro mundo está me assediando
agora minhas sensações estão multiplicadas
ainda procuro uma explicação...

mãos que tocam minhas mãos
invisíveis...

quarta-feira, julho 25, 2012

Um Conto pro meu bem ou Que linha liga o teu coração ao meu?

Era feitiço. Belle-belle tinha certeza. Levou as mãos abaixo da garganta e lá estava. Um barbante do vagabundo saindo de seu peito. Ela puxou com força tentando arrebentar, mas cada vez que puxava mais nós se formavam. Tentou cortar com a tesoura, estilete, serra elétrica. Usou fogo, dente e maçarico. O troço estava agarrado ao coração. Puxou de novo formando dessa vez uma linha reta em busca de destino e o barbante respondeu.

Ela deu duas puxadinhas rápidas e o troço danou-se a arrancar seu órgão preferido. Belle-belle quase não se aguentou em pé. Os joelhos ficaram bambos, o músculo entrou em taquicardia, as orelhas começaram a suar.

Belle-belle correu assim tão laiá laiá. A pessoa do outro lado também estava morrendo. Era mandinga de amor.

Você pode encontrar mais contos fantásticos em www.hannysaraiva.wordpress.com

domingo, julho 22, 2012

a breve morte do sono



PERSONAGENS 
 
Hipnos: personificação do sono. 

Thanatos: personificação da morte.


CENOGRAFIA

O Tártaro Nevoento, morada dos filhos da Noite e prisão dos seres odiados pelos deuses. Mais profundo que o próprio Hades. 


A BREVE MORTE DO SONO

“Nove noites e dias uma bigorna de bronze cai do céu e só no décimo atinge a terra. E nove noites e dias uma bigorna de bronze cai da terra e só no décimo atinge o Tártaro.” – Hesíodo.

*CLANG!* 

HIPNOS
AAAAAAAAAARRRRRRHHHHHH! Eu não ACREDITO!

THANATOS
Caralho, irmão, o que aconteceu?

HIPNOS
Guarda o que estou te dizendo, Thanatos! GUARDA O QUE ESTOU DIZENDO! Se mais um filho de bacante jogar uma bigorna de bronze lá de cima só pra se divertir... se acontecer MAIS UMA VEZ! Eu juro que ninguém mais vai dormir por cinqüenta gerações!

THANATOS
Mas Hipnos, isto criaria uma raça que não duraria sequer 20 anos.

HIPNOS
Eles duram o quanto você quiser!

THANATOS
Você sabe que isso não é verdade, irmão. Tudo depende do que Cloto fia, Láquesis desenrola e Átropos corta.

HIPNOS
Só depende delas o destino dos humanos! 

THANATOS
Mas se a sua ira fosse cair sobre os humanos, as Parcas¹ já saberiam disso, com certeza! Acalme-se, irmão, afinal não é de você que os humanos têm medo, eles te adoram. Venha, levante-se, deixe-me ver esta cabeça.

Thanatos ajuda Hipnos a se levantar e tenta ver se a bigorna de bronze machucou seu irmão, o que sabia que não havia acontecido, mas com certeza o havia irritado.

HIPNOS
Você não sabe o quanto esses atos impensados dos humanos me enfurecem, Thanatos. Eu estou até com vontade de ir ao Hades para torturar algum de seus condenados. 

THANATOS
Por Zeus, Hipnos, você está mesmo perturbado. Você devia dormir um pouco...

HIPNOS
E VOCÊ DEVIA MORRER, THANATOS! CONSEGUIRIA FAZER ISSO CONSIGO MESMO?! EU NÃO POSSO DORMIR! 

THANATOS
Me desculpe, irmão. Me desculpe. Eu vou buscar uma coisa pra passar sua dor. 

HIPNOS
Céus...

Thanatos caminha para qualquer direção nas trevas, a fim de se distanciar de onde o irmão estava flutuando. Toma em suas mãos um pedaço de rocha negra e o lapida com os dedos fortes, de modo que se tornasse um recipiente. Dentro dele condensa um pouco de água das nuvens tempestuosas ao seu redor e, friccionando as mãos por bastante tempo, faz com que um pó fino e escuro se solte de sua pele e caia no copo, fazendo a mistura vaporar sem ferver.

THANATOS
Aqui, Hipnos, beba isto. Você vai se sentir melhor.

HIPNOS
Obrigado, irmão.

Hipnos sorve a bebida aos poucos, pois apesar de insípida, ela era densa e difícil de tragar. Um segundo depois, o copo de rocha cai das mãos de Hipnos, que estava desacordado, mas ainda respirava. Tranqüilo, como os humanos o gostavam de ter. Durante nove dias e noites o Sono provou aquela migalha de morte que os humanos experimentam todas as noites, necessária para deixar preocupações e rancores esquecidos no Tártaro. Durante nove dias e noites os bares não fecharam, pois o balconista não estava com sono, as prostitutas não estavam com sono e nem mesmo quem havia entornado vinte litros de vinho sozinho estava com sono. Mais velas foram gastas e parte da produção das fazendas se perdeu, pois os trabalhadores estavam exaustos pela falta de descanso. Ficavam na cama com as pernas moles e, sem conseguir dormir, olhavam para o teto e redescobriam o que é pensar. E foi assim com todas as pessoas, pois até os bebuns tiveram que cair em algum momento. Os filósofos, os poetas, os atores, todos tiveram alguma inspiração brilhante depois do quarto ou quinto dia e os homens comuns se tornaram tristes com tanto tempo para lembranças e formulações. As crianças romperam as portas das casas na oitava noite, loucas em sua hiperatividade ferina e a fila à frente do oráculo de Delfos nunca fora tão magnífica.

THANATOS
Bom dia, Hipnos. Como foi seu primeiro sono?

HIPNOS
Irmão... eu vi o nascimento da nossa mãe...

THANATOS
É isso que eles chamam de sonho, irmão, mas não é você que provoca isso, é o Morpheus². Não o vi passando por aqui...

HIPNOS
Céus...

Tudo se normalizou aos poucos depois que Hipnos acordou, mas este trecho da história humana se tornou um dos mais interessantes da tapeçaria das Parcas. O oráculo disse a um mendigo qual era o motivo de sua falta de sono e este passou todos os dias de insônia amaldiçoando os homens na praça por fazerem com que ele perdesse o único momento do dia em que podia esquecer sua miséria. E mortal algum jamais lançou uma bigorna de bronze ao Tártaro novamente.

                                                                                                                                                                       
1- Parcas: divindades gregas que punham e dispunham do destino e da vida dos humanos.
2- Morpheus: personificação do Sonho.

sábado, julho 21, 2012

Hino a Pã - Aleister Crowley - Tradução: Fernando Pessoa

    Vibra do cio subtil da luz, Meu homem e afã 
    Vem turbulento da noite a flux 
    De Pã! Iô Pã! Iô Pã! Iô Pã! 
    Do mar de além Vem da Sicília e da 
    Arcádia vem! Vem como Baco, com fauno e fera 
    E ninfa e sátiro à tua beira, 
    Num asno lácteo, do mar sem fim, 
    A mim, a mim! Vem com Apolo, nupcial na brisa (Pegureira e pitonisa), 
    Vem com Artêmis, leve e estranha, E a coxa branca, 
    Deus lindo, banha Ao luar do bosque, em marmóreo monte, 
    Manhã malhada da àmbrea fonte! 
    Mergulha o roxo da prece ardente 
    No ádito rubro, no laço quente, 
    A alma que aterra em olhos de azul 
    O ver errar teu capricho exul 
    No bosque enredo, nos nás que espalma 
    A árvore viva que é espírito e alma 
    E corpo e mente - do mar sem fim (Iô Pã! Iô Pã!), 
    Diabo ou deus, vem a mim, a mim! 
    Meu homem e afã! Vem com trombeta estridente e fina Pela colina! 
    Vem com tambor a rufar à beira Da primavera! 
    Com frautas e avenas vem sem conto!
     Não estou eu pronto? Eu, que espero e me estorço e luto 
    Com ar sem ramos onde não nutro 
    Meu corpo, lasso do abraço em vão, 
    Áspide aguda, forte leão - Vem, está fazia Minha carne, fria 
    Do cio sozinho da demonia. À espada corta o que ata e dói, 
    Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói! 
    Dá-me o sinal do Olho Aberto, 
    E da coxa áspera o toque erecto, 
    Ó Pã! Iô Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã., 
    Sou homem e afã: Faze o teu querer sem vontade vã, 
    Deus grande! Meu Pã! Iô Pã! Iô Pã! 
    Despertei na dobra Do aperto da cobra. 
    A águia rasga com garra e fauce; 
    Os deuses vão-se; As feras vêm. Iô Pã! 
    A matado, Vou no corno levado Do Unicornado. 
    Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã! Sou teu, teu homem e teu afã,
     Cabra das tuas, ouro, deus, clara 
    Carne em teu osso, flor na tua vara. 
    Com patas de aço os rochedos roço
     De solstício severo a equinócio. 
    E raivo, e rasgo, e roussando fremo, 
    Sempiterno, mundo sem termo, Homem, homúnculo, ménade, afã, 
    Na força de Pã. Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
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‎"O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo a mim mesmo: podem me apresentar isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe."
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