
Ele lia as estórias de trás pra frente. Qualquer estória. Desde aquelas de livros finos até às enciclopédias que a gente coloca em ordem e chama de vida. Ficava em casa folheando ao contrário porque era assim que se fazia alguém que vinha da Lua.
Quando as pessoas desciam da Lua elas não traziam malas, mas mochilas. Carregadas de fotos e tudo aquilo que não se pode ver. Aí elas batiam na casa de algum vizinho e mostravam todas as imagens.
O garoto me disse que não conhecia o Líbano, mas tinha um capacete de Marte. Servia para se proteger, pois dizia que tudo que é sólido pode derreter. Me contou que foi daí que surgiu “Tô com a cabeça na Lua” porque quando não se usava capacete o pescoço derretia e a cabeça se soltava. Havia muitas cabeças flutuantes em ambiente lunar. Me perguntou onde estava meu objeto de proteção contra todo o mal do desprendimento e eu não sabia o que dizer.
Foi nesse momento que partilhei o sentimento de extraterrestre.
- Não há problema, ele disse, vou te dar uma foto para você lembrar onde deve procurar. Sei que está aqui em algum lugar.
Desmanchou todos os livros da minha casa. Destruiu todas as estórias lineares e retirou toda a pontuação para que eu pudesse ver as palavras soltas. Vou confessar que em toda minha vida de coração viajante de pés livres foi a primeira vez que duvidei que alguém conseguiria me mostrar alguma coisa no meio daquela pilha de desorganização.
- Aqui, ele gritou em meio a meu Homero e o Inferno de Dante.
E eu não vi nada. Ficou balançando na minha cara todas aquelas folhas e eu só via o branco.
- Não há nada aqui, eu disse.
- Ah, sim – ele afirmou como se tivesse esquecido um detalhe muito importante.
Meus amigos fotógrafos dariam tudo pra ver uma câmera do espaço. A máquina fez clic e trouxe aquele brilho anos-luz. A pupila diminuiu e o coração dilatou por meio segundo. Entortei um pouco a cabeça pra ver se havia realmente enxergado bem a fotografia que ele balançava na minha cara mais uma vez.
Havia um ponto de interrogação tatuado no meio de uma mão. Eu dei aquelas duas piscadelas de confusão mental. Pessoas da Lua tinham pensamentos muito acelerados.
- Você precisa procurar sua energia estática, ele disse sorrindo.
Aí me entregou uma foto e um livro intitulado “Tudo que você gostaria de saber sobre a Lua e não tinha coragem de perguntar”
Depois disse que tinha que ir embora porque a Lua vivia se deslocando e ele precisava achar o caminho esquerdo antes que o direito derretesse. Pensei: Uau. Deve ser muito difícil viajar.
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