quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Olmecas: O Elo Perdido das Civilizações Mesoamericanas

Olmecas:
O Elo Perdido das Civilizações Mesoamericanas


Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Bacharel em História pela USP


Introdução:

Neste texto buscarei retratar o menos mal possível a uma Civilização que a História praticamente ignora e cujas fontes são quase que exclusivamente provenientes da Arqueologia: os Olmecas.

Primeiramente é interessante que se diga que se sabe tão pouco sobre este povo que nem mesmo seu nome se pode precisar. Isso mesmo, Olmeca não era o nome pelo qual este povo se reconhecia. Este nome está perdido para sempre, apagado pelo tempo e soterrado pelos pântanos mexicanos e pelas instalações do PEMEX, o equivalente da Petrobrás no México.

Mas, se os Olmecas não tinham realmente este nome, porque são assim chamados? A explicação é arqueológica. Na época Asteca, distante cerca de 2000 anos da época retratada neste texto, os indivíduos que habitavam a região na qual a cultura Olmeca se desenvolveu eram chamados de Olmecas que, em Nahuatl (a língua dos Astecas), quer dizer: Habitantes do País da Borracha. Isso porque naquela região existiam muitos seringueiras, as árvores de onde é extraído o látex utilizado na fabricação da borracha.

Por esse motivo, quando os arqueólogos descobriram vestígios desse povo e concluíram se tratar de uma nova Civilização até então desconhecida, resolveram utilizar o nome Asteca dos habitantes da região para designar esta Civilização, sendo assim, quando se lê a palavra Olmeca, deve-se tomar em conta o contexto na qual está escrita. Na grande maioria das vezes ela se referirá aos Olmecas retratados neste texto, mas em algumas poucas obras, em especial naquelas voltadas ao mundo Asteca, ela pode se referir ao povo tributário e contemporâneo daquele Império. Em todo caso, quaisquer adjetivos relacionados com a palavra Olmeca estão, certamente, se referindo aos Olmecas tradicionais, os referidos aqui.

Ao leitor deste texto recomendo ainda duas observações:

1ª) Tenha em mente que nenhum dos dados fornecidos aqui é definitivo, afinal o estudo desta Civilização ainda engatinha se comparado com o estudo de outras Civilizações Mesoamericanas como os Maias ou os Astecas. Dessa forma, peço que me perdoem se futuramente ficar comprovado que algo, ou mesmo tudo, neste texto estava incorreto, afinal, dadas as referências até hoje encontradas, ainda existem aqueles que sequer acreditam que os Olmecas foram uma Civilização. Para esses indivíduos, este povo nada mais foi do que o início do mundo Maia.

2ª) Quero alertar a todos para o fato de que não sou um especialista em América Pré-Colombiana. Escrevo este texto com a autoridade de quem irá concluir seu bacharelado em História daqui a um mês e que, além de ser interessado no tema, já escreveu três outros textos a seu respeito (Tawantinsuyu: O Império Inca, Tlachtli: Esporte ou Ritual de Sangue? e Astecas: Uma República confundida com Teocracia), mas não com a mesma autoridade que teria um arqueólogo especializado no tema. Por isso, quero ressaltar que ele é apenas um texto introdutório acerca deste povo, sendo assim, mesmo que, a exemplo de Vikings: Mais que um Povo, um Ideal, ele venha a ser um dos maiores textos em português a esse respeito, isso não significa que será completo.

Finalmente, aos arqueólogos que porventura venham a ler este texto, quero pedir, desde já, desculpas se não souber me expressar corretamente nos termos de sua profissão ou, mais ainda, se em algum momento vier a ofende-los com alguma colocação infeliz. Sinto-me obrigado a ressaltar que a Arqueologia é, sem dúvidas, a maior contribuinte da História Antiga e, dentro dessa linha está incluída a História da América Pré-Colombiana, a qual não seria possível sem a dedicação, os acertos, e até mesmo os erros dos vários Arqueólogos que, nos últimos 150 anos têm se embrenhado em lugares por vezes insalubres ao extremo em busca apenas de conhecimento. Por isso, aos arqueólogos: Obrigado.

1 – A Trajetória do Homem:

Segundo convenciona-se hoje, o Homem surgiu na África há, pelo menos quinhentos mil anos. É certo que temos dezenas de ancestrais Hominídeos, mas aquilo que chamamos de homo sapiens só a apareceu por volta da data acima. Devido a fatores incertos, mas provavelmente à busca por comida e aos conflitos entre os diversos bandos nômades, o Homem pôs-se a caminhar, sem, contudo, nunca ter abandonado seu continente materno.

Migrando, o ser humano conquistou a Europa, a Ásia, a Oceania, a América do Norte e até a América do Sul, mas foi justamente em seu caminho entre a América do Norte e a América do Sul que ele se estabeleceu numa das regiões mais fascinantes do mundo: a Mesoamérica.

Foi apenas por volta de 30, ou 40, mil anos antes de Cristo que os primeiros homo sapiens chagaram à América. Nesse período, a raça humana ainda era nômade e estava, em alguns lugares, começando a se sedentarizar. Processo iniciado em tempos diferentes nos diversos lugares, mas cuja origem é a mesma, a descoberta da agricultura.

Os milhares de anos que separam a saída do Homem da África de sua chegada à América foram provocando, segundo uma visão Darwinista, uma certa diferenciação devida à adaptação da espécie ao clima ao qual era submetida. Por isso é impossível dizer qual dos segmentos da espécie humana é mais desenvolvido, uma vez que cada qual é proveniente de uma diferente adaptação da espécie à natureza num tempo em que o homem ainda não a havia vencido.

Foi justamente essa adaptação natural que fez dos Homens da América os chamados “Peles Vermelhas”. Eles tinham feições orientais, ou seja, olhos oblíquos (herança de sua saída, ainda não tão distante no tempo, da Ásia) e faces quase ou totalmente imberbes, mas sua pele eram mais escura devido a uma nova adaptação, ou seja, o sol e as dificuldades Americanas fizeram com que os mais escuros se tornassem mais adaptados numa época em que não existiam protetores solares.

1.1 – O Homem na América:

A teoria mais aceita para a chegada do Homem à América é a da transposição do Estreito de Bering (entre Alaska e Rússia) durante a última Glaciação, período no qual as águas entre eles estariam congeladas possibilitando o caminho a pé. Esta teoria é facilmente aceitável, pois não nos diz que o Homem necessitasse de outra tecnologia que não fossem as peles dos animais abatidos para faze-los aquecerem-se. No entanto, até mesmo os pássaros, que são irracionais, sabem que se você está no hemisfério norte e caminha em direção ao norte, o clima fica cada vez mais frio, sendo assim, é um tanto ilógico que o Homem, racional como é, tenha seguido tal rota em busca de terras mais quentes e, dessa forma, mais propícias à sua vida.

Justamente por essa falta de lógica é que outras teorias se traçam a respeito da chegada do Homem à América. Apenas uma coisa se tem certeza, ou seja, de sua proveniência: a Ásia.

Mas, será que não se pode aceitar a hipótese de que numa dada época tenha ocorrido uma leva migratória marítima através das calmas águas do Oceano Pacífico. Sim, porque também existe a teoria de que regiões como as ilhas da Oceania tenham sido as verdadeiras “mães” do Homem Americano. Isso seria mais lógico, afinal, se estivesse frio no sul, o homem iria para o norte em busca do calor.

Entretanto, o objetivo deste texto não é discutir a proveniência do Homem Americano, mas sim levantar alguns pontos de discussão, sendo assim, vou “aceitar”, para efeito da elaboração do texto, como verdadeira a tese de que o Homem cruzou o Estreito de Bering em busca da caça de Mamutes.

Os Mamutes, aliás, ao contrário do que muitos pensam, não eram dinossauros e nem tão pouco coexistiram com eles. Eram mamíferos como os elefantes de hoje, só que, ao contrário destes, eram mais adaptados ao frio. Em épocas remotas eles habitaram todo o hemisfério norte da Terra, inclusive a América, entretanto, talvez por seu tamanho e conseqüente abundância de carnes, acabaram extintos pelo Homem em sua busca de alimentos durante a glaciação. A carne de um Mamute podia alimentar todo um bando por vários dias. Ainda há ossadas na América que comprovam a caça do Mamute pelo Homem naquela região.

1.2 – A Mesoamérica:

A Mesoamérica é uma região que não existe em nenhuma das divisões clássicas da América. Lembremos que segundo a divisão política, a América é dividida em três partes: do Sul, Central e do Norte. Segundo a divisão lingüístico-cultural, ela se divide em duas partes: América Latina (incluindo toda a América do Sul, toda a América Central e ainda o México) e América Anglo-Saxônica (apenas EUA e Canadá). Sendo assim, onde está a Mesoamérica?

Este nome, ao contrário do que pode erroneamente indicar não é um sinônimo de América Central. É uma expressão Antropológica e também Arqueológica que se refere à região da América onde se desenvolveu uma cultura de nível tão alto que se equiparou ao nível das grandes Civilizações da Antiguidade do Velho Mundo. É certo que outras Civilizações Pré-Colombianas como a Inca não estão situadas na Mesoamérica, mas isso se deve tanto à sua distância geográfica (o que implicaria na inclusão de áreas de “baixa” cultura no termo) quanto a uma disputa ideológica dentre da Arqueologia, afinal, como o México é o detentor dos territórios da maior parte daquilo que um dia foi a Mesoamérica e como este é vizinho dos EUA, os Norteamericanos acabam por preterir as Civilizações grandiosas da América do Sul na maioria de seus estudos Arqueológicos e Antropológicos, dando maior atenção e, conseqüentemente, importância àqueles que lhes são vizinhos.

A rigor, a Mesoamérica se estende do Planalto Central Mexicano, ao norte, até Belize e Honduras, ao sul, passando pela Península do Yucatan, as outras regiões próximas podem ser incluídas ou excluídas de autor para autor.

1.2 – A Agricultura ou o Milho, Pai da América:

É certo que a agricultura é considerada o fator determinante para que uma civilização deixe o nomadismo e entre definitivamente no estágio de sedentarização. No entanto, ao contrário do que pode se pensar, ela não enriqueceu, a princípio, a alimentação dos indígenas da América. Pelo contrário, tornou-a menos rica em uma série de nutrientes necessários à sobrevivência humana.

Enquanto viviam em comunidades caçadoras e coletoras, os indígenas comiam uma variedade muito grande frutas e legumes, além de terem sua dieta complementada com a caça. No entanto, depois da descoberta da agricultura, tendo que se sedentarizar, as populações tiveram que organizar sua divisão de trabalho de modo a poderem produzir, sendo assim, é provável que tenham deixado funções como a caça e a coleta (dificultadas pela sedentarização) totalmente fora de suas tarefas diárias.

É bem verdade, no entanto, que a segurança e a comodidade proporcionadas pela certeza do alimento fizeram com que houvesse um “boom” populacional após o fim do nomadismo. Na América Pré-Colombiana.

Uma grande mentira que se tem como verdade é a de que em todos os grupos sociais, mais cedo ou mais tarde, ocorreu a chamada “Revolução do Neolítico” e que foi justamente ela (a descoberta da agricultura) que fez com que aquele grupo emergisse do nomadismo em direção à vida sedentária. Isso é mentira, na medida em que diversas comunidades litorâneas abandonam o nomadismo para se estabelecerem permanentemente numa posição estratégica em frente ao mar, de onde, através da pesca, retirarão se sustento. Para essas comunidades a sedentarização em nada teve haver com a descoberta da agricultura e, quando essa descoberta ocorre, não põe fim à atividade da pesca (extrativista por natureza), mas apenas complementa a alimentação dos indivíduos da região.

O milho, na América, desempenhou o papel de principal agente da agricultura inicial. Por muito tempo se pensou que talvez a sua disseminação estivesse ligada à expansão de alguma civilização em específico e, sendo assim, a descoberta dos Olmecas só fez aumentar essa desconfiança. No entanto, hoje se sabe que o milho foi realmente uma fonte importantíssima de carboidratos e vitaminas para os habitantes da América, mas que seu cultivo não estava relacionado à difusão, mas, mais possivelmente, à invenção paralela.

Mesmo o milho não sendo, dessa forma, o pai da América, ele foi uma cultura importante para o seu desenvolvimento e, em última instância, ainda intriga a todos nós por uma questão: Terá sido o hibridismo também uma invenção paralela dos povos Mesoamericanos e Andinos, ou essa tecnologia terá se difundido entre os povos do continente? E caso tenha se difundido; quem teria sido seu difusor? Será que os Olmecas, ou algum povo da América Andina?


2 – Contribuição da Arqueologia:

Ocorre entre a História e a Arqueologia algo semelhante ao que ocorre entre o Jornalismo e a História. É um erro muito grave que acaba se tornando irremediável na medida em que é alimentado pelo mercado consumidor. É um erro cujos culpados são os membros de ambas as profissões em ambos os casos. Vejamos:

Os Arqueólogos se embrenham numa floresta tropical Mexicana em busca de vestígios arqueológicos de uma cidade qualquer. Passam anos pesquisando sem ganhar quase dinheiro algum, sofrem com doenças e privações as mais variadas. Esforçam-se, aprendem até a ler (ou interpretar) hieróglifos antigos e, ao final de dez ou doze anos publicam um trabalho com uma excelente qualidade científica, mas com pouca análise historiográfica e com uma interpretação, por vezes, muito parcial. Esse trabalho acaba restrito à comunidade científica da qual fazem parte, circulando apenas em revistas especializadas e em seminários e congressos de Arqueologia.

Pois bem, um Historiador pega o trabalho do Arqueólogo e o encara como um documento. Como tal, ele deve ser visto como uma prova parcial dos fatos. Através da historiografia e de seus paradigmas próprios, este Historiador escreverá um livro onde fará uma discussão aprofundada e, possivelmente onde fará com que mais que dois arqueólogos dialoguem entre si através de suas próprias palavras utilizadas como citações. O livro acabará sendo muito extenso, cheio de trechos dispensáveis e com uma linguagem de extrema erudição, ou seja, ao alcance de pouco, apenas os Historiadores e os Arqueólogos. Sendo assim, o Historiador terá transformado algo que era restrito a um grupo em algo restrito a dois.

Observando a demanda do mercado por textos mais compreensíveis, o Jornalista lerá os livros do Historiador e, com base neles, escreverá o seu próprio, muito mais conciso, direto e de linguagem acessível a todos.

Nessa situação teremos o seguinte padrão: o Arqueólogo trabalhou dez anos, em péssimas condições, para produzir um texto que não lhe deu dinheiro algum e quase nenhum reconhecimento. O Historiador passou um ou dois anos trancado numa biblioteca e gastando dinheiro para viajar a congressos, seminários e arquivos regionais para, no fim, produzir um texto que lhe dará um reconhecimento moderado e um rendimento financeiro pouco compensador. Já o Jornalista lerá por dois meses (se for minimamente sério) e, no final disso, escreverá um livro que lhe renderá fama e fortuna, além levar uma interpretação extremamente fracionada ao leitor, o que fará com que ele tenha uma visão muito parcial e, se não se precaver, seja doutrinado a pensar como o Jornalismo que, por ser um vencedor do sistema, luta para mantê-lo e, sendo assim, faz de tudo para que ninguém queira muda-lo. Essa é a função da mídia e é isso, em essência, que diferencia um Historiador de um Jornalista.

A solução para essa situação é simples, mas implica na transformação do pensamento vigente na Historiografia nacional, ou seja, de que o texto só é bom se for excludente, restrito aos iniciados. Isso só serve para duas coisas: fazer da História uma Ciência Esotérica (ou seja, restrita a um pequeno grupo de iniciados, que está apto a distinguir suas mensagens secretas) e contribuir para que a lacuna no saber da população leiga seja preenchida por pessoas menos capacitadas e, o que é pior, que lutam pela manutenção dos veículos opressores da sociedade. Se a erudição deixasse de se refletir na linguagem científica e, ao invés disso, se mostrasse pela linguagem popular; todos sairiam ganhando. Até os Jornalistas, que poderiam fazer o que realmente sabem, escrever textos curtinhos em Jornais e Revistas e, na grande maioria das vezes, exaltar o sistema.

Enquanto essa situação continuar, quando falarmos no descobrimento do Brasil, o primeiro nome (de autor) que nos virá à cabeça continuará sendo o de Eduardo Bueno, Jornalista cujos livros que escreveu no oportuno momento da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil figuraram entre os mais vendidos por cerca de um ano fazendo sua fortuna financeira e a colaborando para a manutenção de inverdades na cabeça do Brasileiro médio.

2.1 – Ciência Séria X Ciência Ideológica:

Ciência é um conceito muito amplo e vago. Segundo o dicionário, qualquer competência de estudo pode ser considerada uma ciência, por esse ponto de vista, virtualmente tudo é científico.

Segundo Kuhn, científico é todo o trabalho produzido através da analise de algo que um dia fora considerado científico em tempos anteriores. Por essa definição, chegaríamos à conclusão de que a Ciência não existe, afinal, tudo se pautaria em objetos científicos que se pautariam em objetos científicos anteriores que se pautariam em objetos científicos anteriores... Até que se chegasse numa primeira Ciência que teria surgido sem um objeto científico anterior e, sendo assim, não seria científica e, tendo servido como base para pesquisas posteriores, estas também perderiam, em conseqüência suas validades científicas fazendo com que nada fosse científico e, sendo assim, a Ciência não existisse.

Para muitos, dentre esses alguns Historiadores, a própria História não é uma Ciência, pois a Ciência só seria científica se fosse exata, sendo assim, somente coisas como Matemática, Física, Química... Seriam Ciências, ficando as Ciências Humanas e Biológicas relegadas ao papel de Filosofias.

Para mim, a História é sim um Ciência, não é pelo fato de não existir uma Verdade Histórica que ela passa a perder a credibilidade. O Historiador trabalha com hipóteses, coisas que, em última instância não deixam de ser especulações, mas, mesmo assim, ele faz sobre essas especulações uma análise dialética, ou seja, baseada em proposições e contra-proposições, que torna o que é Histórico impossível de ser construído sem um elevado grau de abstração. Busco e defendo que a abstração é científica, existe até uma metodologia de trabalho baseada nela. Chama-se Fenomenologia. Uma metodologia segundo a qual não existe uma verdade definitiva, todos os fatos só existem quando acontecem, mas é impossível retrata-los tal como eles realmente são, pois toda e qualquer tentativa de faze-lo será apenas mais uma interpretação e, como tal, extremamente parcial, baseada em juízos de valores e características individuais que, como o nome diz, são diferentes em cada um. Sendo assim, duas interpretações de um mesmo fato não serão iguais nem mesmo se forem dadas por duas testemunhas oculares. Tornar interpretações em padrões é o trabalho da imprensa, dessa forma, uma “verdade” acaba sendo criada através da destruição dos demais pontos de vista.

Ninguém pode negar que, em sua época, Platão foi um cientista, no entanto, ele não se baseava em fatos comprovados ou mesmo em documentos totalmente dignos de credibilidade. Mesmo assim, até hoje não ficou comprovado que ele tenha inventado nada, nem mesmo a História de Atlântida, afinal ele a atribuí a Sólon, o famoso político grego. O que Platão fazia então? Ele abstraía em cima de acontecimentos que presenciava ou dos quais tomava conhecimento. Suas abstrações foram tão brilhantes que ele iniciou uma corrente de pensamento tão forte que até hoje é tida como válida. Agora vejamos. Se Platão podia faz Ciência através, única e exclusivamente, da abstração, porque nós também não podemos?

Temos que ter em mente que nossas concepções pessoais estão e sempre estarão envolvidas em tudo o que escrevermos, dissermos ou pensarmos, mas não podemos deixar que elas (que são os nossos paradigmas) nos retirem do eixo que deve ser o fundamental de cada trabalho sério e, sendo assim, científico: a busca da verdade.

A busca da verdade é ingrata, pois, como eu disse, por mais que a busquemos, tudo o que encontraremos será nossa própria construção do que é real. É de ensandecer, mas o real não existe, tudo depende de como encaramos, só não podemos deixar que nossos índices de parcialidade nos ceguem a ponto de fazer com que manipulemos o que estamos vendo de modo a que a visão nos agrade, pois isso não é científico, mesmo sem deixar de ser ideológico.

Toda essa longa digressão foi feita com o único objetivo de mostrar ao leitor que nada sabemos de verdade nem mesmo quando presenciamos o fato, imaginem quando entramos numa tumba trancada por vinte, ou trinta séculos e, à partir dela, tentamos recriar todo o contexto histórico de uma Civilização há muito esquecida.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com os Olmecas. Até 1862 nunca se tinha cogitado a possibilidade da existência desse povo. Os Maias eram tidos como a “Cultura Mãe” dos povos Mesoamericanos e quaiquer objetos que fossem encontrados nas proximidades da Zona Maia eram rapidamente identificados como pertencentes àquela cultura, cultura esta que, por ser tão fascinante e heterogênea, gerou milhares lendas, muitas delas tidas como verdades até mesmo por pessoas mais esclarecidas. Foi nesse ano que um viajante chamado José María Melgar y Serrano, quando estava de passagem por San Andrés Tuxtla, no Estado de Veracruz, no México ficou sabendo da descoberta de uma Cabeça Colossal que havia sido desenterrada pelo funcionário de uma fazenda de açúcar não muito longe dali. Ao que parece, o homem estava cortando árvores da floresta a fim de expandir a área de plantio da fazenda quando encontrou um relevo estranho no chão. Pediu ordem ao proprietário e desenterrou o objeto. Deparou-se com uma Cabeça gigante com feições negróides e um peso de várias toneladas. O viajante, sete anos depois, conseguiu publicar sua descoberta no boletim da Sociedad Mexicana de Geografía y de Estadística.

A descoberta foi tida como mais uma descoberta arqueológica Maia e só causou algum espanto devido às feições negróides que estampava. No mais, o mundo Olmeca ficou esquecido por muito tempo até que começassem, já no século XX, a pipocar evidências de que aquelas peças de arte em nada tinham haver que com o mundo Maia, que constituíam de fato provas da existência de uma outra Civilização que, a julgar pelos traços, datações em carbono, estilo, falta de vestígios e outros fatores... Seria mais antiga.

Essa tese, de que os Olmecas eram mais antigos do que os Maias foi duramente defendida por alguns grupos de Arqueólogos de vanguarda e duramente criticada por Arqueólogos mais conservadores. Para estes conservadores, seu estudo dos Maias não era uma ciência, era quase uma religião e, como tal, não poderia ser questionado. Temiam que se os Olmecas fossem considerados mais antigos do que os Maias, todo o brilho de seus estudos fosse ofuscado pelo nascente brilho Olmeca.
Essa batalha colocou, entre os anos 40 e 50 do século XX, frente a frente a Ciência Séria (que estava em busca da “verdade”) e a Ciência Ideológica (que estava em busca do enaltecimento dos egos de seus cientistas). Felizmente, para todos nós, a Ciência Séria saiu vitoriosa e hoje os Olmecas, ainda que pouco conhecidos, nos podem ser mostrados em textos como este.

2.2 – O que sabemos, não sabemos, supomos e porquê:

Como afirmei até agora, sabemos muito pouco sobre os Olmecas, não sabemos seu verdadeiro nome, se foram um Império, se tinham algum tipo de unidade entre as cidades ou se eram um povo constituído de diversas cidades-estado, como os Maias. Não sabemos até onde vai realmente sua área de influência, se foram realmente os primeiros povos “Civilizados” da Mesoamérica, se praticavam sacrifícios humanos, se tiveram ou não contato com povos da Europa, da Ásia ou da África, não sabemos sequer se eles existiram de verdade.

Apesar de não sabermos tantas coisas sobre este povo, nos é possível escrever um texto grande como este a seu respeito. Como?

Bem, é óbvio que item anterior responde em parte esta questão, ou seja, através da abstração, mas também é verdade que não podemos abstrair em cima do nada e é aí que entra o que sabemos sobre os Olmecas. Sabemos que numa área pantanosa localizada próximo à costa leste do México, mais precisamente nas regiões banhadas pelos rios Tonalá, Blasillo, Papaloapan e Chiquito foram encontradas uma série de esculturas e peças de cinzelagem que remontam a um caráter diferente do Maia, diferente do Tolteca, diferente do Asteca, do Zapoteca, do Mixteca e do Teotihuacano. Peças que foram classificadas como Olmecas.

A partir dessas peças nos é passada toda uma série de informações através de interpretações arqueológicas que nos possibilitam intuir muitos dos aspectos da Civilização Olmeca. Por exemplo, existem 18 sítios arqueológicos com traços Olmecas em maior ou menor grau. Destes, três são muito superiores aos demais e, sendo assim, são considerados os centros da Civilização.

La Venta, Tres Zapotes e San Lorenzo são considerados os centros da Civilização Olmeca, foi, aparentemente, deles que se originou a expansão daquele povo rumo à conquista dos outros sítios.

Além desses três sítios arqueológicos, existem outros quinze localizados em sua proximidade que podem ter sido Olmecas ou, ao menos, influenciados por este povo.

Sobre os Olmecas sabemos ainda que suas jades e jadeítas eram retiradas das montanhas de Taxco, região próxima à costa oeste do país, ou seja, havia uma distancia muito grande a ser vencida para que aquele povo pudesse chegar até o ponto de extração do artigo de maior valor em sua arte. Em pontos desse caminho também é possível encontrar traços Olmecas. Disso pode-se concluir duas coisas: ou os Olmecas deixaram rastros de comércio com os povos em seu caminho ou, o que é mais provável, fizeram deles seus tributários e os contaminaram com sua cultura.

Por fim, sabemos que a única região da Mesoamérica onde não se encontram vestígios convincentes da cultura Olmeca é a região onde se desenvolveu a cultura Maia, deve haver, portanto, alguma explicação para isso. E tal explicação é um dos objetivos deste trabalho. Sabemos, por fim, que após o século IV a.C. tornam-se cada vez mais raros os vestíigios Olmecas até chegarem à total extinção dessa população.

2.3 – Urbanização e Modernidade, a destruição dos vestígios:

Inegavelmente a vida moderna nos trouxe muitas facilidades. Carros, aviões, navios, foguetes, enlatados, computadores... Mas, a que preço? Poluímos a atmosfera, gradualmente acabamos com nossas florestas, intoxicamos nossa água e nosso alimento, além de destruirmos a fauna do planeta.

Dentro desse insaciável impulso destrutivo do capitalismo, qualquer fonte de renda torna-se mais importante do que a cultura. Foi exatamente o que aconteceu com um dos principais sítios arqueológicos Olmecas: La Venta.

Para muitos, La Venta poderia ter sido a capital de um possível Império Olmeca; não era a cidade mais antiga, mas, sem dúvida, era a mais bem conservada, além de ser a possível “criadora” de muita parte do estilo Olmeca. Pois bem, por volta do final da década de 70, com a crise do petróleo, este recurso se tornou muito caro e escasso no ocidente, o que fez com que o empenho das empresas prospectoras de petróleo estatais em encontrar novas fontes do material aumentasse. Foi o que aconteceu e, dessa forma, a PEMEX descobriu que embaixo do sítio de La Venta existia petróleo em abundância.

O governo Mexicano não pensou duas vezes, autorizou a remoção de tudo o que estava no sítio e a instalação de uma central de extração de petróleo na pequena ilha fluvial. Resultado: foi criado, em Villahermosa, o Parque La Venta, onde estão os objetos retirados do sítio e as coisas que não puderam ser retiradas, como (simplesmente) a Pirâmide (talvez a mais antiga da América e, dessa forma, uma bela fonte de estudo para se chegar a um porque da construção desse tipo de edifício na América) foram destruídas.

Será mesmo que a extração de Petróleo por alguns anos (petróleo é recurso esgotável) vale mais do que o patrimônio (inesgotável) cultural da humanidade? Do que uma possível compreensão do passado? Ou melhor. Vamos perguntar de outra forma. Você venderia a casa em que vive para fazer uma viagem de alguns dias sendo que depois do final da viagem não teria mais onde morar?

Acho que não preciso comentar.




3 – Quem eram os Olmecas:

Como já mencionei no item 2.2, não sabemos muito sobre os Olmecas, no entanto, a partir do pouco que sabemos nos é possível construir toda uma organização social que nos indica, ainda que de uma forma muito sujeita a erros, quem eram os Olmecas.

Antes de mais nada é interessante notar que aquilo que é conhecido com Mesoamérica, salvo pela exceção da Península do Yucatan, é, a grosso modo, a região onde nos é possível encontrar vestígios dessa civilização. Sendo assim, podemos assegurar quase que com certeza absoluta que os Olmecas foram, na realidade, os pais da Mesoamérica. Neste item de meu trabalho, mais do que definir os Olmecas com poucas palavras, coisa que seria impossível fazer, eu irei enumerar alguns dos principais traços de sua civilização.

A escultura “O Lutador”
é, segundo
especialistas, na
verdade, um jogador de
pelota


Inicialmente, no que se refere às deformações cranianas, uma prática muito corriqueira entre os povos da América Pré-Colombiana, os Olmecas parecem ter sido os pioneiros. Essa prática consiste em um sem-número de modificações que os indivíduos de determinadas sociedades podiam provocar voluntariamente em seus filhos ainda bebês. É possível que houvesse entre os Olmecas uma espécie de hierarquização devida às deformações, tal qual houve entre os Maias (em Palenque, os governantes deveriam nascer com alguma deformação física para estarem aptos a governar, isto era visto como um presente divino; os que não nasciam assim, mutilavam-se em busca dessa proximidade com os deuses). Isso é dito devido à análise das feições que se convencionou em chamar “Olmecóides”, ou seja, as feições como as das grandes cabeças de basalto (faces redondas com narizes negróides, olhos mongólicos e lábios superiores protuberantes). Como se sabe, as feições comuns entre os aborígenes da América não era nem de longe parecida com a feição “Olmecóide”, sendo assim, é possível que este tipo de rosto fosse o rosto de governantes com deformações cranianas. É lógico que tal aparência suscita logo a dúvida: teriam os Olmecas tido contato com negros Africanos? Esta questão será tratada mais adiante.

Como se pode afirmar que as Cabeças Colossais são cabeças de governantes? Na verdade, não se pode afirmar. Há várias possibilidades. Vale sempre lembrar que os Vikings tinham o costume de criar feições horríveis para colocar nas proas de seus navios a fim de afugentar os maus espíritos. Outra possibilidade seria a de se tratar (como veremos adiante) de um retrato de visitantes exóticos. Há ainda a possibilidade de se tratar meramente de uma imaginação de uma figura divina, mas a hipótese mais aceita é realmente a de se tratar de governantes, ou, ao menos, membros de um grupo social dominante.

Sabemos que entre os Astecas havia um costume que proibia os membros de classes sociais inferiores de utilizrem certos tipos de plumas, as plumas eram, entre aquele povo, um fator hierarquizante da sociedade. Um indivíduo que fosse pego utilizando publicamente plumas que lhes eram proibidas seria sacrificado como exemplo aos demais. Entre os Olmecas é possível que houvessem costumes semelhantes. Dessa forma, não só as plumas, mas também as deformações cranianas identificariam os membros de cada classe, ou casta.

As estátuas que nos restam nos mostram que os Olmecas utilizavam um tipo de vestimenta muito simples, tratava-se de saias (tanto para os homens, quanto para as mulheres) e outras partes de roupa que variavam conforme, provavelmente, o nível social do indivíduo (neste texto, seguirei a linha de Jacques Soustelle e, sendo assim, considerarei que os mais ricos (ou nobres, ou simplesmente os dominantes, como queiram) utilizavam as melhores roupas e eram mais freqüentemente retratados pela arte daquele povo. Trata-se de uma suposição lógica, mas que nem por isso é necessariamente verdadeira). Os mais proeminentes utilizavam calçados de tiras de couro ou palha para protegerem os pés, também estes, quando homens, podiam utilizar uma infinidade de capas e robes; já as mulheres mais ricas utilizavam uma espécie de top de pano que lhes cobria os seios, enquanto as mais pobres andavam, a exemplo de seus pares masculinos, com os torsos nus. As roupas eram feitas, provavelmente, de algodão que era uma planta muito abundante na Mesoamérica e que era utilizada como fonte de fios para o tecido na época da conquista.

Quanto aos adornos, é interessante ressaltar que os de cabeça eram, muito provavelmente, exclusivos dos mais ricos que os utilizavam para simular uma altura maior e, com isso, se destacarem entre os demais cidadãos. Vários tipos de jóias também eram utilizados tanto por homens, quanto por mulheres, entretanto, como os Olmecas não conheciam o trabalho com metais, tais jóias eram exclusivamente pedras preciosas e semi-preciosas. É muito provável que, a exemplo dos Maias e dos Astecas, também os Olmecas considerassem a jade como a jóia mais bela de seu conhecimento, afinal há muitas peças de jade em sítios Olmecas. Os Olmecas foram, com certeza, os pais da arte da cinzelagem na Mesoamérica.

Dentro do contexto militar, seus guerreiros (só existiam pelotões de infantaria, visto que não havia animais grandes o bastante para serem utilizados como montaria) utilizavam armaduras leves, feitas de couro e madeira, talvez forradas com penas e pele de animais. Em suas cabeças trajavam capacetes de madeira revestidos de couro (algumas das Cabeças Colossais trajam capacetes como estes, o que indica que talvez fossem guerreiros e, em se confirmando a tese de se tratarem de governantes, o Estado Olmeca seria um Estado Militar). As armas Olmecas eram várias e rústicas, mas em especial: machadinhas de pedra polida, maças (talvez com pedras incrustadas para tornar-lhes cortantes) e tochas (que tinham a dupla função de golpear e atear fogo ao inimigo). Além dessas armas, que eram as mais usadas, também pode-se constatar a utilização de manoplas (espécie de luvas de couro duro utilizadas como protetores para as mãos, mas também, provavelmente, como aumentadores de potência para os golpes com as mãos, visto que a mão se tornava mais rígida e menos sensível, podendo golpear mais forte, como um soco-inglês), de fundas (tiras de couro utilizadas para atirar pedras; estas eram, por sua vez, uma das principais armas da civilização Maia e também, no Peru, da civilização Inca), de lanças (que poderiam ser utilizadas no combate corpo-a-corpo ou para arremesso) e escudos. Há ainda uma boa probabilidade de que os Olmecas tenham vindo a conhecer o arco e flecha (aliás está é uma das bases para teorias que sugerem contatos com indivíduos do Velho Mundo). Além das armas mencionadas havia ainda uma arma cujo uso ainda não foi bem definido pela Arqueologia, trata-se de um círculo de pedra. A meu ver ele poderia ser utilizado a um só tempo como escudo e como uma espécie de maça, mas sua real função é ainda ignorada.

No que se refere ao lazer, que é uma das maiores fontes de manifestação cultural de uma civilização, certamente os Olmecas conheciam a música, entretanto, não nos é possível precisar quais os instrumentos utilizados por eles e nem qual o som que obtinham deles. No entanto, baseados em comparações com outros povos de nível tecnológico semelhante e da América Pré-Colombiana, os Arqueólogos supõem que estivessem entre os instrumentos conhecidos pelos Olmecas um ou mais tipos de instrumentos de percussão (tambor, pandeiro, tamborim...), e talvez alguns instrumentos de sopro (flautas, gaitas, flautas de pan...). É possível que conhecessem alguns instrumentos de corda, mas isso já é menos provável segundo os estudos realizados.

Como veremos mais adiante, a religião Olmeca era, a exemplo da Egípcia, Antropozoomórfica, ou seja, havia deuses em formas humana, animal e híbrida; sendo assim, é muito possível que sua mitologia religiosa fosse muito rica, comparável a mitologias como a Grega e a Egípcia. Dessa forma, mesmo se aceitarmos que os Olmecas conhecessem a escrita, temos que ter em mente que dificilmente esta estaria ao alcance de todos, sendo assim, a riqueza da mitologia Olmeca deveria ficar restrita aos sacerdotes que provavelmente deveriam fazer dela uma espécie de trampolim para obter poder e, assim sendo, nada melhor do que a realização de simulações das epopéias divinas durante dias de festas. Essas simulações deveriam ser realizadas pelos sacerdotes e tão somente por eles, e apesar de serem cerimônias de fé, constituiriam também, uma forte expressão artística, uma espécie de teatro.

Por fim, como já afirmei no texto Tlachtli: Esporte ou Ritual de Sangue?, é muito possível que os Olmecas tenham sido os primeiros idealizadores do famoso jogo de pelota da Mesoamérica. Podemos dizer isso com certa tranqüilidade devido a uma série de fatores: os Olmecas, como seu próprio nome nos diz, eram os habitantes do país da borracha, devido ao imenso número de seringueiras que lá havia; as bolas do Tlachtli eram feitas de borracha, por isso é possível que ele as tenham inventado. Seguindo a teoria de que os Olmecas teriam sido os pais da Mesoamérica, o Talchtli, como sendo um dos elos de intersecção dos povos que nela habitavam, pode ser considerado uma herança Olmeca e, por fim, uma das mais famosas esculturas Olmecas, batizada com o nome de “O Lutador” é, segundo especialistas, na verdade um jogador de Tlachtli, não um lutador, sendo assim, é provável que o Esporte tenha sido, senão inventado, pelo menos difundido pelos Olmecas.


3.1 – Descrição Física da Zona Metropolitana:


Mapa da Zona Metropolitana Olmeca

A região conhecida como Zona Metropolitana Olmeca é a região onde se encontra o maior número de sítios arqueológicos daquela civilização. É também a região onde, no caso deste povo ter formado um Império em algum momento de sua existência, estaria localizada uma possível capital Olmeca. Esta região é muito particular dentro do México, uma vez que é uma planície pantanosa cercada de planaltos e montanhas. Vários rios cortam a região e os três principais sítios arqueológicos Olmecas (La Venta, Tres Zapotes e San Lorenzo) se localizam praticamente dentro desses rios.

A proximidade da região com o Oceano Atlântico também denota uma possível simbiose daquele povo com o mar. Há estátuas que comprovam que os Olmecas conheciam criaturas como golfinhos, sendo assim, tendo em vista que tais criaturas não se encontram muito próximas à costa, podemos afirmar que os Olmecas possuíam embarcações, mesmo que rudimentares.

A selva que circundava as cidades Olmecas além de lhes dar borracha e alimentos, também lhes trazia problemas. Inundações freqüentes fizeram com que cidades como San Lorenzo fossem totalmente adaptadas à região onde estavam situadas. Para se ter uma idéia, esta cidade se situa cerca de cinqüenta metro acima da selva que é freqüentemente inundada. Porém, a colina onde ela foi edificada é artificial, foi construída pelas mãos do homem, por um gigantesco esforço populacional. Esforço esse só comparável ao exigido para a construção das grandes pirâmides do Egito. Vinte lagoas, três aquedutos e até uma rede de tubulações subterrâneas atravessam a cidade construída pelas mãos do homem mais de mil anos antes de Cristo. No topo da colina artificial, onde estava a cidade propriamente dita, há, além das construções, mais de uma centena de túmulos de prováveis dignatários. Essa impressionante obra da engenharia Olmeca se estende por mais de um quilômetro de comprimento.

Além das inundações freqüentes, ataques de animais dos mais variados (desde mosquitos transmissores de doenças até jaguares e serpentes) também preocupavam os habitantes da Zona Metropolitana, mas, se os Olmecas eram tão poderosos como parecem ter sido e como veremos que de fato foram, por que motivo mantiveram o centro de sua civilização num lugar tão inóspito? A resposta talvez nunca venhamos a saber.

3.2 – Cidades ou Centros Cerimoniais?

Quando estudamos História tendemos, naturalmente, a fazer paralelos do passado com o presente. Esse fenômeno é absolutamente normal, visto que não podemos conceber algo que não conhecemos, a mente humana funciona através da comparação com o conhecido para que se compreenda o desconhecido. Esse é, aliás, o motivo que faz com que as pessoas, em geral, tenham tanta dificuldade em aceitar novas idéias ou em abstrair acerca de temas que batem de frente com sua moral pessoal. Bem, mas voltemos ao eixo da narrativa, quando se trata de História, fazer comparações com o presente pode nos levar ao mais grave dos erros: o anacronismo.

O anacronismo é o ato de se atribuir coisas de um tempo a outro, de se colocar um costume, uma organização, uma arma, um pensamento... Em um tempo que não é o dela. Em gera o anacronismo se dá em relação a tempos mais remotos, por exemplo, é comum se acreditar que Roma foi sempre um Império, que sempre teve um Imperador, afinal, sempre ouvimos falar de César, do Império Romano, mas isso é uma inverdade, o Império Romano só pode ser considerado como iniciado em 27 a.C., quando Otávio é considerado Augusto, ou ainda, em 14 d.C., quando depois de sua morte, Tibérius assume como o primeiro Imperador Romano, visto que Auguasto é considerado pela historiografia como Príncipe, mas não como imperador. Depois dessa explicação, pode-se constatar uma coisa, Júlio César, o famoso César de Roma, aquele que enfrenta Asterix e Obelix em suas histórias, nunca foi Imperador, ele era apenas um dos Cônsules da Roma Republicana, e sendo assim, anterior ao nascimento do Império. Considera-lo Imperador seria um anacronismo.

Falo de anacronismo porque quando cito as cidades Olmecas, sei que a primeira tendência dos leitores é imaginar um conglomerado de pessoas vivendo ao redor de uma construção de poder (um palácio ou coisa parecida) e com uma organização política bem definida. Pensando dessa forma, uma cidade com 1200 m de extensão em sei maior eixo não impressionaria ninguém por seu tamanho. Quantas pessoas poderiam viver nela? 500? 1000? 2000 no máximo? Exatamente. Quando se fala em Mesoamérica, deve-se ter em mente que, em geral as cidades não eram bem cidades (exceto grandes centros como a Tenochtitlán dos Astecas, que chegou a ter mais de quinhentos mil habitantes), mas centros cerimoniais.

Centros cerimoniais funcionavam mais ou menos como as acrópoles das Cidades-Estado da Grécia Clássica, ou seja, eram lugares bem defendidos, onde viviam as elites: sacerdotes, governantes e guerreiros; e onde estavam localizadas as principais construções: templos, palácios, grandes mausoléus... Ao redor desses centros cerimoniais (onde, de fato, habitavam poucas pessoas) se localizavam vários vilarejos. Nesses vilarejos as casas eram de madeira e, sendo assim, não resistiram ao tempo, neles também viviam poucas pessoas, mas como eram diversos, a população subordinada ao centro cerimonial se tornava numerosa. Cada vilarejo tinha uma forma particular de organização que nos é impossível precisar, mas é muito provável que cada um constituísse uma espécie de clã familiar, ou seja, um grupo de pessoas semi-aparentadas que vivem próximas para cooperação mútua.

Em boa parte dos centros cerimoniais Mesoamericanos, a presença das populações periféricas só era permitida em duas ocasiões: em festividades e no caso de solicitações específicas.

Não se pode dizer com certeza absoluta que as cidades Olmecas eram centros cerimoniais, mas devido à impressionante expansão daquele povo (o que exige um bom contingente populacional) e ainda às grandes façanhas arquitetônicas, como a construção de San Lorenzo, pode-se acreditar que sim, as cidades Olmecas seriam apenas centros cerimoniais, ainda porque, se assim fosse, as populações periféricas é que estariam sujeitas às intempéries do clima da região e aos ataques de animais, pois elas e que viveriam dentro da selva, enquanto as elites viveriam confortavelmente acomodadas em seus palácios nos centros cerimoniais.


4 – A Expansão, a Cronologia e o possível Império Olmeca:

Este é o item central da maioria dos trabalhos que desenvolvo na seção Grandes Impérios e Civilizações Antigas e Medievais de Klepsidra. Isso se deve ao fato de uma de minhas preferências no campo da História ser a História Política. Acredito que a partir de uma ordenação cronológica dos fatos (governantes, guerras, disputas internas, fundações e destruições de cidades...) torna-se não só mais fácil, como também mais interessante, estudar História. Não creio que o estudo da História se limite a isso, de maneira nenhuma, apenas tenho em mente que as pessoas em geral lêem aquilo que lhes agrada, que lhes apraz. É justamente por isso que os livros mais vendidos são os de literatura ficcional; no entanto, se os livros de não-ficção se esforçassem em se tornar menos enfadonhos para o leitor médio, talvez assim e só assim, um indivíduo interessado na cultura Egípcia, por exemplo, deixasse de ler Christian Jacq e passasse a ler verdadeiros livros de Egiptologia. Foi-se o tempo em que o bom remédio tinha que ser amargo.

Pois bem, como referi, esta costuma ser a parte central de meu texto, entretanto, os dados de que dispomos para a sua elaboração não são completamente confiáveis, sendo assim, talvez ela acabe por não ser a parte mais completa deste trabalho, mesmo assim, prometo ao leitor que me esforçarei para torna-la o menos repetitiva o possível e, também, o mais informativa o possível. É certo que algumas vezes utilizarei interpretações próprias sobre partes obscuras da História Olmeca, além disso, o último sub-item deste item, aquele que falará das possíveis causas do desaparecimento da civilização Olmeca será quase que exclusivamente baseado nas interpretações que pude ter sobre as leituras que fiz, visto que não há ainda nenhuma resposta certa para o que teria causado um declínio tão definitivo.

4.1 – A Zona Metropolitana e a Cronologia Olmeca:

Como será possível notar mais adiante no texto, boa parte dos baixo-relevos Olmecas, bem como de suas pinturas rupestres são provenientes do atual Estado de Guerrero, no México, uma região próxima ao Oceano Pacífico e, sendo assim, na costa oposta àquela onde se desenvolveu a chamada Zona Metropolitana Olmeca. Essa constatação faz com que muitos Arqueólogos tendam a considerar Guerrero como o ponto de origem da civilização Olmeca, entretanto, esta hipótese é muito pouco confiável, visto que não há nenhum vestígio de grandes construções Olmecas (como há na Zona Metropolitana) e nem tão pouco a Arqueologia daquele estado é desenvolvida o bastante para precisar a antiguidade dos vestígios Olmecas encontrados, sendo assim este texto, bem como a maior parte dos pesquisadores, considera que o centro da civilização Olmeca tenha sido realmente a Zona Metropolitana. Entretanto, a apresentação desta hipótese só faz engrandecer o trabalho apresentando uma maior gama de possibilidades ao leitor.

4.1.1 – San Lorenzo (1200 – 900 a.C.):

Não nos é possível precisar os nomes verdadeiros das cidades Olmecas, por isso o nome que nos chega é o nome das regiões atuais, o ainda o nome dado pelos Arqueólogos ao sítio por algum motivo.

O sítio arqueológico conhecido como San Lorenzo é na verdade uma junção de três sítios menores: San Lorenzo, Potrero Nuevo e Tenochtitlán (esta última, apesar de ter o mesmo nome da cidade que hoje jaze sob as construções da Cidade do México e que um dia foi a capital do Império Asteca, é apenas um sítio menos, batizado assim pelos arqueólogos pois, a exemplo da Tenochtitlán Asteca, também estava localizada numa ilha).

Esses três sítios representam o que há de mais antigo no que se pode chamar de alta cultura Olmeca. É possível que um dia tenham sido parte de uma mesma cidade, apesar da grande distância entre eles. Nas regiões desses sítios é onde há mais vestígios de habitações o que leva alguns Arqueólogos a supor que talvez estes sítios tenham sido cidade de fato e não meramente centros cerimoniais. Entretanto esta hipótese é menos aceita do que a de se tratarem de centros cerimoniais.

San Lorenzo, propriamente dita é a casa de uma das mais impressionantes obras da engenharia Olmeca: o platô de San Lorenzo, totalmente construído pelas mãos do homem, num esforço monumental.

É muito provável que este sítio tenha sido o primeiro centro cerimonial Olmeca, entretanto, sua construção inicial não parece ter sido feita por membros dessa civilização. Parece ser mais antiga. Segundo estudos, os Olmecas devem ter chegado à região por volta de 1200 anos antes de Cristo e lá teriam encontrado um povo que já a habitava de forma precária. Há sinais de batalha e de incêndios bem antigos, o que pode denotar que os Olmecas teriam aniquilado os habitantes mais antigos e tomado posse de seu território.

Depois da conquista do território, os Olmecas começam a desenvolver sua civilização no local. Ocorre um aumento populacional muito grande e provavelmente se forma a casta governante composta por sacerdotes, ao que tudo parece indicar, mas também poderiam ser guerreiros (ou ainda sacerdotes-guerreiros).

Em torno do primeiro século de ocupação da região é construído o platô de San Lorenzo e é possível que o sítio com esse nome (excluídos Potrero Nuevo e Tenochtitlán) tenha se tornado sede de governo dos Olmecas.

É possível que tenha ocorrido um aumento populacional muito expressivo devido às boas condições de plantio e de pastoreio (não havia bovinos, nem eqüinos, mas ainda assim havia animais aos quais se domesticar, um exemplo eram os cachorrinhos sem pêlos do México, outro, os perus) e que, sendo assim, os governantes tenham incentivado seus súditos a realizar uma expansão para outras regiões.

4.1.2 – Tres Zapotes (1500 – 1200 a.C.):

Tres Zapotes, também conhecida como Hueyapan, era uma localidade habitada há muito tempo por populações nativas (ou que haviam chegado à região bem antes do Olmecas), possivelmente havia um centro cerimonial razoável e até alguns guerreiros a serviço de uma possível elite naquela região, porém, nada muito elaborado. Alguns chegam a afirmar que os habitantes originais de Tres Zapotes eram verdadeiro semi-nômades só estacionados naquele sítio.

Possivelmente esses povos que habitavam Tres Zapotes estivessem criando problemas para o nascente poderio de San Lorenzo, por esse motivo, a casta governante teria enviado tropas àquela região e exterminado com essas populações (talvez tenha havido escravizações ou até assimilações de sobreviventes), o fato é que em meados do século XII a.C., Tres Zapotes passa a ser ocupado pelos Olmecas. Era, possivelmente o início da expansão daquele povo.

4.1.3 – Tres Zapotes (1200 – 600 a.C.):

Depois que a cidade foi ocupada pelas tropas Olmecas iniciou-se a construção de melhorias e de monumentos. Com efeito Tres Zapotes tornou-se um verdadeiro centro cerimonial Olmeca, sendo ali encontrada a primeira das Cabeças Colossais. Também em Tres Zapotes foi encontrada uma outra Cabeça Colossal tão instigante quanto as demais, mas por outro motivo: suas feições não eram negróides, mas sim mongolóides, o que pode sugerir algum contato com países do Extremo Oriente.

Entre 1200 e 600 a.C., Tres Zapotes foi um centro cerimonial de razoável importância dentro do contexto da Zona Metropolitana Olmeca, no entanto, não há nenhum indício que nos leve a crer que esta cidade tenha sido a casa de qualquer tipo de sistema de governo Imperial.


Cabeça colossal sem feições negróides

4.1.4 – La Venta (1100 – 1000 a.C.):

A exemplo de Tres Zapotes e também de Potrero Nuevo e de Tenochtitlán (essas duas últimas, por se localizarem nas proximidades de San Lorenzo, devem ter sido as primeiras a serem ocupadas), La Venta deve ter sido ocupada por Olmecas oriundos de San Lorenzo. Também a exemplo de Tres Zapotes, La Venta era ocupada anteriormente por populações não Olmecas, entretanto, diferentemente daqueles centros, em La Venta parece ter havido algo incomum.

Depois da guerra de conquista que, assim como as demais, parece ter sido rápida e vitoriosa para o lado Olmeca, ao invés de se iniciar a edificação de mais um centro cerimonial comum como o de Tres Zapotes, ocorreu sim a construção de um dos maiores monumentos do mundo Olmeca: a Pirâmide de La Venta.

A Pirâmide de La Venta parece ter sido a primeira Pirâmide da Mesoamérica, dessa forma, os Olmecas teriam criado um novo estilo arquitetônico, no entanto, segundo os poucos Arqueólogos que tiveram a felicidade de visitá-la antes de sua destruição pelas instalações da PEMEX, ela não tinha o mesmo objetivo das Pirâmides de Maias e Astecas; ou seja, ela não havia sido construída para servir de pedestal a um templo. Ao contrário, ela havia sido construída para servir, ao que parece, como um monumento por si só. Ao que parece, ele lembraria um vulcão, fato que comprovaria que os Olmecas seriam um povo oriundo de regiões montanhosas (ou ainda que, há exemplo de povos como os Incas, eles cultuassem montanhas como deuses).


Piso em mosaico com a cabeça de um Jaguar, mais
um dos monumentos de La Venta

No entanto, ainda há que se solucionar uma questão: por que os Olmecas escolheram La Venta para construir uma verdadeira cidade de luzes, como o fizeram? Teria o lugar algum significado religioso prévio ou teriam os Olmecas se encantado com a localização do sito (La Venta ficava numa ilha fluvial)? Ainda há a possibilidade de a guerra de conquista ter sido muito trabalhosa de ser vencida, o que justificaria a construção de um monumento em homenagem à sua vitória. O fato é que da expansão inicial dos Olmecas, La Venta parece ter sido a última parada.

Talvez realmente a guerra de conquista de La Venta tenha sido muito trabalhosa e, por isso, os Olmecas tenham decidido reter temporariamente os seus impulsos expansionistas. Além disso, há que se pensar que o contingente populacional acumulado por San Lorenzo em pouco mais de um século não permitiria uma expansão desenfreada que perdurasse por muito tempo.



4.1.5 – La Venta (1000 – 800 a.C.):


Mapa de La Venta, a Capital Olmeca
Depois do estabelecimento de um centro cerimonial Olmeca em La Venta, os dois séculos que se seguiram viram a cidade receber um número muito grande oferendas votivas. Há um número de enterramentos cerimoniais (em geral machadinhas de pedra gravadas) e, certamente há uma presença cerimonial muito forte na região, o que faz com que a teoria de que a região talvez tivesse algum significado religioso importante para os Olmecas seja reforçada.

A civilização Olmeca aqui se desenvolve de uma forma peculiar, mas que é a tida como a mais verdadeiramente Olmeca de todas. Praticamente não existem cerâmicas nesse período, o que denota que não devia haver população fixa, apenas talvez um reduzido número de sacerdotes e de guerreiros (ou sacerdotes-guerreiros) que administrasse a cidade. Não parece ter havido vilarejos periféricos a La Venta nesse período, no entanto, a construção de monumentos e palácios ia de vento em popa.


La Venta parece ter estado, neste período, para os Olmecas assim como Teotihuacán esteve para os Astecas, ou seja, seria sua capital espiritual.

4.1.6 – San Lorenzo (900 – 600 a.C.):

Depois de sua fase expansionista inicial, San Lorenzo (mais uma vez excluídas Potrero Nuevo e Tenochtitlán) estagnou-se. Num dado momento parece que todos os esforços financeiros que inicialmente estiveram voltados para a expansão e conquista de outras regiões haviam se transformado em esforços religiosos e culturais, sendo que, à partir do ano 1000 a.C, as oferendas e o embelezamento de La Venta pareciam ser as únicas coisas a importar para a casta governante Olmeca.

Todo o século X a.C. foi marcado por uma certa desmilitarização Olmeca, o que pode ter ocasionado uma das duas seguintes coisas:


Exemplo de estátua com os braços
articuláveis


1ª) Frente aos pesados tributos que seus governantes lhes impunham e frente a um nítido desinteresse destes em relação a sua cidade, em detrimento de seu recente interesse em sua bela capital espiritual (La Venta); a isso somadas a facilidade da desmilitarização constante e a revolta devido aos privilégios da casta governante em relação às demais pessoas. Os Olmecas de San Lorenzo teriam se revoltado e, insurgidos, derrotado a casta governante de modo a quebrar todo o sistema que se havia estabelecido até então. O centro cerimonial teria sido queimado e abandonado e os poucos sobreviventes da casta governante teriam ido se refugiar em La Venta (ou ainda, seriam justamente os que estivessem em La Venta durante a insurreição). Depois da deposição dos governantes, os clãs teriam passado a viver por conta própria em seus respectivos vilarejos e San Lorenzo teria deixado de ser um centro cerimonial Olmeca, ficando abandonado.

2ª) As guerras de expansão e conquista realizadas nos séculos XI e XII a.C. teriam expulsado vários povos de suas terras. Muitos dos membros dessas populações foram exterminados nas batalhas, outros foram escravizados ou assimilados pelos Olmecas e continuaram vivendo onde viviam, mas sob a tutela Olmeca. No entanto, muito deveriam ter fugido e se refugiado em comunidades fora dos pântanos da Zona Metropolitana. Esses indivíduos teriam criado toda uma cultura de ódio àqueles que lhes expulsaram das terras onde a água é abundante e a colheita é fértil e, depois de cerca de 150 anos, ao verem o enfraquecimento de seus inimigos, resolveram se vingar. Realizaram um ataque maciço à capital daquele povo visando acabar com suas estrutura de poder. O ataque pode ter-lhes custado a vida de milhares de pessoas (sempre é difícil realizar um cerco, ainda mais quando não se tem tecnologia de cerco) e, sendo assim, não lhes foi possível conquistar o centro cerimonial derrotado (além disso, os Olmecas sobreviventes podem ter ateado fogo em San Lorenzo para evitar que suas coisas caíssem nas mão dos inimigos). Esses povos teriam se enfraquecido definitivamente com esse (ou esses) ataque e, sendo assim, nos anos seguintes teriam sido exterminados (ou conquistados) pelos Olmecas em seu renovado ímpeto expansionista.

Qualquer uma das duas versões pode ser verdadeira, mas o fato é que por volta do ano 900 a.C. San Lorenzo foi totalmente abandonada depois de sérios sinais de batalha. A cidade ficou abandonada por cerca de trezentos anos e, nesse período foi, repetidas vezes, depredada. As estátuas de San Lorenzo (inclusive as Cabeças Colossais) têm marcas de buracos feitos com um nítido intuito vandalizador, não com o intuito de saque para a construção de outras coisas. Estátuas decapitadas e desmembradas, construções postas abaixo, afrescos e baixos-relevos riscados... Marcas da revolta de alguém contra a casta dominante Olmeca de San Lorenzo. Ícones brilhantes da arte Olmeca foram totalmente perdidos com esse vandalismo, dentre eles o mais impressionante era realmente uma estátua de braços e cabeça articuláveis, uma maravilha da arte e da engenharia Olmecas.

Depois da destruição do centro cerimonial de San Lorenzo, as populações dos vilarejos periféricos permaneceram habitando onde estavam, o que leva a crer que a primeira hipótese para a destruição do sítio é a mais provável, visto que os habitantes, revoltados, iriam freqüentemente demonstrar mais um pouco de sua ira contra os antigos símbolos do poder que lhes oprimia. Além disso, caso tivesse havido um ataque externo maciço, as populações certamente ficariam receosas acerca de outro ataque e, sendo assim, se retirariam, buscando o abrigo de outro centro cerimonial Olmeca.

4.1.7 – La Venta (800 – 450 a.C.):

Depois da destruição de San Lorenzo, La Venta começou a se tornar o principal centro cerimonial da cultura Olmeca. Começa a haver um aumento das populações periféricas, mas, principalmente, uma movimentação maior de vida no próprio centro cerimonial.

É possível que depois da destruição das antigas elites governantes, a nova elite (agora radicada em La Venta) tenha se composto de uma forma diferente. É provável, segundo as indicam as próprias tradições Mesoamericanas, que os Olmecas tenham passado a ter um (talvez dois) governante apenas, sendo assistidos por uma espécie de Conselho de Notáveis. O governo de um único indivíduo é muito mais eficiente em tempos de conflitos, afinal, as ordens são dadas e executadas de uma forma direta (além disso, o costume Mesoamericano era que os povos fosse governados dessa forma, por um Tlatoani (algumas vezes, como no caso Asteca, assistido por um segundo governante) aconselhado por uma espécie de Senado; os povos Mesoamericanos desenvolveram um governo que (apesar de diferente em muitos pontos) se assemelhava em muitos pontos à República Romana).

Depois do susto que a destruição de San Lorenzo lhes causou, os novos governantes se tornaram muito mais militaristas do que os anteriores um dia haviam sido. Inicialmente os Olmecas passaram a se recompor militar, política e financeiramente do desastre do final do século X a.C., mas por volta do início do século VI a.C. estavam prontos para reiniciar sua expansão e entrar na era de ouro da cultura Olmeca.

A partir de La Venta os Olmeca se expandiram muito (como veremos mais adiante) e, além de reunificarem a Zona Metropolitana, chegaram a conquistar (ou mais provavelmente colonizar) regiões muito distantes.

As pedras de La Venta agora eram buscadas nas montanhas e Los Tuxtlas, há mais de 100 km de distância da cidade, o que indica um imenso poderio Olmeca nesse período. Foi também nesse período que podem ter ocorrido os principais contatos com povos estrangeiros (caso tenha havido algum, como veremos mais adiante) e também foi nesse período que se desenvolveram até o apogeu as artes, a religião e a cultura Olmecas. É possível que nesse período tenham sido descobertas a escrita e o calendário.

4.1.8 – San Lorenzo (600 – 400 a.C.):

Depois da destruição de San Lorenzo, por volta de 900 a.C., qualquer vestígio de uma unidade Olmeca desfez-se no ar. Tenochtitlán e Potrero Nuevo, bem como Tres Zapotes ficaram ao léu, cada qual tendo se tornado uma espécie de cidade independente. O período que vai da destruição de San Lorenzo até o ano de 600 a.C. foi uma espécie de “Idade das Trevas” Olmeca.

Porém, por volta de 600 a.C., La Venta já era poderosa militarmente e tinha um contingente populacional grande o suficiente para poder iniciar sua expansão. Os povos dos vilarejos que outrora estavam na periferia de San Lorenzo foram submetidos; e o próprio centro cerimonial reocupado. San Lorenzo estava em ruína depois de trezentos anos de pilhagens, vandalismo e ação da natureza. Por isso, teve que ser reconstruída.

Reconstruir uma obra faraônica como a antiga capital (lembrem-se que ela era edificada sobre um platô artificial) foi algo que custou muito aos Olmecas, mas também foi algo que os governantes de La Venta só devem ter se proposto a fazer por conhecerem muito bem a História de seu povo e, sendo assim, tentarem resgatar sua glória passada.

A reconstrução de San Lorenzo deixou a cidade novamente habitável, mas com seu centro cerimonial sendo nada mais do que uma réplica em tamanho reduzido do que o fora no passado. O período, da História de San Lorenzo, que se seguiu desde a reconstrução da cidade por La Venta até o seu novo abandono, por volta do século IV a.C., é conhecido como período Palangana.

La Venta conquistou também os centro cerimoniais de Potrero Nuevo e de Tenochtitlán. Neste último há vários indícios de que tenham construído um campo para a prática do Jogo de Pelota, mas tarde chamado de Tlachtli, sendo assim, sua expansão não teria sido apenas militar, mas também cultural e não há indícios que comprovem que tenha havido grande resistência dessas cidades em se renderem à autoridade de La Venta. É possível que tenham se rendido diplomaticamente para evitar uma guerra e ainda receber melhorias, como, por exemplo, o campo de Tlachtli, em Tenochtitlán.

San Lorenzo (Potrero Nuevo e Tenochtitlán incluídas) ficou sob o domínio de La Venta até o final do século IV a.C., quando finalmente a civilização Olmeca chegou a seu fim (como veremos mais adiante).

Depois de ter sido novamente abandonada, por volta de 300 a.C., San Lorenzo e suas cidades vizinhas só voltaram a ser reocupadas por volta do ano 900 d.C., quando o civilização Olmeca já estava extinta há mais de 1000 anos.

4.1.9 – Tres Zapotes (600 – 100 a.C.):

A exemplo de San Lorenzo, Potrero Nuevo e Techtitlán, Tres Zapotes também foi reunida ao núcleo Olmeca depois de ser conquistada por La Venta
.
A cidade nunca teve grande importância no contexto político-econômico e militar Olmeca, sua importância, no entanto reside em dois fatos principais: a Cabeça Colossal com feições mongolóides e o fato de ter sido a única cidade Olmeca a continuar existindo mesmo depois do fatídico século IV a.C., que levou consigo a civilização Olmeca.

É possível que a explicação para o declínio da civilização Olmeca resida nas ruínas de Tres Zapotes. Isso porque, à partir do século III a.C. a cidade passa a se transformar cada vez mais numa cidade Maia, chegando a ter, por um certo período de tempo, elementos sincréticos das duas culturas. Pode-se ver nitidamente em Tres Zapotes elementos típicos de cidades Maias como Kaminaljuyú e Izapa, além de ícones Maias mais tradicionais como a cabeça troféu. É muito provável que Tres Zapotes tenha, numa certa época de sua existência, passado a cultuar os Deuses Maias e a praticar sacrifícios humanos.

Depois de 100 a.C. já não é mais possível encontrar traços da cultura Olmeca em Tres Zapotes, o centro havia completado sua transição rumo à cultura Maia. Sua História, como centro cerimonial, ainda perduraria por muitos e muitos anos, até o declínio da cultura Maia, por volta do século d.C..

4.1.10 – La Venta (450 – 350 a.C.):

Em meados do século V a.C. a cultura Olmeca (baseada em La Venta) começa a entrar em declínio. Inicialmente as rotas de comércio vão tendo seus fluxos diminuídos; depois é perdido gradualmente todo o contato com as colônias, depois a própria autoridade de La Venta sobre os centros da Zona Metropolitana começa a se enfraquecer até que, por fim, por volta de 350 a.C., a cidade é completamente abandonada não restando sequer um habitante seja do povo seja das elites.

Muitos anos depois do abandono de La Venta (que ao que parece foi pacífico e não em decorrência de uma guerra, como aconteceu em San Lorenzo) a cidade teve o mesmo destino que a antiga capital havia tido no período em que esteve deserta, ou seja, foi ataca, vandalizada, saqueada (sendo que até mesmo as oferendas e, talvez os cadáveres, foram desenterrados) e queimada. O motivo de tais agressões permanece um mistério, mas, como veremos mais adiante, nos é possível especular sobre os motivos que levaram ao fim dessa que talvez tenha sido a primeira civilização a alcançar o estágio de alta cultura em toda a América Pré-Colombiana.

4.2 – A Expansão Territorial:

No período que vai de 600 a 450 a.C., como já foi referido, a cultura Olmeca, radicada em La Venta, estava em franca expansão. A nova elite já estava totalmente reconstituída da destruição de San Lorenzo, em 900 a.C. e a gora estava pronta para reunificar o povo Olmeca. Depois de feito isso, os Olmecas não pararam, seu poderio só fazia crescer e, sendo assim; agora com o advento do apoio populacional de Tres Zapotes, Potrero Nuevo e Tenochtitlán; partiram rumo à conquista de novas terras. Essas conquistas levaram a civilização Olmeca a se estender por uma área muito vasta, áreas esta que, como já afirmei anteriormente, viria a se transformar (a grosso modo) no que hoje conhecemos como Mesoamérica.

4.2.1 – Os Vales de Oaxaca:

A primeira região fora da chamada Zona Metropolitana com a qual os Olmecas mantiveram contato foi a região dos Vales de Oaxaca. Uma região de vales cercados de montanhas onde tremores de terra são uma constante.

Ao que parece, os primeiros contatos dos Olmecas com esta região que se situa exatamente ao sul-sudeste da Zona Metropolitana se deram por volta do ano 1100 a.C. e, portanto, ainda no período de preponderância de San Lorenzo, durante a primeira fase da expansão Olmeca e conseqüente formação da Zona Metropolitana.

Como se sabe, esta região foi o berço de duas importantes culturas Mesoamericanas: Zapotecas e Mixtecas. Os primeiros são nitidamente mais antigos do que os últimos tendo surgido como civilização por volta do século V a.C., sendo assim, ainda na época Olmeca.

Os indícios arqueológicos apontam para contatos pacíficos e comerciais entre os Zapotecas primitivos (anteriores, por exemplo, à edificação de Monte Alben, o maior centro daquela cultura) e os Olmecas centralizados em San Lorenzo. Isso pode denotar uma série de coisas.

Primeiramente é interessante notar que contatos comerciais geralmente se davam através de acordos Estatais, ou seja, entre os governantes das diferentes regiões, sendo assim, depois da destruição de San Lorenzo, a nova elite de La Venta teria se apressado em continuar os contatos comerciais que já mantinha quando estava em San Lorenzo para não perder muito de seus rendimentos financeiros. Isso teria sido facilitado por dois fatores: inicialmente, La Venta era muito mais próxima dos Vales de Oaxaca do que San Lorenzo ou qualquer outro centro cerimonial da Zona Metropolitana. Em segundo lugar, quem quer que tenha destruído a antiga capital Olmeca, não estava interessado em (ou não tinha meios para) expurgar completamente essa civilização, sendo assim os contatos comerciais Olmecas não devem ter sido abalados.

É possível que os Zapotecas primitivos fossem muito mais atrasados do que os Olmecas, mas que lhes servissem como bons peões em alguma causa (talvez fossem uma espécie de zona tampão ou coisa de gênero), por esse motivo e ainda talvez por um escasseamento de recursos depois da formação da Zona Metropolitana (ou ainda por uma mudança súbita nos interesses da civilização Olmeca, fazendo tornar-se religiosa no lugar de expansionista, como já foi referido), os Olmecas não se empenharam em conquistar a região dos Vales de Oaxaca, limitaram-se a contatos amistosos.

As duas regiões, entre 1100 e 900 a.C., mantiveram uma relação de simbiose, sendo que os Olmecas se favoreciam dos produtos dos povos de Oaxaca (como a magnetita e a hematita) e estes, por sua vez, recebiam (à conta gotas) avanços culturais e tecnológicos daqueles com quem mantinham relações.

Depois de 900 a.C., com a destruição de San Lorenzo, parecem estreitar-se mais os laços entre os Olmecas e os Zapotecas primitivos. É justamente entre 900 e 600 a.C. que Mitla, outra grande cidade Pré-Colombiana da região é fundada, possivelmente com o patrocínio Olmeca. Além disso, os primeiros trabalhos de construção de Monte Alban também se iniciam nesse período (é verdade que a cidade só ficaria completamente pronta por volta de 400 a.C.), possivelmente com a ajuda dos Olmecas.

Provavelmente os Olmecas de La Venta estivessem interessados em criar uma espécie de Estado Vassalo que lhes ajuda-se no caso de uma nova crise como a que havia ocorrido em San Lorenzo. Mixtecas e Zapotecas passam a guardar uma dívida cultural imensa com os Olmecas. Seu estilo arquitetônico, sua escultura e até, possivelmente sua forma de governo haviam sido inspirados nos correspondentes Olmecas. É certo, no entanto, que estas civilizações não foram um prolongamento da civilização Olmeca, apenas têm para com ela uma forte dívida cultural (é possível que nem sequer tivessem chegado ao estágio evolutivo ao qual chegaram sem os impulsos Olmecas, mas isso não lhes tira o mérito próprio), nada mais.

Por volta de 640 a.C., um centro cerimonial dos Vales de Oaxaca chamado Monte Negro foi completamente destruído por um incêndio. Os Arqueólogos acreditam que este incêndio se deveu a uma batalha perdida e, talvez isso seja um indício de que a região realmente fosse uma zona tampão para os Olmecas, visto que dentre todas as cidades da região, Monte Negro era, talvez, a que mais sofresse a influência Olmeca, representando realmente uma espécie de posto avançado daquela civilização.

Pode-se dizer que os Vales de Oaxaca e, conseqüentemente, as civilizações Mixteca e Zapoteca, tenham sido Estados agregados ao poderio Olmeca e mais, tenham sido as responsáveis pelo engrossamento do poder de La Venta e, dessa forma, tenham possibilitado a expansão daquela cidade.

4.2.2 – O Planalto Central Mexicano:

Esta região é hoje a mais importante do México, pois é lá que se situa a Cidade do México, sua capital. Desde o período Asteca e até antes, no período Tolteca (quando Tula era a capital) tem sido assim, mas nem sempre foi dessa maneira. No período Olmeca a região do Planalto Central Mexicano era extremamente atrasada, com tribos nômades convivendo com tribos semi-nômades e recém assentadas. O único atrativo dessa região para uma cultura tão mais avançada como a Olmeca foi realmente a diversidade de produtos, visto que, devido à altitude elevada da região, o clima se torna radicalmente diferente daquele encontrado na Zona Metropolitana e, sendo assim, a região produz gêneros bem diferentes daqueles que eram comuns aos Olmecas.

Os primeiros contatos com esta região também se deram na época de preponderância de San Lorenzo (1200 – 900 a.C.), mas neste período é possível que os Olmecas apenas tivessem mapeado a região (isto é modo de dizer, não há indícios de que os Olmecas conhecessem a tecnologia da confecção de mapas, mas mapear não significa apenas fazer mapas, mas também, conhecer) e estabelecido contatos amistosos. Talvez um pseudo-comércio baseado em escambo. Nada mais do que isto.

É muito provável que entre 900 e 600 a.C. todos os contatos entre os Olmecas e essa região tivessem se extinguido, de modo que só fossem ser restabelecidos depois do início da expansão de La Venta, no século VI a.C..

Por volta do século VI a.C. em diante é possível constatar um aumento muito grande de artefatos Olmecas encontrados na região. Esses artefatos variam desde espelhos de hematita até estatuetas do Deus Jaguar, mas nesta região há uma espantosa incidência de um tipo de estatuetas Olmecas que são, no mínimo, curiosas. As chamadas estatuetas Baby-Face.

Estas estatuetas representam bebês (há controvérsias se representam realmente bebês, a mim parecem mais homens adultos) totalmente desnudos, mas sem nenhuma marca de definição sexual. O mais intrigante é que os rostos de tais imagens são muito semelhantes às feições características dos povos orientais (se assemelham a homens Chineses).


Exemplo de figura baby-face, muito
comum no Planalto Central Mexicano


É possível que os Olmecas tenham iniciado uma forte rota de comércio com esta região, de modo que os produtos das zonas mais frias do México pudessem chegar à Zona Metropolitana. Para manter organizada uma região que não dispunha de estruturas de governo nem de civilização avançada os Olmecas de La Venta devem, possivelmente, ter instalado na região uma espécie de sede de armas, ou seja, um posto militar onde tropas permanecessem aquarteladas sob as ordens de algum dignatário de La Venta para obrigar os nativos a produzir e entregar aquilo que os Olmecas quisessem. Se tal prática tiver realmente ocorrido, então este pode ter sido, juntamente com a inevitável expansão da religião Olmeca, o ponto de base para o surgimento dos Estados posteriores do Planalto Central Mexicano, dos quais o primeiro foi Teotihuacán, por volta de meados do século II a.C..

Não a toa que o Planalto Central Mexicano se tornou (no futuro, perdurando até hoje) a região mais importante do México, afinal, ela têm água, solos férteis e o mais importante: defesas naturais contra invasores e boa localização geográfica (fica praticamente no centro do país). Sendo assim, muitos pesquisadores acreditam que o domínio dessa região (um importante ponto estratégico) pelos Olmecas possibilitou os grandes passos seguintes que sua expansão daria.

4.2.3 – O Oceano Pacífico:

Esta região é a mais difícil de se estudar e de se enquadrar dentro do panorama Olmeca. Nela há muitos vestígios dessa civilização, mais vestígios do que seria de se esperar de uma colônia tão distantes da Zona Metropolitana, principalmente porque os Olmecas não possuíam estradas, apenas, talvez algumas picadas na mata, o que dificultava muito a comunicação entre essas duas regiões.

No entanto, o que mais pode vir a nos intrigar é justamente o sítio de Chalcatzingo, onde os vestígios Olmecas são muito abundantes e, sobretudo, mais antigos do que deveriam ser. Digo isso porque segundo a cronologia que se pode acompanhar e que está sendo desenvolvida neste texto, não deveriam haver vestígios Olmecas nessa região que datassem de antes de 600 a.C., uma vez que antes disso La Venta ainda não tinha iniciado sua expansão para além dos limites da Zona Metropolitana. No entanto, a Arqueologia do Estado de Guerrero aponta que os vestígios Olmecas de Chalcatzingo remontam há 900 ou 800 a.C..

Dessa afirmação podemos extrair que, talvez, os que pensam que os Olmecas sejam oriundos da costa do Oceano Pacífico estejam corretos. Entretanto, apesar dos diversos indícios que podem nos levar a crer nesta possibilidade, temos que nos ater a uma informação muito importante: a Arqueologia de Guerrero é muito pouco confiável, sendo imprecisa e parcial.

Depois de tomarmos a informação acima em conta, é bom que saibamos que a cultura Olmeca da região próxima ao Pacífico é muito peculiar. Há sítios, como Gualupita, onde a cultura Olmeca acabou sendo fundida à cultura local (mais atrasada), mas com a preponderância desta sobre a invasora. Há também uma grande incidência de pinturas rupestres, coisa que não ocorre na Zona Metropolitana, nem em nenhuma outra área de presença Olmeca confirmada.

Além das pinturas rupestres, também podemos constatas a existência de templos subterrâneos, localizados em cavernas ou grutas profundas, marcados por baixos-relevos e desenhos, além de um provável culto a uma Deusa da Chuva, um Deus do Milho e, talvez, a uma Serpente Emplumada.

Se a Arqueologia de Guerrero estiver mesmo enganada à respeito das datas atribuídas a Chalcatzingo, então o mais provável é que a região tivesse sido colonizada de uma maneira semelhante àquela empregada no Planalto Central, ou seja, com um posto (ou postos) militar controlado por um dignatário e com tropas aquarteladas no intuito de, através da força, obrigar os povos ainda não adeptos de formas de governos muito elaboradas a trabalhar segundo a vontade Olmeca.

Só nos resta saber uma coisa. O que motivou os Olmecas a querer colonizar a costa do Pacífico? Sim, porque o que os motivou a colonizar o Planalto Central teriam sido os produtos exóticos que aquela região poderia proporcionar, mas a costa do Oceano Pacífico não produzia nada tão estranho aos costumes Olmecas que justificasse sua colonização. Para isso a explicação é das mais simples. Um exame mais acurado nos objetos de jade Olmeca nos mostra que boa parte das jades e jadeítas utilizadas pela cinzelagem daquele povo são oriundas de minas localizadas nas proximidades do rio Balsas, perto do Pacífico. O controle de minas de jade justificaria um contingente grande (para impedir roubos), mas compacto (apenas ao redor das minas e acompanhando as caravanas que levavam a jade até a Zona Metropolitana), sendo assim, é possível que a vida daqueles povoados coloniais se restringisse às cercanias das minas que, em geral são subterrâneas, o que explicaria a presença única de templos, afrescos e baixos-relevos em cavernas e grutas.

4.2.4 – A América Central:

Provavelmente a influência Olmeca na América Central e Sul do México não foi tão forte quanto aquela exercida nos Vales de Oaxaca, no Planalto Central ou na costa do Pacífico. Há poucos indícios de centros cerimoniais dessa cultura, se bem que existam muitas peças de arte Olmeca menor.

Devemos, no entanto, levar em consideração que peças pequenas (estatuetas, medalhões, lanças...) não indicam uma presença real de uma civilização numa dada região, apenas a difusão de sua cultura até aquele ponto. Indicativos verdadeiros da presença de um povo num local são palácios, estátuas grandes, baixos-relevos detalhados, ou seja, bens imóveis cuja edificação só se justificaria se membros daquele povo tivessem a real intenção de habitar aquela região por um período de tempo razoável.

O atual Estado de Chiapas (uma região onde a presença Maia foi muito forte, visto que constituía parte da Área Central daquela cultura, porção que foi a segunda a ser ocupada pela expansão Maia, segundo os estudo realizados) é uma região muito rica em vestígios Olmecas. Ele não fica muito distante ao sul dos Vales de Oaxaca e, sendo assim, é possível que sua penetração pelos Olmecas tenha atiçado a fúria dos Maias e originado guerras, talvez até o ataque a Monte Negro (como já foi referido), talvez fosse contra os Maias da Área Central que os Olmecas desejassem se proteger utilizando para isso o seu possível Estado tampão de Oaxaca.

Xoc, uma região muito distante da Zona Metropolitana, parece ter sido uma tentativa Olmeca de estabelecimento dentro do país Maia. Isso porque lá as esculturas são muito bem trabalhadas e a arte em geral lembra muito a de La Venta. Talvez fosse uma tentativa de impressionar pela grandioside.

Em Pijiapán, há baixos-relevos Olmecas que estão com os rostos raspados num evidente esforço de tornar inidentificáveis as feições que estavam entalhadas. É possível que a cidade tenha sido conquistada e os Olmecas tenham sido expulsos, dessa maneira, o povo que os conquistou quis se livrar da imagem dos inimigos.

O Xoconochco, a região que os Astecas mantinham sob seu controle dentro das Terras Altas Maias (a primeira parcela do país Maia a ter sido ocupada, possível berço dessa civilização e que foi densamente povoado entre 1500 a.C. e 400 d.C., para depois praticamente ser esvaziada, na época Asteca), parece ter sido uma importante zona de passagem de caravanas Olmecas. Há muitos indícios de um freqüente trânsito de mercadores daquele povo nessa região, no entanto, não há indícios de que os Olmecas tenham se fixado ali. É interessante notar que antes do período Maia Clássico (que só se inicia por volta de 200 d.C.), as Terras Altas eram o principal centro da civilização Maia. Por isso, é muito provável que as caravanas de mercadores Olmecas tivessem que pagar tributos para poderem passar por aquela região e, os vestígios daqueles tributos são hoje encontrados em Xoconochco.

O mais meridional vestígio comprovadamente Olmeca encontra em El Salvador, no sítio de Las Victorias e trata-se de um baixo-relevo, o que indica (como já foi referido) uma presença mais duradoura e até uma possível ocupação.

É possível que minas de jade na Costa Rica tenham atraído mercadores Olmecas, no entanto a presença duradoura não é comprovada, o que é mais provável é que, na impossibilidade de estabelecer uma colônia para forçar os nativos a extrair jade para eles, os Olmecas tenham se contentado em comercializar o minério com os nativos que já o extraíam por si próprios. Uma guerra tão longe de cãs e no seio do território Maia não seria muito sábia.

Por fim, nas proximidades de Tonalá (que apesar de ser homônima do rio onde se situava La Venta, não é próxima a ele), na cidade Tzutzuculi, a presença Olmeca parece ter sido forte entre os anos de 545 e 340 a.C.. Entretanto, o centro cerimonial não parece ter sido Olmeca, mas sim, dominado por eles, visto que há vestígios de uma população muito vasta para ser Olmeca, afinal, a região se situava muito distante da Zona Metropolitana.

4.2.5 – Chavin de Huantar: Olmecas na América do Sul?

Assim como os Olmecas estão para a Mesoamérica, a civilização de Chavin de Huantar está para as civilizações da América Andina. Também não se sabe seu verdadeiro nome, sua forma de governo, se formou ou não um Império ou mesmo quais tecnologias conhecia. Sobre Chavin de Huantar sabe-se apenas duas coisas (quer dizer, não apenas, mas são estas as duas coisas de maior relevância para este texto): que este sítio arqueológico foi, por muito tempo, uma espécie de Teotihuacán Andina, ou seja, um centro de peregrinações mesmo depois de abandonado e que fora o centro de uma religião que tinha como Deus um certo Deus Jaguar.

Calcula-se que o estilo Chavin date aproximadamente do ano 1200 a.C., mas o centro cerimonial é muito mais recente, tendo sua construção iniciada não antes de 800 a.C.. Certamente Chavin de Huantar não foi o centro gerador da cultura que difundiu, mas o marco do início de seu apogeu.

Para alguns, a mera semelhança de credo entre Chavin e os Olmecas (o Deus Jaguar) já é o bastante para afirmar que a cidade Sulamericana teria sido fundada ou, ao menos conquistada, por aquele brilhante povo Mexicano. As teorias que falam sobre contatos entre a América Andina e a Mesoamérica são muito fortes, em especial no período imediatamente anterior à conquista, quando uma estava dominada pelo Império Inca e a outra pelo Asteca, ambos Estados fortes, expansionistas, centralizados e organizados o suficiente para empreenderem expedições (mesmo que meramente diplomáticas) a terras tão longínquas. No entanto, se formos acreditar na teoria que diz que a América foi povoada à partir do Estreito de Bering, então, temos que pensar que os homens da América Central e do Norte (incluindo os da Mesoamérica) teriam um dia vindo para o Sul e se tornado os homens da América do Sul, sendo assim, não haveria o porque de se estranhar os contatos entre a Mesoamérica e a América Andina, visto que esta só teria se formado devido a migrações de populações daquela.

Entretanto, como afirmei no início de meu texto, existem teorias (que cada dia são menos vistas como absurdas) de que o homem poderia ter chegado à América em levas marítimas oriundas do Extremo Oriente, levas essas motivadas pela vontade desesperada de fugir da Era Glacial. É claro que à História dos vencedores (e o que são os países da América do Norte hoje perante o mundo senão os vencedores?) é muito mais interessante que suas raízes se mostrem originais e que, de uma certa maneira, o restante do mundo (ou, no caso, do continente) seja considerado como o seu “quintal” por comprovações (parciais, eu diria) arqueológicas. Dessa forma, não é de se estranhar que a historiografia oficial (a dos vencedores) esteja demorando tanto em aceitar como possível a teoria da chegada via mar, afinal (como já referi anteriormente), quem fugiria do frio do norte indo mais para o norte ainda?

Se levarmos em consideração as teorias de que o homem possa ter chegado à América pelo mar, fica mais fácil de se explicar várias coisa, dentre elas, o porque do nível de “civilização” ter sido alcançado na Mesoamérica e na América Andina na mesma época, coisa que não seria muito lógica, se a segunda tivesse sido povoada posteriormente e, conseqüentemente, tivesse sido submetida a todo um processo pré-civilizatório tardio em relação à primeira.

Ainda levando em conta a teoria de que o homem teria chegado à América pelo Oceano Pacífico, nós poderíamos pensar que talvez o culto ao Deus Jaguar tivesse surgido em Chavin, por volta de 1200 a.C. e que, de lá, tivesse se difundido (como realmente se difundiu por toda a América Andina) até a Mesoamérica, sendo assim, talvez os Olmecas tivessem sido convertidos pela religião de Chavin de Huantar.

Seguindo, agora, a linha ortodoxa da História, podemos dizer que ultimamente está havendo uma tentativa relativamente grande se modificar as descobertas e de se adulterar datas a fim de fazer com que se acredite que a elite Olmeca, após o abandono inexplicável de La Venta, talvez tenha vindo se hospedar num centro cerimonial distante, na América Andina, que tivesse sido fundado (ou conquistado) por ela no limiar de sua expansão territorial: Chavin de Huantar. A julgar por essa adulteração Histórica, pode-se, no futuro, chegar a conclusões ainda mais geniais (comparáveis àquelas que dizem que um dia houve o Império da Atlântida e que dele surgiram tanto o Egito, quanto os povos da América, porque ambos faziam Pirâmides. Mesmo sendo ambos distantes mais de 1000 anos no tempo e mesmo as Pirâmides de uns não tendo nada haver com as dos outros) de que os Olmecas de Chavin teriam resistido à uma terceira aniquilação e, formado o Império Wari, que depois de aniquilado, teria (através de suas elites (adivinhem... Olmecas) sobreviventes) dado origem ao poderio Inca. Seria, no mínimo interessante, digno de um romance histórico, mas não de uma teoria séria a ser aceita como “verdadeira”.

4.3 – O Império Olmeca:

Neste sub-item irei tentar abstrair; baseado nos vestígios arqueológicos, mas, sobretudo, em comparações com outras sociedades Mesoamericanas; sobre a forma como estava organizado o possível Império Olmeca.

Como já me referi, os Olmecas primeiro se estabeleceram em San Lorenzo e, de lá, povoaram a Zona Metropolitana criando vários centros cerimoniais, dentre os quais, os mais notáveis foram Potrero Nuevo, Tenochtitlán, Tres Zapotes e La Venta. Inicialmente, o Estado Olmeca deveria ser uma espécie de Oligarquia Aristocrática, onde apenas um pequeno grupo de pessoas controlava o Estado. Digo isso porque em geral, nas sociedades primitivas não há um rei ou governante centralizado, mas sim uma espécie de conselho, em geral dos mais velhos, ou dos líderes de clãs, onde todos debatem e chegam a uma decisão quase democrática (lembrem-se que a Democracia não conta, necessariamente, com a participação de todos, decisões democráticas são, a rigor, decisões tomadas, dentro de um grupo, levando-se em consideração a opinião da maioria em detrimento da opinião da minoria) sobre as questões. Essa forma de governo era aceita como uma tradição pela população e, ao longo dos tempos, esses governantes podem ter se tornado uma espécie de casta (existem três tipos de divisões sociais: castas (são divisões que não permitem mobilidade social alguma, ou seja, o indivíduo tem seu destino determinado de acordo com o seu nascimento), estamentos (onde existe uma mobilidade social quase inatingível, mas possível, dessa forma, o indivíduo pode se ver como um igual a um membro de um estamento diferente do dele, entretanto, dificilmente poderá mudar sua posição social) e classes (que são, ao menos na teoria, as formas mais justas de divisão social, visto que numa sociedade dividida dessa forma, as pessoas são completamente livre para ascenderem ou descenderem socialmente de acordo com seu próprio esforço, entretanto, este modelo não funciona na realidade, pois as sociedades de hoje, apesar de serem consideradas de classes, assemelham-se muito mais a estamentos na prática de seu dia-a-dia) que controlava a política e, talvez a religião. Outra constante nas civilizações antigas era uma profunda vinculação da religião ao Estado, sendo assim, na maioria das vezes os governantes também tinham poderes devido aos desejos divinos e, às vezes, acabavam por serem considerados verdadeiros semi-deuses.

Depois da destruição de San Lorenzo, a sede de governo se transferiu para La Venta e é a partir daí que a civilização Olmeca começa a se tornar aquilo que iria ficar para a História como a primeira alta civilização da Mesoamérica.

Possivelmente a destruição de San Lorenzo se havia dado por causa de uma insurreição popular motivada pela insatisfação com o Conselho Governante. É possível que como sacerdotes, os governantes tenham se esquecido de seus deveres para com o povo e só se lembrado de seus deveres para com os Deuses e, sendo assim, o povo se rebelara e destruira a cidade, provavelmente matando vários (senão todos) dos membros do Conselho Governante.

Os possíveis sobreviventes (deve-se levar em conta a possibilidade, ainda que remota, pensando-se que a cidade foi destruída, de um dos membros do Conselho Governante ter articulado a destruição dos outros para se tornar o único governante) do massacre migraram para La Venta e lá, resolveram mudar a forma de organização de sua política. Se é que apenas um sobreviveu, esta mudança foi simples, caso contrário, é possível que os sobreviventes tenham se reunido e escolhido entre eles um líder, aquele que estaria encarregado de governar tendo que, para isso, apenas ouvir os conselhos dos demais membros. É possível que o Conselho se reservasse o direito de veto às decisões do Imperador (vou chamar ao governante por este título apenas para ilustrar mais facilmente para o leitor), mas também é possível que, na medida em que o Império cresceu, o Imperador tivesse se tornado uma figura muito superior ao Conselho (agora que apenas um detinha o controle do governo, a possibilidade de que ele fosse considerado uma espécie de semi-divindade passava a ser muito grande). Com efeito, em La Venta, os Olmecas se impregnaram do clima religioso da cidade e se transformaram numa Teocracia.

Como Teocracia, os desígnios divinos deveriam agora ser mais importantes do que já eram anteriormente, sendo assim, é possível que a expansão que se iniciou no século VI a.C. tivesse sido motivada (ao menos na teoria) por razões religiosas. Talvez a difusão da crença no Deus Jaguar (que será referido mais adiante). A crença no Bebê Jaguar (que será referida mais adiante) poderia estar ligada à figura do Imperador, ou ainda a uma tentativa de se encontrar o verdadeiro Imperador, sendo que aquele que estaria no governo não seria o soberano de direito, mas tão somente um guardião do trono para aquele que um dia viria (uma idéia que não era muito incomum dentro do contexto Mesoamericano, até mesmo Montezuma II tinha essa visão em relação a Carlos V e, em seu nome, a Cortez).

A expansão Olmeca para fora dos limites da Zona Metropolitana se deu numa velocidade vertiginosamente alta, só mesmo justificável por uma missão divina. É óbvio que interesses financeiros estavam em jogo e, talvez os habitantes de Oaxaca pudessem ser um bom mercado consumidor dos produtos adquiridos nas regiões mais distantes.

A expansão só pode ter sido realizada na forma de guerras e estas guerras podem ter gerado uma nova divisão (talvez casta) na sociedade Olmeca: os escravos.

Além de escravos, a expansão de La Venta deve ter criado um novo mundo para os Olmecas. Como enquadrar os habitantes das demais cidades da Zona Metropolitana? Em pé de igualdade com aqueles de La Venta? E os habitantes das populações dominadas? Seriam todos escravos?

O mais provável é que os Olmecas se tenham dividido da seguinte forma: uma igualdade teórica entre os habitantes das cidades da Zona Metropolitana (digo teórica, porque, o mais comum nos Impérios Mesoamericanos era a formação de Ligas e Alianças, nestas, algumas cidades governavam juntas o Império, como iguais na teoria, mas, na prática, uma das cidades sempre estava em situação de preponderância e acabava controlando até mesmo aqueles que deveriam ser seus iguais); uma situação de neutralidade (mas não de igualdade) em relação às populações dos Vales de Oaxaca; uma situação muito semelhante à pratica da Suserania e Vassalagem Medievais em relação às populações dominadas das colônias e a transformação em escravos (com possíveis sacrifícios humanos) daqueles que houvessem lutado conta os exércitos Olmecas.

Quanto à situação política das colônias, é possível que os antigos chefes dos povos dominados continuassem a governar seus povos, no entanto, as guarnições Olmecas garantiriam que os desejos dos dominadores seriam cumpridos. Essa política em relação a povos dominados era também comum em toda a América Pré-Colombiana (até mesmo na América Andina), visto que poupava os dominantes de ter que se preocupar com a administração das regiões dominadas, tendo somente que mostrar-lhes freqüentemente a força de seus exércitos. O problema de tal política se verificou, no entanto, na época da conquista, quando os conquistadores se aproveitaram da insatisfação dos povos dominados para uni-los contra seus opressores e assim obter reforços vitais em suas fileiras.

É possível (como veremos) que a escrita tenha sido desenvolvida durante a expansão, isso porque é muito difícil administrar um Império sem a presença de registros escritos. Caso isso seja verdade, é possível que existisse algum tipo de escola responsável pela educação (instrução nas letras) dos filhos das elites para que no futuro eles viessem a poder controlar o povo utilizando-se de suas fraquezas, no caso, o fato de não saber ler nem escrever.

4.4 – O Outono de um Povo:

A esta altura já temos esquematizado em nossas cabeças como pode ter sido o Império Olmeca, se é que ele existiu, mas como entender como e por que ele desapareceu?

Devido à falta de fontes escritas, dificuldades de traduções do pouco que há e escassos vestígios arqueológicos, muitas teorias podem ser criadas para explicar o desaparecimento de civilizações que, num dado momento, entraram em colapso e desapareceram sem um motivo aparente. É bem verdade que o que este texto está se propondo a fazer é justamente criar uma dessas teorias, entretanto, o que diferencia uma teoria válida de uma teoria não válida é o grau de base Histórica e Arqueológica que a abstração do teórico tem. Há livros de ficção e de esoterismo que dão explicações as mais absurdas para as passagens nebulosas da História da Terra. Os autores desses livros costumam se intitular “guardiões da sabedoria perdida”, ou ainda “desvendadores de teorias da conspiração”. Em geral (para não dizer que todos são assim), esses livros não servem para nada além de enganar e, talvez distrair por algumas horas os seus leitores. O problema está no fato de que muitas pessoas vão ler estes livros da mesma forma que lêem a Bíblia (e que, em geral, costumam ler quaisquer coisas que encontram pela frente), ou seja, sem senso crítico. Dessa forma, tornam-se presas fáceis de mentirosos e espertalhões que utilizam de retórica para enganar os menos preparados. Fazem de suas crenças uma espécie de ciência e, sendo assim, ganham dupla legitimidade para o que dizem.

Como venho salientando ao longo de todo o texto, nada do que está sendo dito aqui é a verdade, não sabemos quase nada sobre os Olmecas, o que este autor está tentado fazer neste texto é dar uma interpretação (baseada em pesquisas arqueológicas sérias, mas nem por isso exatas) para o que pode ter sido a civilização Olmeca, sendo assim, a possibilidade que venho oferecer a vocês de como pode ter ocorrido o eclipse Olmeca é, como acabei de referir, apenas uma possibilidade.

Toda ordem estabelecida um dia, por mais que esse dia tarde, chega ao fim. A História está aí para comprovar isso. Todos os Impérios que o mundo já viram tiveram suas ascensões, seus apogeus (mais ou menos longos dependendo do poder dos inimigos do Império e da época em que ele existiu) e suas quedas (em geral rápida, mas, às vezes, lenta e gradual).

No caso dos Olmecas não foi diferente. Eles surgiram das cinzas e para elas retornaram, como diz o velho ditado bíblico. Da forma como desenvolvi a abstração de como pode ter sido a civilização Olmeca, parece claro que num determinado momento, por volta dos séculos VII ou VI a.C., eles acabaram por entrar em conflito com a civilização Maia. É certo que esta civilização ainda não tinha poder suficiente para confrontar o poderoso Império Olmeca e, sendo assim, inicialmente pareceu ser mais uma povo a ser engolido por sua expansão.

Inicialmente os Olmecas devem ter tentado penetrar no atual Estado de Chiapas, construindo centros cerimoniais e influenciando as populações, por volta do século VII a.C.. A resposta Maia pode ter sido o ataque e a destruição (pelo fogo) da cidade de Monte Negro, nos Vales de Oaxaca (vizinhos de Chiapas). Isso deve ter feito os Olmecas mudarem sua estratégia e atrasarem sua penetração na Área Central Maia. Queriam antes guarnecer suas defesas e conquistar o Planalto Central, um importante ponto estratégico para a conquista de todo o México.

Uma vez completadas as conquistas do Planalto Central e da costa do Pacífico, os Olmecas devem ter tentado penetrar no país Maia através de suas partes mais fortes: as Terras Altas (onde estão Izapa e Kaminaljuyú). É possível que acreditassem que se aquela região tombasse, o restante iria junto.

Devem ter havido algumas batalhas iniciais, por volta de 530 a.C., mas tais batalhas devem ter se decidido em favor dos Maias que, apesar de inferires tecnologicamente, estavam em imensa maioria por estarem se defendendo, além de terem em seu favor o fato de conhecerem o território em que estavam lutando (lembrem-se que os EUA, em pleno século XX, com aviões, radares e tudo o mais, não foi capaz de vencer um grupo de guerrilheiros da selva porque estes conheciam o território em que lutavam. Me refiro à Guerra do Vietna).

Depois dessa derrota inicial da qual os registros podem ter ser perdido, pois uma batalha na selva, sem armas capazes de danifica-la, realizada há tantos milhares de anos e com tão poucas pessoas envolvidas (sejamos realistas, se mil homens tivessem participado de uma batalha como esta, já teria sido muito) não deixaria realmente vestígios capazes de serem detectados. Os Olmecas podem ter resolvido mudar de tática. Passaram a pagar tributos para poderem passar com suas caravanas pelo Xoconochco, no intuito ou de, através da penetração cultural gradual, criar nos Maias um sentimento que lhes impelisse a se render aos Olmecas na esperança de obter os mesmos benefícios; ou ainda, de, criando cidades dentro e além do país Maia, cerca-los para uma futura invasão maciça (devemos nos lembrar que há vestígios de ocupação Olmeca em Las Victorias, uma cidade muito próxima de Izapa), além disso, com a rota de passagem por dentro das Terras Altas, o conhecimento do terreno (que havia feito a diferença na primeira derrota) estaria garantido.

Os Maias devem, a certa altura, ter percebido o plano dos Olmecas e iniciado as hostilidades (ou talvez as hostilidade tenham sido iniciadas pelos próprios Olmecas que acreditando já estarem preparados para enfrentar os Maias, começaram a se recusar a pagar os Tributos exigidos para a realização da travessia do Xoconochco).

Essa guerra teria sido ferrenha, mas, novamente como os Maias estivessem na defensiva, estes teriam levado a melhor desde o princípio (a que se lembrar que mesmo os Espanhóis, no século XVI, tiveram muito trabalho em conquistar as cidades Maias, isso porque nelas até mesmo as mulheres, os velhos e as crianças se defendiam arremessando pedras dos telhados de suas casas).

Acostumados a guerras, os Olmecas teriam acreditado que seria apenas questão de tempo até que vencessem mais essa, no entanto, só fizeram perder batalhas atrás de batalhas e, junto com elas, as vidas de seus melhores guerreiros, depois daqueles não tão boné, depois daqueles já velhos demais para lutar e, por fim, a daqueles jovens demais. Com efeito, os centros cerimoniais e os vilarejos ao seu redor começaram a ficar menos povoados por volta de 450 a.C.. As guarnições das colônias devem ter tido que ser movidas logo depois dos primeiros revezes e, sendo assim, as populações outrora dominadas, passaram a viver por conta própria, o que também contribuiu com a derrota Olmeca no sentido em que acabava com o abastecimento de produtos que oriundos das colônias.

Perto do ano 400 a.C., o governo de La Venta deve ter se dado conta de que não poderia vencer a guerra, mas que também não poderia para-la, caso contrário, os Maias acabariam com sua civilização. Também por essa época, Tres Zapotes deve ter se rendido aos Maias, ou por livre e espontânea vontade, ou por ter sido conquistada em um assalto, mas a hipótese que parece mais provável é a de uma mistura das duas coisas, ou seja, deve ter havido um ataque Maia e uma derrota da cidade, em seguida, os administradores do centro cerimonial devem ter se reunido e resolvido se unir aos Maias contra o governo de La Venta.

Com medo de sofrer o mesmo destino e, possivelmente, ainda mais enfraquecida pela guerra (uma vez que a cidade era menor, pois tinha sido reconstruída assim por La Venta em 600 a.C.), San Lorenzo deve ter sido abandonado por seus habitantes. Outros centros cerimoniais devem ter seguido o seu exemplo, o que desobrigou os Maias de empreender uma onerosa campanha de conquista do território Olmeca.

Isolada La Venta deve ter tentado se prender em seus aliados Zapotecas e Mixtecas, mas, não obtendo o mesmo resultado que obtivera quinhentos anos antes, começou a encolher. A fome deve ter caído sobre a cidade que deveria contar agora com uma mísera população masculina (quase dizimada pelas guerras). Com a fome devem ter vindo doenças e, é claro, uma diminuição brutal no padrão de vida de todos.

As guerras devem ter chegado ao seu fim por volta 375 a.C., fim esse propiciado pelo final das investidas Olmecas e pelo abandono gradual das cidades da Zona Metropolitana, o que fez os Maias desistirem da conquista.

Com medo de invasões e irada com os privilégios da elite (que contrastavam com sua fome) a população de La Venta começou a se sublevar (ou a abandonar a cidade, deixando a elite sem ter quem trabalhasse para sustenta-la) e passou a ser duramente repreendida pelo que restava m das tropas Olmecas.

Em cinqüenta anos, a situação não melhorou; não tinha como, o desgaste havia sido muito grande; e agora os governantes já não mais podiam contar com um efetivo de tropas grande o suficiente para protege-las de um levante popular. Temendo que o que ocorrera em San Lorenzo há mais de quinhentos anos se repetisse, as elites resolveram abandonar a cidade. Fugiram rumo a algum lugar (que alguns podem dizer se tratar de Teotihuacán (se bem que o centro cerimonial desta cidade só fosse ser construído por volta de 150 a.C.), outros podem dizer se tratar de Monte Alban (onde, como aliados, os governantes Olmecas podem ter sido acolhidos e, através de casamentos, desaparecido, fundidos na elite Zapoteca), ou até Chavin de Huantar (se bem que esta saída me pareça extremamente cinematográfica para ter sido real)) cuja relevância não é muito grande. Foi o fim de La Venta, por volta de 325 a.C. e, com ela, o fim do mundo Olmeca, cuja cultura ainda resistiria em Tres Zapotes por mais um ou dois séculos, mas depois, seria totalmente engolida pela cultura Maia de Izapa e Kaminaljuyú.

As populações restantes em La Venta, vendo-se livres de seus opressores (pois um Estado falido tende a oprimir ainda mais a seu povo na esperança de manter o status de sua aristocracia), teriam permanecido vivendo na região sem uma autoridade central, ou ainda, sido engolida pela influência de algum centro cerimonial, talvez Zapoteca.

Passados alguns séculos, os Maias poderiam ter encontrado La Venta desabitada e, tendo em seus registros as memórias da violenta guerra (que também deve ter vitimado muitos Olmecas), devem ter depredado as ruínas daquilo que um dia foi a capital do Império Olmeca.


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